‘Vulva ideal’ leva mulheres a procurar cirurgias para melhorar autoestima sexual

Foto: reprodução/Youtube/Jamie McCartney

Rachel Botelho, FOLHAPRESS

Não é de hoje que mulheres se preocupam com as alterações anatômicas e funcionais na região íntima. A novidade é que, nos últimos anos, o tema vem deixando de ser tabu entre amigas e ganhando cada espaço em consultórios médicos.

Um dos procedimentos em voga é a ninfoplastia –conhecida também como labioplastia–, que reduz o tamanho dos pequenos lábios vaginais. O Brasil é campeão mundial em cirurgias íntimas – a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) aponta que 25 mil intervenções do tipo foram realizadas no ano passado.

O número corresponde a 1,7% das cirurgias estéticas e é “expressivo”, segundo o cirurgião plástico Luís Henrique Ishida, coordenador do censo. Embora não haja dados anteriores, os médicos dizem que a procura está aumentando.

No mundo, a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética registrou 138 mil labioplastias em 2016. O Brasil é seguido de longe pelos EUA, segundo colocado com 13.276 ninfoplastias.

As razões para se submeter ao bisturi –ou, mais recentemente, ao laser– variam. Parte das mulheres vai pela questão estética, outra, por problemas funcionais. Uma terceira parte, por uma combinação dos fatores.

As gêmeas Fernanda e Bruna, de 32 anos, se enquadram no primeiro grupo. Embora já tivessem notado que os lábios eram salientes, foi um comentário do marido de Fernanda que a impulsionou a operá-los em agosto –e a levar a irmã junto.

“Tinha um volume, mas não me incomodava. Até que, no início do ano, meu marido disse meio brincando: ‘Nossa, você tem um negócio pendurado'”, conta. “Isso mexeu com minha feminilidade.”

Depois de ler na internet que o procedimento e o pós-operatório eram breves (45 minutos e cinco dias, respectivamente), ela conversou com a irmã e decidiram operar no mesmo dia. Tanto Fernanda quanto Bruna dizem que “valeu muito a pena”.

A utilização do laser de CO2 é uma das razões para o boom de plásticas íntimas dos últimos anos, apesar de a cirurgia convencional ter as mesmas vantagens, de acordo com Ishida. “O laser tem apelo comercial por ser uma nova tecnologia.”

Apesar de defenderem a correção em casos de problemas funcionais, os médicos veem certo exagero na busca pela ninfoplastia.

“Existe muita variação no aspecto dos lábios. É preciso ter um olhar crítico e não fazer o tratamento só por modismo”, diz Zsuzsanna Jarmy Di Bella, professora de ginecologia da Unifesp.

“Precisamos ter bom senso para lidar com expectativas irreais de algumas pacientes”, diz Ishida, para o qual há também influência da estética pornô no fenômeno.

As mulheres que têm os lábios hipertrofiados e se queixam de sensibilidade ao usar roupa íntima ou de dores durante o sexo têm indicação para a cirurgia. “O maior cuidado é orientar as que buscam uma fantasia, do lábio rosado e perfeito”, diz Di Bella.

Não há tamanho ou cor certa. “Lábios são como o nariz. Podem ser maiores, menores, de cor amarronzada ou rósea, assimétricos, e mesmo assim normais”, compara.

Rejuvenescimento

O clareamento é um dos procedimentos mais desejados do “rejuvenescimento vaginal”. O nome vem a calhar, já que o envelhecimento provoca problemas –ressecamento, perda de volume externo, flacidez, escurecimento da pele e estreitamento do canal vaginal– que as técnicas prometem reverter.

Nos últimos anos, a radiofrequência e o laser começaram a ser usadas para estimular a produção de colágeno, o que melhora o aspecto. “Antes havia cremes à base de estrogênio, mas as mulheres não gostam de aplicá-los por longos períodos”, diz a médica.

Por serem de uso recente, os efeitos do laser e da radiofrequência na região genital ainda são pouco estudados, mas uma pesquisa publicada no periódico “Photomedicine and Laser Surgery” apontou melhora em sintomas como secura, queimação, coceira e dor.

O procedimento vem sendo procurado por mulheres na casa dos 30 anos e por aquelas na menopausa, diz o ginecologista Thomas Moscovitz, da clínica Endogenics.

A advogada Simone Lupino, 51, tinha uma leve incontinência urinária e viu melhora na primeira sessão –a indicação é de duas a três, seguidas por manutenção anual.

“Eu fazia ginástica ‘jump’ e notava perda de xixi. Exames não mostraram nada”, conta. “Eu me incomodava com a coloração escura, e a resposta foi superbacana”, comemora.

Foto: Folhapress/Folhapress