Por Carlos Mattos

Em média, as pessoas gastam cerca de 100 horas por ano lendo. No entanto, eles passam quase 2000 horas por ano assistindo televisão. Quarenta horas por semana em frente à TV e apenas duas horas por semana olhando para alguma coisa com palavras.

Uma pesquisa, realizada pela GFK Consumer & Market Trends, mostra a força da televisão no cotidiano das famílias brasileiras. O brasileiro dedica vinte por cento de seu tempo à TV. Em média, cada pessoa passa cinco horas diárias consumindo novelas, telejornais, reality shows, programas de auditório e transmissões esportivas.

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o número de leitores no Brasil, cresceu. Se em 2011 eles representavam a metade da população, em 2015 observamos um aumento de seis pontos percentuais. Mas ainda é pouco. O índice de leitura, apesar de ligeira melhora, indica que o brasileiro lê apenas cinco livros por ano – desses, um é indicado pela escola e três lidos por vontade própria. Do total de livros lidos, apenas metade foram terminados e metade lidos em partes. A média anterior era de quatro livros lidos por ano. Setenta e quatro por cento da população não comprou nenhum livro nos últimos três meses. Um dado alarmante: um terço dos entrevistados nunca comprou um livro.

Outro estudo relata que apenas catorze por cento da nossa sociedade iria em uma livraria ou biblioteca e sairia com um livro. Apenas dez por cento dessas pessoas leriam além do primeiro capítulo. Em quase todas as esquinas parece haver uma daquelas mega livrarias com um café e uma loja de música no interior. Então, como pode ser que ninguém esteja lendo? Bem, é verdade que as vendas de livros estão em alta em todos os tempos. Mais pessoas do que nunca estão comprando livros. Eles simplesmente não os leem.

Há dois anos, liderei a iniciativa de publicarmos um periódico com circulação interna na empresa que trabalho, num formato de revista, com artigos escritos por colaboradores de diferentes países onde a empresa está presente. Esta publicação bimestral, apresenta em média oitenta páginas por edição. Como editor responsável, assino a ‘carta do editor’, um texto onde procuro apresentar insights e reflexões, relacionados aos temas abordados nos artigos de cada edição. A publicação foi um sucesso, teve repercussão em onze países onde a empresa está presente. Todos comentam, temos contribuições de diversos colaboradores. Além da versão online, distribuímos uma versão em formato PDF, para facilitar a circulação e atingir o maior número de funcionários e colaboradores. Ao completar o primeiro ano desta publicação, enquanto apresentava uma palestra, na qual destacava os principais artigos publicados, sem mencionar que eles haviam sido publicados em nossa revista interna, percebi que a audiência parecia não conhecer aquele conteúdo. Era como se tudo que eu estivesse apresentando na palestra fosse novidade. O que me fez concluir que apesar de toda repercussão da nossa revista, de todos os feedbacks e números elevados de downloads, muitos não estavam lendo de fato o conteúdo. É preciso ler os livros. É ótimo possuí-los. Mas eles só vão ajudá-los quando você os ler.

Quer se divertir um pouco? Pergunte às pessoas que você conhece quais foram os últimos cinco livros que elas leram. Se alguém conseguir citar um único livro, será incrível. Embora isso possa ser cruel, será muito divertido para você. Em seguida, pergunte a eles que livro estão lendo no momento. Aposto que nove entre dez não estão lendo nada. A propósito, isso é uma pista para você. Não fique perto de pessoas que não leem.

Qual é a melhor forma para ler um livro? Se possível, compre o livro. As livrarias são ótimas, a maioria das livrarias oferece espaços de leitura, você pode encontrar o livro que procura em bibliotecas, além disso, você também pode emprestar livros de amigos. Mas estas opções funcionam para material de referência, para ficção ou romance, não faz diferença se você vai guardar o livro ou não depois de ler.

No entanto, quando você está investindo em um livro que contém informações que podem mudar sua vida coisas que você vai querer consultar repetidas vezes, você precisa comprar o livro. Se você simplesmente não puder comprar o livro, então vá até uma livraria e use um dos espaços de leitura. No entanto, no caminho para a livraria, chute-se no traseiro por estar tão quebrado que você não possa comprar um livro!

Se o livro é seu, você pode marcá-lo e fazer anotações. Pegue um marcador e marque as partes que dizem algo para você. Faça anotações na margem. Quando você terminar o livro, vá para o final do livro e em uma das páginas em branco escreva a data e, em seguida, resuma o que você aprendeu com esse livro. Na verdade, comece este novo hábito agora mesmo.

Comente com os amigos que ótimo livro você está lendo. Isso irá reforçar o que você está aprendendo. É também uma ótima maneira de impulsionar o seu próprio ego, porque é duvidoso que eles tenham lido algum livro recentemente. Além disso, pode incentivá-los a comprar um livro.

Não empreste ninguém a seus livros. Se você emprestar a alguém o seu livro, então você o privará do privilégio de marcar as partes que significam algo para ele, diminuindo assim o impacto que o livro terá em sua vida. Além disso, você provavelmente não receberá o livro de volta. Se é um livro que realmente falou com você, você vai querer de volta. Em vez disso, compre uma cópia do livro e presenteie a pessoa. Este é um sinal de generosidade, exibe sua natureza de doação e inflige nela um senso de obrigação que pode encorajar a pessoa a realmente ler o livro.

Compre muitos livros. Vá para as livrarias, navegue por todas as prateleiras, e quando o título de um livro falar com você, compre – mesmo que você não tenha tempo para ler agora. Sempre tenha alguns livros esperando por você.

Leia vários livros ao mesmo tempo. Tenho livros que levo no avião quando sei que tenho algumas horas ininterruptas. Eu também tenho livros na minha cama que eu uso para me relaxar e me ajudar a dormir. Eu tenho livros cheios de citações e capítulos muito curtos, que eu leio quando tenho apenas alguns minutos. Eu tenho livros que cobrem assuntos pesados que eu leio quando minha mente está bem desperta e posso me concentrar bem, e livros que são leves e não requerem muita concentração. Tenha uma variedade de livros disponíveis que se encaixem na hora, no lugar, e no seu humor.

Não hesite em descartar quando se encontrar no meio de um livro ruim. Você pode ler vinte páginas de um livro e decidir que não está dizendo nada para você. Descarte e pegue outro.

Leia por diferentes razões. Leia para aprender. Leia para elevar seu espírito. Leia por puro entretenimento. Qualquer livro é melhor que a maioria dos programas de TV. Não limite sua leitura a um gênero. Lendo apenas livros de autoajuda, você logo ficará imune ao bem que eles podem fazer. Então, leia livros sobre filosofia e espiritualidade e leia ótimas biografias, mas também leia mistérios, thrillers, humor e o resto, mesmo que se esteja por diversão.

Embora os livros representem a fonte mais fácil de aprendizado na minha opinião, não limite seu aprendizado apenas aos livros. Existem muitas outras maneiras de aprender. A Internet oferece muito conteúdo de boa qualidade e gratuito. Universidades renomadas, nacionais e internacionais, estão oferecendo excelente conteúdo gratuito. Participe de congressos e workshops, assista palestras presenciais e online. Converse com pessoas inteligentes. Quanto mais informações você tem à sua disposição, melhor você está preparado no processo de tomada de decisão. Quando se deparar com um problema, você terá uma bagagem intelectual que poderá recorrer para ajudá-lo a tomar a melhor decisão possível. Você não está mais “voando às cegas”.

Carlos Mattos é pai, professor, escritor e palestrante, apaixonado por tecnologia. Atua na área de desenvolvimento de software para o mercado corporativo desde 1998. Nomeado pela Microsoft como MVP por 12 anos consecutivos (2003-2016) e como Microsoft Regional Director (2017-2018) em reconhecimento às suas contribuições para as comunidades técnicas e acadêmicas. Mattos é Chief Architect e Head of Technology and Innovation na GFT.