Informação e Credibilidade para Sorocaba e Região.

Animais atropelados e queimados lotam centro de reabilitação em SP

Foto: Agência Brasil
Postado em: 16/10/2020

Compartilhe esta notícia:

Roberto de Oliveira, FOLHAPRESS


Bela está apoiada num tronco com o toco da pata dianteira direita amputada; Maria Bonita, que divide com ela o recinto, já não tem uma das patas direitas e sua cauda foi cortada ao meio. As duas jaguatiricas são personagens de uma história triste, vivida por muitos animais silvestres nas cercanias de rodovias e condomínios paulistas.


Vítimas de atropelamento, Bela e Maria Bonita perderam para sempre o direito à liberdade. Resta-lhes o confinamento, restrito a uma área de 7,25 m por 3,10 m.


A dez passos dali, cerca de 20 animais silvestres se dividem entre gaiolas e caixas de transporte: maritacas com asas cortadas por linha de pipa; saguis queimados por contato com fiação elétrica; um carcará com patas quebradas e uma coruja com asas fraturadas em choques com veículos; filhotes de gambá órfãos da mãe morta a marretadas.


Menos fortuitos do que poderiam parecer à primeira vista, os acidentes e os atos de crueldade que condenam esses animais à morte ou à dependência de abrigo são o reflexo do descaso com a preservação da fauna brasileira.


Estamos a 50 km de São Paulo, em Jundiaí, na sede da Associação Mata Ciliar, instituição que, nascida para salvar o verde, se viu às voltas com o destino dos moradores nativos das matas, que vêm sendo expulsos de seu habitat. Aqui funciona um centro de acolhimento, tratamento e reabilitação de animais silvestres.


Devido à alta demanda, a tratadora Alexia Motos, 20, corre para dar um reforço na clínica. Carrega um ouriço que sofreu graves queimaduras nas patas dianteiras, na pata esquerda traseira e na cauda.


Em 34 anos de existência, a entidade nunca recebeu tantas vítimas como agora. Em média, 25 animais de todo o país vão parar ali diariamente –número recorde–, o dobro do que a entidade recebia no mesmo período de 2019.


De cada 10 que chegam, morrem 3 durante os primeiros atendimentos e sobrevivem 7, dos quais 4 ficarão em cativeiro pelo resto da vida. Apenas 3 voltarão à natureza.


"Aqueles animais que, no passado, eram resgatados em áreas rurais com ferimentos, agora se encontram encurralados por condomínios, parques industriais e rodovias. Os que ainda sobrevivem são engolidos pelo fogo das queimadas, alvejados por tiros de caçadores e capturados para serem comercializados como animais de estimação", relata Jorge Bellix de Campos, 60, presidente da associação.


"O cenário mudou rapidamente. E a fauna não teve tempo nem a devida atenção para ter uma chance de sobreviver."


Hoje, 1.100 animais de 200 espécies vivem em suas três unidades. Para alimentá-los, são necessárias mensalmente três toneladas de carne e duas de frutas e verduras, além de cinco quilos de leite em pó.


Com cerca de quatro meses de idade, a onça-pintada Gaia, apesar dos traumas, mantém o jeito serelepe. A pequena presenciou o assassinato da mãe na floresta amazônica por caçadores contratados para matar os animais adultos e traficar os filhotes depois que o fogo arrasou a mata.


Gaia chegou ali já sendo chamada assim, mas a equipe de tratadores, biólogos e veterinários evita nomear os bichos que vão voltar para casa. O intuito é evitar vínculos emocionais que possam atrapalhar o processo de reintrodução na natureza.


"A reabilitação estimula o animal a ter o comportamento natural da espécie. Depois de recuperados, o pássaro reaprende a voar, o felino volta a caçar", explica o biólogo Rodrigo Falcão Ventura, 25.


"Os que tiverem condições de retornar à vida livre precisarão aprender ainda a evitar áreas urbanas."


É aí que mora o perigo: a explosão de condomínios nos arredores das cidades avança sobre o habitat dos animais. O slogan imobiliário "venha viver em meio à natureza" faz parecer que a natureza é um cenário, sem vida própria, e que a presença humana não interfere no ecossistema. Ao levarem seus hábitos urbanos para o meio do mato, porém, as famílias acabaram expulsando os moradores originais.


Enquanto aplica antibióticos e analgésicos num gato-do-mato com pino na mandíbula, fraturada em um atropelamento, a veterinária Débora Rodrigues, 24, se diz impressionada com o número de vitimados e com a crueldade de pessoas que submetem os animais a maus-tratos. "O que me assusta é a violência: pauladas, tiros de chumbinho, atropelamentos, queimadas."


Neste momento em que o país pega fogo, muitos daqueles que fogem dos incêndios morrem ou sofrem lesões em colisões com os automóveis.


Reconhecida pelo trabalho de proteção à fauna nas rodovias brasileiras, a bióloga Fernanda Abra, 34, explica que reduzir acidentes com animais é importante para garantir a segurança humana e a conservação de espécies, além de fazer bem à economia. Falta, contudo, adequar as estradas.


"Medidas como a implementação de passagem de animais em combinação com cercas específicas para impedir o acesso deles às estradas têm-se mostrado eficientes para conter esses acidentes."


Com ações desse tipo, segundo ela, seria possível reduzir as mortes dos animais silvestres em até 86%.


A Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente informa que o governo paulista exige das operadoras das rodovias a implantação de medidas de mitigação do atropelamento, como passagens de fauna associadas a cercas direcionadoras, que ocupam 200 km.


Atropelado, por pouco o lobo-guará Tambaú não teve a pata traseira amputada na segunda das quatro cirurgias a que se submeteu para a implantação de pinos. Agora, ele já está pronto para correr entre na mata, mas ainda lhe falta ambiente de soltura.


Vilma Clarice Geraldi, diretora do Departamento de Fauna, explica que a secretaria incentiva áreas de soltura e monitoramento em propriedades particulares paulistas cujos donos aceitem receber os animais reabilitados.


Em seu programa de origem, a Mata Ciliar mantém viveiros de mudas florestais, onde produz 200 espécies de plantas da mata atlântica e do cerrado. São ipês-verdes, lobeiras e paus-viola, entre outras, que poderão, amanhã, enriquecer as florestas e devolver a Tambaú e a outros animais nativos o seu lugar.

Compartilhe:

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Prefeitura amplia leitos de enfermaria Covid na Santa Casa

Em operação para coibir aglomerações, são encerradas atividades em três estabelecimentos

Brasil tem menor média móvel de casos de Covid desde 20 de maio de 2020

Ex-marido invade casa na Zona Leste de Sorocaba, esfaqueia mulher e o pai dela em ataque de fúria

Operação Dignidade aborda 39 pessoas e terá nova edição ainda esta semana

Servente que usava carro de aplicativo para traficar drogas é preso em flagrante