Zombar de atrasados do Enem mostra falha da educação, dizem especialistas

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Paulo Gomes, FOLHAPRESS

Já virou tradição, em domingos de Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), grupos de pessoas se aglomerarem em frente aos locais de prova para torcer pelo atraso de candidatos. A ideia deles é se divertir com a decepção de quem não consegue chegar antes do fechamento dos portões e perde a prova, que auxilia no ingresso do ensino superior.

A prática é vista por estudiosos na área de psicopedagogia e de violência no ambiente escolar como sintomática da baixa educação no país. “É uma representação do nosso sistema educacional”, diz Sergio Kodato, psicólogo coordenador do Observatório de Violência e Práticas Exemplares ligado à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto.

Segundo Kodato, o comportamento é um reflexo do que já acontece de maneira corriqueira dentro das salas de aula, o bullying. Ele diz haver uma distinção entre rir espontaneamente de quem escorrega e cai, por exemplo, e de alguém que está em uma “situação de perda, de desgraça” como quem perde a chance de fazer o exame. “É bem constrangedor.”

Para a professora de psicopedagogia da faculdade de educação da PUC-SP, Neide de Aquino Noffs, a situação é uma demonstração clara de falta de empatia. “O outro tem que sofrer mais do que ele [quem debocha], ele tem que saber que tem alguém perdendo algo, e não reflete sobre como aquela pessoa está se sentindo.”

Ela diz que o índice de evasão da prova contempla também as pessoas que se atrasaram e desistiram de ir por saber que não daria tempo e, portanto, evitar a humilhação em público -no primeiro dia de provas deste ano, a taxa de ausência foi de 30,2% dos candidatos. “O sujeito que vai até a porta quer entrar. Ninguém planejou se candidatar por um ano e chegou atrasado porque quis.”

Noffs diz que, nessa alta proporção de ausências, além de imprevistos estão alunos que não têm estrutura para lidar com a pressão e acabam “fugindo” da prova, por medo de falhar, pela insegurança de tentar e não conseguir. “Não querem que a família o ache um fracassado.”

CONJUNTURA

Para o cientista político João Trajano Sento-Sé, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, há dois pontos que ajudam a explicar esse prazer em humilhar. O primeiro é estrutural, a violência simbólica no ambiente escolar por meio do bullying, da opressão.

O segundo, conjuntural. Sento-Sé diz que o momento de crescente intolerância pelo qual passa o país, “em que elites empresariais escarnecem de políticos e políticos escarnecem do povo”, embasa a prática de atacar quem falha. A desqualificação do outro é mútua, diz. “Há uma degradação do respeito recíproco.”

SOLUÇÃO

Sento-Sé diz ser preciso enfatizar o que há de “lamentável e negativo” em manifestações dessa forma. “Elas [as troças com os atrasados] não expressam um espírito brincalhão, como um participante poderia justificar. Isso não é lúdico, é desrespeito.”

Kodato afirma que o que deve ser estimulado para provocar uma mudança comportamental é a alteridade no ambiente escolar, “trabalhar a relação com o outro que é diferente de você”. “O indivíduo burro é aquele que vê o diferente e o menospreza”, diz. “O inteligente suporta, convive e vai aprender com o diferente.”

Alunos vítimas de bullying, perseguidos com o estigma de “perdedores” ou “fracassados” têm que ser trabalhados no ambiente escolar, diz. “Temos que botar eles para produzirem, fornecer sentido para a existência dessas pessoas. Um dos instrumentos é a cultura”, afirma.

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