14/01/2017 08h51 - Atualizado em 13/01/2017 11h30 | Ipanema Online

Dom Julio Endi Akamine: novo arcebispo de Sorocaba



Por Gustavo Ferrari

O jeito pacato de sansei (neto de japoneses), que nasceu em Garça, acostumado a manter a incansável rotina de orações e atendimento paroquial, permanece sereno, porém, delineia novo escopo de atuação a partir de agora. “Fui pego de surpresa, não esperava; estava viajando quando a Nunciatura Apostólica no Brasil me deu a notícia, em 6 de dezembro passado. Precisei dar algumas paradas no caminho de volta, para tomar um chá. Foi uma forma de me acalmar”, disse ao Jornal Ipanema, com exclusividade, o novo arcebispo de Sorocaba, dom Julio Endi Akamine, de 54 anos, que sucede dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues à frente da Cúria Metropolitana, a partir de 25 de fevereiro, em solenidade agendada para as 10 horas na Catedral Metropolitana.

Papa Francisco nomeou dom Julio após dom Eduardo ter completado 75 anos e pedido ao Vaticano renúncia ao cargo. Dom Julio recebeu a reportagem no Apostolado Católico dos Padres Palotinos, sociedade de vida apostólica, localizada na Vila Carrão, para uma conversa franca sobre a expectativa de assumir um novo compromisso em sua ordenação. Ele era bispo auxiliar do cardeal Odilo Pedro Scherer.

Em sua entrevista ao Jornal Ipanema, após o anúncio do papa Francisco, o agora arcebispo não se furtou a falar sobre temas considerados “delicados” como a questão da ideologia de gênero, pedofilia e o sacramento a pessoas divorciadas. Veja, abaixo, o que pensa o futuro líder católico à Região Metropolitana de Sorocaba.

Dom Eduardo

“O contato que tive com dom Eduardo foi muito rápido; alguns por meio do telefone e ontem [domingo, dia 9], na celebração do Jubileu de Ouro da Diocese de Jundiaí, quando tivemos a oportunidade de nos encontrar pessoalmente e conversar um pouco. Não pudemos falar muito sobre os detalhes da transição. Espero dar continuidade ao trabalho que ele realizou durante 11 anos à frente da Arquidiocese de Sorocaba. Ao assumir, a gente imprime um caráter pessoal no trabalho, no governo, na santificação e na pregação, mas isso não significa que deva ser uma ruptura. Muito pelo contrário. Espero continuar o bom trabalho que ele realizou e espero também que ele possa continuar realizando trabalhos junto à Arquidiocese de Sorocaba”.

Renovação carismática

“Os padres da Renovação Carismática fazem parte do presbitério e são os primeiros colaboradores do bispo. É um movimento reconhecido pela igreja e que procura seguir os ensinamentos do magistério, da disciplina, tanto litúrgica quanto sacramental, e espero ter um bom trabalho de colaboração. Tudo o que eu puder fazer para ajudar, colaborar, eu farei. Se necessário também corrigi-la, por que não? Não só em relação à Renovação Carismática, mas a igreja é muito rica em movimentos, associações de fieis, congregações, ordens. Há uma riqueza muito grande de carismas na igreja e todos devem ser ajudados, acolhidos pelo bispo. A responsabilidade do bispo é sempre essa: discernir os carismas e acolhê-los. O discernimento. Se são de fato dons do Espírito Santo são dons para a igreja e poder acolhê-los.

Ideologia de gênero

“Quero fazer uma distinção entre as pessoas e a teoria do gênero, que são coisas que se devem distinguir. As pessoas que têm tendências homossexuais, que se declaram transgêneros, cisgêneros, bissexuais, lésbicas, gays... São as pessoas, então, a igreja procura acolher a todos e costuma ter uma atitude de misericórdia, de acolhida. Isso não significa que a gente possa aceitar aquilo que nós chamamos de ‘ideologia de gênero’. Ela traz um problema muito sério: significa que o nosso corpo mente. Isso coloca uma cisão muito séria na própria pessoa, porque todos nós nascemos com um sexo. E negar esta realidade não é algo que ajuda as próprias pessoas. Então, a igreja precisa... não é um ataque, não é uma questão de conservadorismo, mas uma questão de humanidade. Dizer que o nosso corpo mente não ajuda as próprias pessoas. Não é algo que faz com que as pessoas amadureçam e possam crescer. A igreja procura ajudar as pessoas a encontrar a sua própria identidade sexual, podendo viver em harmonia com ela e a se relacionar com as pessoas e com Deus, a partir também desta identidade sexual”.

Sacramento aos divorciados

“A Exortação Apostólica ‘Amoris laetitia’ traz orientações que estamos estudando. Primeiramente, há uma preocupação muito grande com esses casais, que estão numa situação chamada ‘irregular’, ou seja, de procurar ajuda-los a amadurecer e crescer, no sentido de poder também receber o sacramento do matrimônio a aqueles que podem e têm condições. No caso daquelas pessoas que já foram casadas na igreja, uma atenção especial também nos casos de casamentos que podem ser declarados nulos. Muita gente, às vezes, carrega uma cruz que não é justa, por que o casamento foi celebrado na igreja, foi feito diante do padre, foram chamados os padrinhos, foi feita festa, mas na verdade houve um erro grave no consentimento e isto fez com que o casamento fosse nulo. De fato Deus não uniu aquele casamento, mesmo que tenha havido a celebração pública. Para esses casos há uma atenção especial para ajudar na declaração de nulidade, para que eles possam voltar à comunhão plena e à comunhão sacramental. Existem outros casos que, de fato, não se podem casar na igreja porque já estão casados e o casamento foi válido. A esses também uma atenção, com cuidado pastoral, com acompanhamento. A ‘Amoris laetitia’ apresenta como solução não uma nova lei, porque leis nós temos bastante, mas aponta para um acompanhamento e o amadurecimento da consciência das pessoas. E este é um caminho árduo, exigente, mais do que simplesmente colocar novas leis: significa a gente poder, de fato, ajudar os casais que estão nesta situação chamadas de ‘irregulares’ a também amadurecerem uma consciência correta e certa”.

Pedofilia

“As orientações são claras. Desde Bento XVI, a igreja tem tido uma vigilância muito grande com relação a abusos de menores. Isso não é algo que é só dos padres; os casos que envolvem a pedofilia dos padres são uma minoria, mas isso não significa que a gente não deva combater, que a gente não deva ter uma grande vigilância com relação a isso. A gente deve ter uma relação de proteção aos menores. Isto é uma atitude muito mais abrangente do que simplesmente a punição dos casos de pedofilia. Se trata do fato de a gente cuidar do bem integral dos menores, das nossas crianças; afinal de contas, eles devem ser protegidos, tutelados e ajudados no seu pleno desenvolvimento e amadurecimento”.

Aposentadoria dos padres

“A renúncia é ao ofício, nunca ao ministério. No caso concreto de dom Eduardo, ele pediu a renúncia do ofício, mas ele continuará exercendo o seu ministério. Com os párocos é a mesma coisa. Temos de levar em conta o seguinte: o ofício sempre exige que a gente tenha uma idade, principalmente por questão da saúde, do vigor físico, do trabalho, que às vezes é muito exigente. Existem pessoas que, com 80 anos, estão plenamente operativas, às vezes muito mais do que pessoas com menos idade; temos de levar em conta esses fatores”

Primeiro arcebispo de origem asiática do Brasil

Dom Julio Endi Akamine tem 54 anos e é natural de Garça, na região de Marília. Entrou para a ordenação católica em 1975, em Londrina, Paraná, onde completou os estudos no Seminário Menor São Vicente Pallotti. Fez o noviciado em 1979, no Seminário Rainha da Paz, em Cornélio Procópio (PR). É o primeiro arcebispo de origem asiática do Brasil.

Cursou Licenciatura em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica (PUC), de 1981 a 1983, e Teologia no “Studium Teologicum Claretianum”, de 1984 a 1987, na Arquidiocese de Curitiba. Foi ordenado diácono pela imposição das mãos de dom Luciano Mendes de Almeida no dia 25 de janeiro de 1987 na Paróquia Coração Eucarístico de Jesus e Santa Marina, Vila Carrão, Região Episcopal Belém, e foi ordenado sacerdote pela imposição das mãos de dom José Maria Maimone, em 24 de janeiro de 1988 na Paróquia Santo Antonio, cidade de Cambé, Paraná.

Obteve o Mestrado em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (1993 a 1995) e Doutorado na mesma Universidade (2001 a 2005).