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Pandemia, ano 3: entraves à vacinação de crianças fecham ano de luta pela saúde e prenunciam desafios em 2022

Foto: André Luiz D. Takahashi/Flickr
Postado em: 30/12/2021

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A liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) da vacina da Pfizer contra a covid em crianças menores marca as últimas semanas de um ano de muita expectativa para que a imunização avançasse. Com os entraves impostos pelo governo federal, de maneira semelhante ao que ocorreu com a vacina para os adultos antes, a promessa é de novos momentos de incerteza.

 

Além disso, embora tenhamos chegado ao final de 2021 com uma situação de progressivo controle da pandemia no Brasil, em termos de internações e mortes, surge outro fator de preocupação: a variante ômicron, que se espalha em velocidades assustadoras ao redor do mundo. A vacinação é capaz de impedir sintomas graves na grande maioria das pessoas, e protege mais quem tomou a dose reforço. Mas e a minoria? E os grupos mais vulneráveis, como idosos, e até mesmo as crianças, que restarão não vacinadas enquanto os adultos vão para a terceira dose?

 

Tudo isso nos indica que tanto por fatores do vírus, quanto pelos de cunho sociopolítico (e é difícil separar qual é qual), a insegurança sobre as questões sanitárias deve fazer parte do clima na entrada de 2022. Até porque alguns erros não foram corrigidos mesmo após dois anos de pandemia.

 

O difícil caminho da pandemia à endemia

 

Para o infectologista do Hospital Universitário da USP Gerson Salvador, o sars-cov-2 veio para ficar. “Isso é praticamente consenso na comunidade científica. Não vamos conseguir tirá-lo totalmente de circulação, também porque ele é um vírus de alta transmissibilidade e que faz muitas pessoas se infectarem de forma leve ou assintomática, facilitando que se dissemine. Outros coronavírus, como os da sars e da mers, causavam doença grave numa proporção maior, tinham menos facilidade de circular. Não eram tão bem adaptados à espécie humana como o atual. Mas muito provavelmente, quando tivermos um número grande de pessoas imunizadas, o sars-cov-2 pode circular como uma doença respiratória sazonal”, prevê.

 

O problema é que não vamos chegar magicamente a este estágio: são necessárias ações coordenadas. Para o ano de 2022, o médico acha que seguiremos precisando de uma resposta global para um desafio que é global, “mas falta espaço para essa decisão ser tomada de maneira compartilhada e definitiva”, diz. E exemplifica: apenas 8% das pessoas que vivem em países de baixa renda tomaram pelo menos uma dose de vacina para covid, frente a 57% da população mundial – considerando ainda que os países de baixa renda estão puxando essa média para baixo. Então existe uma desproporção muito grande, com bolsões de pessoas não imunizadas onde há mais chances de surgirem variantes.

 

Salvador lembra que, por enquanto, não tivemos nenhuma variante de alto impacto, como é chamada aquela que consegue fugir da resposta imune causada tanto pela vacina quanto por infecções prévias (a ômicron escapa dos anticorpos neutralizantes, mas isso é restabelecido com uma terceira dose). Dentro de um cenário com parte das pessoas imunizadas e bolsões de não imunizados, porém, pode aparecer uma cepa deste tipo. “Para uma variante substituir outra, ela tem que ter alguma vantagem adaptativa. Se surgir uma com essa característica, ela vai prosperar. Esse é um cenário possível, e pode jogar para trás nossos esforços – mas eu espero que isso não aconteça. Vacinar em massa não elimina em 100% esse risco, mas o reduz muito”, pondera.

 

Para além das vacinas, e da boa notícia dos novos medicamentos, como antivirais e anticorpos monoclonais, ele lembra que alguns países conseguiram controlar melhor a pandemia nos seus territórios a partir de medidas não farmacológicas coordenadas: China, Nova Zelândia, Austrália e o Vietnã, ao menos por tempo. “Locais onde a coletividade foi colocada à frente do indivíduo conseguiram dar respostas mais adequadas. Onde o indivíduo falou mais alto, ‘eu e meu direito de sair para onde eu quiser’; ‘eu e meu direito de não usar máscara’, com destaque para os Estados Unidos, houve respostas ruins”.

 
 

Mesmos erros

 

O Brasil também não foi exemplar no quesito de estratégias coletivas. “Este ano, mesmo com vacinas, tivemos um custo altíssimo em óbitos. Algo fizemos bem errado para termos muito mais mortes em 2021 do que em 2020. Não conseguimos implantar políticas em várias frentes, atuar de maneira mais forte e mais ágil”, diz Lorena Barberia, professora da FFLCH e coordenadora da Rede de Pesquisa Solidária.

 
Para ela, também pode ser considerado um tipo de negacionismo pensarmos “ah, essa onda foi a pior, não teremos outra”, e não resolver questões estruturais. Isso pode continuar nos custando caro em 2022. “Aí vem a próxima onda e a gente volta a descobrir os problemas que não solucionamos desde o primeiro ano da pandemia”, diz. Por exemplo: se era difícil testar bastante em momentos de surto intenso, então quando os casos diminuíram seria a hora de agir e começar a testar. “Houve dificuldade de fazer a substituição de estratégias nos diferentes momentos da pandemia. Temos que ter uma estratégia mais coerente, pronta para ser usada quando tivermos um intervalo entre os picos”, defende Lorena.
 

 

Na opinião da pesquisadora, em 2021 colocamos muita ênfase em vacinação, ignorando outras medidas que tinham que fazer parte da resposta. “Não perdemos muitas vidas só porque a vacina chegou tarde, mas porque flexibilizamos as medidas em um momento de risco ainda muito elevado, desmontamos os comitês científicos e os programas de monitoramento. Os dados ficaram mais fragmentados, defasados, e não conseguimos entender o que estava acontecendo.” Para um 2022 mais tranquilo, ela acredita que temos que ter um sistema de alerta e uma estratégia definida para reagir ante a emergência. “Muitos governos simplesmente decidiram que o pior havia acabado e que a resposta ficaria focada apenas na vacinação”, critica.

 

Mais uma área negligenciada, na visão da professora, foram os grupos vulneráveis, como as crianças e idosos. “As crianças foram muito expostas ao risco em 2021, seja de morte, seja de terem problemas em longo prazo por terem sido infectadas. Quase não se fala em covid longa no Brasil, por exemplo. E nós subestimamos estes riscos, sempre dizendo que não eram tão grandes.”

 

Para ela, o fato de não termos transmitido aos pais e à sociedade a necessidade de proteger as crianças também se reflete na dificuldade atual de cobrar com mais ênfase uma campanha de vacinação para elas. “O próprio Butantan esperou muito para fazer o pedido à Anvisa do uso infantil da CoronaVac, mesmo já havendo dados com este grupo”, lamenta.

 

Negação da ciência: para onde vamos

 

A retórica negacionista foi uma constante durante toda a pandemia, “flutuando em menor ou maior grau dependendo do quão belicoso o governo se posicionou”, avalia José Gallucci Neto, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Em pautas críticas, como vacinas, e adoção de medidas não farmacológicas, esse foi um negacionismo orquestrado pelos seguidores do governo federal e que, para ele, trouxe dois impactos principais. “Primeiro na própria saúde pública, que é você ter as pessoas se contaminando sem necessidade, ao desobedecer regras sanitárias mínimas, como se não houvesse um problema acontecendo. Isso aumenta a mortalidade e reduz a cobertura vacinal, não só de covid. Outro impacto que eu considero igualmente importante, mas não é tão falado, é o de minar a credibilidade das grandes referências institucionais em ciência. De repente a orientação da OMS [Organização Mundial da Saúde] já não tem valor porque alguém disse que aquilo tem influência ideológica ou há algum interesse comercial envolvido. Ou a Anvisa já não tem mais a palavra final sobre determinado assunto porque teria alguém infiltrado ali.

 

Assim, argumenta Gallucci, há uma perda de confiança nas grandes instituições ligadas à saúde. “A gente pode colocar aí os grandes periódicos científicos, as universidades…  A palavra que vem da Universidade já não passa tanta segurança para a população quanto a de um cara que tem um canal no Youtube e diz que a pandemia é uma fraude, por exemplo”, avalia, relatando ter recebido muitos telefonemas esta semana de pessoas próximas questionando se dá para confiar na decisão da Anvisa sobre a vacina infantil. “Pessoas que nunca questionaram isso antes, pessoas letradas, mas que recebem informações de grupos negacionistas questionando a idoneidade dessas instituições”, lamenta.

 

Para ele, o silêncio dos Conselhos Regionais e Federal de Medicina e até da Universidade quanto ao comportamento de alguns dos seus membros acaba dando força para o movimento negacionista.  “A Universidade também não pode mais ser passiva, ela precisa se manifestar de alguma forma, se posicionar sobre seus profissionais. Não é querer proibir as pessoas de falarem, mas deixar muito claro que aquilo não representa a visão da Universidade. Eu acho que isso tem que ser feito com mais frequência, sabe? Essa sinalização ainda é muito dependente de pressão, e precisa ser mais espontânea. Não dá mais para ficar esperando acontecer a tragédia. O resultado de tudo isso que nós estamos vendo está escancarado no número de mortos, na queda de cobertura vacinal… Nós vamos colher os frutos desses dois anos de negacionismo pelos próximos cinco a dez anos”, prevê José Gallucci.

 

Como destaque positivo, o pesquisador cita os comunicadores de ciência, que fizeram “um trabalho hercúleo e muito impactante”. “A meu ver, influenciaram inclusive grandes gestores políticos. O Omar Aziz deixou muito claro que, durante a CPI, muitos questionamentos que ele levantou e informações que ele recebeu vieram dos comunicadores sérios ligados à ciência. Todo o trabalho feito pró-vacinação, apoiando ali no início a CoronaVac, desmistificando a história de que era uma vacina ruim, manteve a aderência da população à vacinação, que já é alta no Brasil. Isso teve um impacto enorme para a saúde pública, questionar de forma ativa a informação falsa e levar a informação verdadeira, desmistificando os medos das pessoas”, conclui.

 

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