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"Boa noite, Cinderela" faz vítimas perderem mais de R$ 40 mil em Sorocaba; polícia faz alerta

Postado em: 16/12/2021

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O retorno de festas e bares, após o fim das restrições do Plano São Paulo de combate à pandemia, trouxe também o aumento no registro de casos do crime popularmente conhecido como "boa noite, Cinderela". Em Sorocaba, os registros não param de crescer, principalmente na área norte da cidade. “Com a chegada das festas e confraternizações de final de ano, a população precisa estar atenta, pois este é um crime silencioso e mais comum do que se pode imaginar”, alerta o delegado Acácio Leite, responsável pelo 8º DP (Distrito Policial).

 

Entre as investigações em andamento estão os casos de seis vítimas: uma mulher de 37 anos - que está foragida da Justiça - e levou mais de R$ 40 mil aplicando golpes em três vítimas; e um ex-diretor de área do atual governo, que foi dopado num bar da cidade e dois aposentados. Entre as principais drogas utilizadas no golpe estão o medicamento clonazepam (conhecido como rivotril) e a cetamina (medicamento anestésico para uso humano e veterinário).

Crimes em série


Em fevereiro deste ano, a dona de casa I.M, de 62 anos, recebeu a vizinha, de 37 anos, em sua casa, no Jardim Montevideo. Segundo seu depoimento, a vizinha sempre foi muito prestativa e ficou para almoçar junto com ela e seu filho, que é PCD (pessoa com deficiência). A mulher, chamada E. A. R. de P., foi insistente em lhe oferecer um copo de suco após o almoço. A vítima notou um pó no fundo do copo, mas mesmo assim bebeu. Em pouco tempo ela se sentiu mal e com sonolência. A suspeita levou Irene para se deitar. 

A dona de casa recobrou a consciência 24 horas depois, já no pronto-socorro, onde foi levada por familiares. Um dia depois, a vítima notou que o cartão de benefício do filho e seus cartões de mercado desapareceram. A investigação apontou que a então indiciada sacou duas vezes o valor de R$ 2 mil do benefício do filho da dona de casa. E. A. R. de P. foi reconhecida nas imagens da câmera de segurança. 

Em março de 2021, um aposentado de 73 anos veio de Itu a Sorocaba para entregar R$ 10 mil arrecadados em doações para a prótese de uma pessoa com deficiência, quando decidiu passar pela casa de uma amiga, no Jardim São Camilo. De acordo com seu depoimento, o aposentado almoçou na casa e lá conheceu uma mulher chamada E. A. R. de P. (a mesma que vitimou a dona de casa I.M), com quem saiu para comprar um refrigerante. No caminho ele comentou sobre a doação e, ao voltar para casa da amiga, tomou refrigerante durante o almoço.

O homem sentiu uma sonolência incomum e dormiu no sofá da casa. Sua amiga desconfiou quando viu a indiciada ao redor do homem acariciando seu rosto e beijando sua testa. Algumas horas depois, o aposentado acordou e percebeu que sua carteira e chaves do carro estavam num lugar estranho. Por isso, ele foi conferir as doações e constatou que a metade (R$ 5 mil) tinha desaparecido. A indiciada voltou e a amiga percebeu que ela tinha furtado o homem e chamou a Polícia Militar. Para fugir, a suspeita se trancou no banheiro e deixou sua necessaire fora, em cima de um armário. Lá a amiga encontrou a cartela de clonazepam, que foi usada no crime. 

Um soldador de 71 anos também foi vítima da mesma mulher. Ele chegou a morar com a suspeita, lhe emprestando R$ 2 mil. Ela conseguiu fazer empréstimos no nome do homem no valor de R$ 30 mil.

Inicialmente, a indiciada negou os crimes na Polícia Civil, mas acabou confessando. O inquérito foi concluído e sua prisão foi decretada, mas ela está foragida. “Acreditamos que existam outras vítimas, mas algumas não procuram a polícia, principalmente por vergonha”, destaca o delegado. Mais de 90% das vítimas deste tipo de crime são homens. 

Bebida na mesa


No final de julho, o ex-diretor de área Rafael Pinheiro deixou um culto religioso e seguiu até uma conveniência na avenida Ipanema, para tomar um energético, encontrando um conhecido, que estava no local com outras pessoas. De acordo com seu depoimento, Rafael deixou a bebida na mesa enquanto foi ao banheiro. Quando retornou, continuou bebendo com o grupo por cerca de 30 minutos, quando começou a se sentir sonolento. Mesmo assim, ele os acompanhou até a avenida Juvenal de Campos, na conveniência de um posto de combustíveis. Lá ele alega que começou a se sentir atordoado e com a visão embaçada. 

A vítima sentou numa das mesas e percebeu a aproximação de algumas pessoas. Um deles disse que iria levá-lo para casa, pois estava visivelmente passando mal. Lhe ofereceram uma bebida tônica, Rafael  tomou e passou a sentir vertigem. Ele foi ao banheiro, lavou o rosto e, depois disso, não se lembra de mais nada. Ele retomou a consciência quase dois dias depois, após passar por atendimento médico. Foi então que seus familiares lhe contaram que ele foi encontrado num drive-in na avenida Hermelino Matarazzo, com a apreensão de sua arma, acompanhado de uma pessoa desconhecida. 

Depois disso, ele realizou os exames toxicológicos em laboratórios certificados que apontaram em seu corpo a presença de cetamina, clonazepan e midazolan. A partir disso, seu caso foi registrado. A Polícia Civil passou a investigar o caso. A vítima deu falta de alguns de seus pertences pessoais e a Polícia Civil acredita que, devido a intervenção do responsável pelo local e a intervenção da Polícia Militar, Rafael não foi mais lesado. A investigação está em andamento. 

“Esse é um crime de oportunidade, no qual os criminosos conseguem dopar as vítimas para praticar vários crimes, incluindo os financeiros. Por isso queremos deixar o alerta: não aceite bebidas, nunca deixe seu copo sem supervisão e, se desconfiar que foi dopado, não deixe de procurar a polícia e fazer um exame toxicológico”, conclui o delegado Acácio.

Outros casos


Em março, um aposentado de 76 anos, concordou em conversar com uma empregada doméstica para que ela limpasse sua casa. Em certo momento, ela ofereceu a ele um copo de refrigerante. A vítima só recobrou a consciência horas depois, sentindo falta do celular e do dinheiro que estava com ele. 

Em outubro, um autônomo de 60 anos veio de São Paulo até Sorocaba para encontrar uma mulher que conheceu na internet. Ela estava com outras duas pessoas e lhe deu um copo para beber. Depois disso ele perdeu a consciência. O grupo o levou a diversas lojas no shopping da zona norte da cidade para fazer crediários, comprando celulares e pegando os documentos da vítima. Os casos foram registrados. 

Efeitos no organismo


O professor e doutor em toxicologia, Éric Barioni, explica que substâncias como clonazepam e cetamina são fármacos depressores e perturbadores do sistema nervoso central. “A prática do "boa noite, Cinderela" encontra justamente nos efeitos adversos e colaterais de fármacos como a cetamina e os benzodiazepínicos, incluindo o clonazepam e midazolam, a oportunidade para o abuso e demais tipos de crimes. Como efeitos colaterais, esses fármacos podem causar diferentes graus de sonolência, sedação, letargia, incoordenação motora e alteração de memória”, destaca.

O especialista complementa ressaltando que os efeitos colaterais são agravados devido a misturas e dosagens desconhecidas, utilizadas pelos criminosos. “Estas substâncias podem causar quadros graves de intoxicação e até mesmo morte”, diz. Além disso, a vítima não se lembrará de praticamente nada, mantendo-se sonolenta e letárgica durante o efeito dos medicamentos, “respondendo facilmente aos comandos dos bandidos e pode até ser conduzida sem resistência pelos criminosos”.

A cetamina é um anestésico dissociativo. “É indicada para uso humano e em animais, porém, dependendo da dosagem, tem efeitos alucinógenos, por isso se consolidou como a droga do estupro”, complementa. O especialista explica que a pessoa pode estar acordada, mas fora de si, fazendo o que o outro pedir. 


Eric esclarece que, para análises toxicológicas, o cabelo é a melhor amostra ou matriz biológica. O crescimento do cabelo é de aproximadamente um centímetro ao mês, e isso permite realizar análises total ou de forma segmentar (mês a mês). O Brasil conta com vários laboratórios de toxicologia certificados, e alguns deles estão localizados em Sorocaba e região.


O especialista finaliza deixando um alerta: “estas drogas são muito fáceis de serem colocadas nas bebidas, pois não têm cheiro, cor ou sabor, portanto especialmente em festas, bares e eventos diversos, cuide do seu copo e da sua bebida”.

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