Software identifica ‘rosto gay’ e gera preocupação

Reprodução: Universidade de Stanford (EUA).

Reinaldo José Lopes, colaboração para a FOLHA

Método computacional simula redes neurais para tentar encontrar diferenças no aspecto da face; precisão do método é de 90% para homens e de 80% para mulheres; a do olhar humano fica entre 55% e 60%

O estudo americano que usou inteligência artificial para identificar pessoas homossexuais com base em traços do rosto tem bases científicas sólidas e pode até mesmo funcionar como alerta contra a discriminação, afirmam especialistas entrevistados pela Folha.

Embora reconheçam a validade da preocupação gerada pela pesquisa, eles argumentam que suprimir esse tipo de análise é contraproducente, considerando que ela utiliza tecnologias que estarão disponíveis de forma cada vez mais ampla. A pesquisa foi aceita para publicação no periódico científico “Journal of Personality and Social Psychology”.

Michal Kosinski e Yilun Wang, da Universidade Stanford, usaram redes de computador que simulam, em parte, a capacidade de aprendizado dos neurônios humanos para identificar possíveis pequenas diferenças no aspecto facial de pessoas homossexuais e heterossexuais causadas por sutis diferenças hormonais.

O olhar humano tem algum sucesso – pouco superior ao esperado aleatoriamente – em identificar variações desse tipo, bem como diferenças no tom de voz e comportamento, mas a aposta dos cientistas era que o sistema poderia ser mais sensível.

Após analisar milhares de fotos em sites de relacionamento, o sistema chegou a detectar quem era homossexual e quem era hétero, ao comparar duas fotos de indivíduos diferentes, com precisão de até 90% para homens e de até 80% em mulheres. Para comparação, o nível de acerto usando apenas o olhar humano fica entre 55% e 60%.

PRIMEIRA IMPRESSÃO

“Confesso que a primeira impressão que tive antes de ler foi de realmente ser um estudo muito perigoso, quase impublicável”, diz Marco Antonio Correa Varella, que faz pós-doutorado em genética comportamental no Instituto de Psicologia da USP.

No entanto, Varella ressalta o “cuidado metodológico” da pesquisa e o fato de que o próprio trabalho aponta “para uma vulnerabilidade real da invasão da privacidade, a ser considerada e regulada”.

“Para mim, o estudo foi muito bem feito, e os autores pensaram bastante sobre os abusos possíveis”, diz Jaroslava Valentova, professora do Instituto de Psicologia da USP. Um dos trabalhos dela é citado pelos cientistas de Stanford por mostrar possíveis diferenças sutis de formato entre os rostos de gays e héteros.

“Nenhum dos resultados é completamente novo”, diz. “Já sabemos que indivíduos com diferentes orientações sexuais tendem a ter outras diferenças morfológicas, comportamentais, psicológicas, que geralmente são pequenas, e que a inteligência artificial consegue realizar várias tarefas com maior sucesso do que os humanos. O que pode parecer problemático é a mistura dessas duas linhas.”

Kosinski não respondeu aos pedidos de entrevista da Folha, mas publicou comentário sobre o assunto em seu site. Nele, diz que também teve dúvidas a respeito da publicação do estudo, mas decidiu que era mais responsável alertar as pessoas sobre a viabilidade da tecnologia e os riscos dela. Afirmou também que não disponibilizará o sistema – até porque ele foi montado com ferramentas disponíveis para qualquer programador.

“É balela”, diz Maria Emilia Yamamoto, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “Certamente haverá acesso e reprodução de forma não autorizada, ou até mesmo a replicação da construção do algoritmo usando os parâmetros citados no artigo.”

Embora concorde com o valor científico do estudo, ela defende que ele deveria suscitar discussões mais profundas sobre o papel social da pesquisa e suas implicações no mundo fora dos laboratórios.

Os pesquisadores também destacam que os resultados podem, ainda que de forma involuntária, transmitir uma visão estereotipada da homossexualidade.

Os autores dizem que o computador pôde traçar uma distinção entre gays e héteros porque, de modo geral, as diferenças hormonais produzem homens com feições ligeiramente mais femininas (no caso dos gays) e mulheres com rosto um pouco mais masculinos (no caso de lésbicas). “Isso pode fazer a gente cair num essencialismo simplista”, diz Varella.

Em seu site, Kosinski afirma que será difícil, se não impossível, regular as redes sociais de maneira a evitar que imagens ou vozes postadas sejam analisadas por esse tipo de ferramenta. “A única proteção para os homossexuais é trabalharmos em favor de uma sociedade plural, radicalmente intolerante diante da intolerância”, escreve ele.