Por Celso ‘Marvadão’ Ribeiro

(O Inferno é uma Divina Comédia. Até Dante sabia disso)

Tá bombando a afirmação do Papa de que o inferno não existe, ou algo assim.

O duro é que para a gente descobrir se existe ou não existe, primeiro é preciso morrer.

Aí já viu, né? Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer para apressar essa ida. Vai que a vida é só isso aqui mesmo…

Pense comigo. Se o Inferno, de fato, não existe, o Céu também não existiria. Questão de simetria filosófica, na equação da lógica.

Além disso, se o Inferno é uma ficção, então tudo é permitido. Até os padres podem fazer o que desejam sem dramas de consciência ou impasse entre a ética e a moral, entre a teoria e a prática.

Eu também acho que aquele inferno eterno, de fornalhas e chifrudos usado pela Igreja para assustar os crentes, não existe. Não condiz com a “bondade” divina. Até o tal do “purgatório” já foi desacreditado.

Mas a hipótese da inexistência da dimensão do Capeta bota por terra algumas coisas práticas. Já disse para um monte de gente “vá para o inferno”, e se ele não existe, então elas não foram, continuam perambulando por aí.

Sartre, em sua convicção existencialista, já disse “O inferno são os outros”. De fato, quem inferniza a gente é a opinião alheia, o que os outros pensam da gente.Aí ficamos sofrendo entre quatro paredes…

A Terra pode ser o verdadeiro Paraíso, ou o Inferno em vida. Questão de ponto de vista.

Pode acontecer de a gente morrer e nem ficar sabendo se o Inferno e o Céu estão lá, sei lá onde. Ai, meu, baubau, acabou tudo sem a gente ficar sabendo de nada.

Dói na alma pensar que não existiria uma memória eterna, um “backup” geral com todos os registros da nossa consciência, da nossa história pessoal.

Como existe uma penca de perguntas não respondidas nesta dimensão terrena, um monte de dúvidas infinitas que exigem respostas absolutas, seria uma tremenda falta de imaginação de quem criou tudo isso não apresentar, ao final, as respostas derradeiras para matar nossa sede de conhecimento. A equação vida-morte não estaria resolvida na Lógica do Tudo.

Existam ou não Céu e Inferno, os conceitos de Bem e Mal alimentam a evolução do homem e as conquistas civilizatórias, a Humanização da nossa espécie, dos nossos valores mais caros de generosidade e amor. E até estéticos.

Ainda que não exista nada no pós-morte, tenho certeza de que compensa agir orientado pela Ética dos Homens e da Natureza. Como é bom ser bom!

Se bem que, na prática, ninguém é totalmente bom, nem definitivamente mau. Isso se mistura em cada um nas doses pessoais da peçonha humana.

É por isso que eu gosto de ser “advogado do diabo”. Isto é, prever e discutir o que pode dar errado a partir da imperfeição humana, e até defender causas praticamente indefensáveis por puro prazer do exercício livre da lógica.

Na vida, o que dá para rir, dá pra chorar. E o que dá para criticar também dá para defender, para sorte dos advogados. Afinal, alguém aí quer defender Lula e Temer no tribunal do Juízo Final?

Nossa! Essa crônica era para ser humorística, picante, provocativa, e acabou sendo filosófica.

Esse Marvadão é mesmo um produto mentiroso, um poeta do lado do avesso.