03/12/2016 08h50 - Atualizado em 02/12/2016 08h37 | Ipanema Online

Vamos assistir a uma maratona de séries?




Em um dia nublado, fim de tarde de domingo, parece irresistível: é hora de assistir aquele episódio da sua série favorita para terminar bem o final de semana. Porém, para algumas pessoas é muito mais do que isso: é um desejo incontrolável e impulsivo de “devorar” as temporadas e assisti-las em uma sequência ininterrupta. Apenas algumas pausas para comer e ir ao banheiro fazem com que a pessoa pare a frequência frenética das chamadas “maratonas” de série. 

Cada vez mais as séries televisivas, principalmente as internacionais, têm conquistado o público brasileiro. Um dos grandes impulsores da febre no Brasil foi a Netflix, especialista em conteúdo de séries e filmes que podem ser assistidos pela internet. Atualmente a plataforma conta com mais de dois milhões de assinantes no país e até mesmo ultrapassou o faturamento anual de uma TV aberta nacional. 

Viciada assumida em séries, Isabela Carnelós diz emocionar-se com personagens e até mesmo ficou triste e desistiu de assistir a uma série depois de um episódio dramático. “Tem uma série que eu gostava muito e parei de assistir porque um dos personagens morreu”, conta. Para ela, o espectador “entra no universo dos seriados” e por isso o fascínio e vício pelos mesmos.

De cinco a dez séries 

Isabela revela que, no momento, acompanha de cinco a 10 séries ao mesmo tempo. No total, já assistiu a mais de 50. Para assistir criou até um próprio esquema. “Assisto igual a quem assiste novelas: diariamente, duas horas por dia. Porém, se descubro uma série nova e fico muito animada continuo”, diz. 

Uma demonstração de seu entusiasmo pelas séries é quando assistiu a primeira temporada de “House of Cards”, de 13 episódios, em apenas um dia e meio. “Gosto de séries porque você pode acompanhar o personagem por muito tempo. Na novela você imagina que o vilão para a cadeia e o mocinho vai casar, ser feliz. Nas séries não, o vilão pode se dar bem, podem acontecer reviravoltas. Acho que as pessoas não são tão boas ou ruins, são misturadas”, detalha seu fascínio. Sua série favorita é “House”.

Vício virou empreendedorismo

Isabela transformou seu vício em negócio próprio. Criou uma camiseteria que faz alusão às diversas séries. “Eu comprava camisetas de séries, mas muitas vezes não achava as que eu gostaria”, revela. Vendo a oportunidade, decidiu unir o útil ao agradável. “Então, decidi criar minha própria marca com camisetas de séries que normalmente não vemos por aí”, relata.

Entre as estampas estão séries como “Friends”, “Mad Man”, “Breaking Bad”, “How To Get Away With Murder” e “Game of Thrones”. No estoque, já há mais de nove estampas e outras já programadas para lançamento em breve. 

Mercado variado

O mercado de vendas investe no segmento de séries em diversos tipos de produtos: livros, camisetas, DVDs, CDs, jogos de vídeo game, bonecos e outros tipos de brinquedos. O fanático por séries e autoconsiderado “nerd” Thiago Moretto, tatuador, marqueteiro e professor de informática, afirma que já investiu mais de R$ 1 mil reais em produtos que lembrem seus seriados preferidos. 

Entre os favoritos está a Tardis, de Dr Who, construída por ele mesmo e utilizada como armário para guardar materiais de seu trabalho com tatuagens. “Economicamente elas [as séries] despertam várias ideias e trabalham muito a minha criatividade. Transponho isto para o meu trabalho. Como professor de informática para internet eu trago os elementos das séries para prender a atenção dos alunos e como tatuador, muitos clientes veem meus desenhos baseados em séries e me procuram para tatuar”, defende.

No total, Moretto revela que assistiu a mais de 30 séries, sendo suas favoritas The Walking Dead e Game of Thrones. “O bem que a série me traz, assim como filmes, são momentos de satisfação e entretenimento. Procuro sempre ver por esse lado, curtir. Os clientes e amigos que se aproximam de mim têm ideias e gostos em comum... é o que eu curto desse mundo de imaginação”, comenta. 

Vício em série isola a pessoa?

Sobre a questão de a pessoa se isolar do mundo real, diante do fato de ser viciado em séries, o tatuador, marqueteiro e professor de informática Thiago Moretto, opina que, pelo menos com ele, isto não acontece. “A internet e as redes sociais estão aí e não estamos sozinhos. Tem muita gente que está no meio da multidão e sente muito mais a solidão do que quem está em um quarto trancado. Acho que as pessoas não perceberam isso ainda. Assistir séries socializa as pessoas cada vez mais, depois que você assiste você comenta, discute, mas acho que as séries são um ótimo instrumento para sociabilizar”, comenta. 

Já Isabela Carnelós vê os dois lados da moeda: por um lado, ela acredita que prejudica a convivência social. "Já aconteceu diversas vezes de eu ser convidada para sair aos sábados, ficar em dúvida e acabar escolhendo ficar em casa para assistir episódios". Já por outro, ela concorda que isto pode aproximar as pessoas. "Você consegue assistir junto e quando sai para conversar isto vira uma conexão entre as pessoas. Você acaba dando dicas e discutindo sobre o assunto".

Como reconhecer o vício? 

A psicóloga Ariane Toubia explica que, de modo geral, os vícios são caracterizados quando a pessoa apresenta prejuízos em outras áreas da vida. “Ou seja, quando ele deixa algo importante de lado, prioriza os seriados em detrimento dos estudos ou trabalho, por exemplo, podemos considerar que o comportamento já caminha para um estágio viciante”, enfatiza. 

A psicóloga ainda cita que outros comportamentos também devem ser considerados, como deixar a vida social, afetiva ou familiar de lado por priorizar o que está passando na telinha. “Somente para ilustrar: consideremos que uma pessoa assiste 2 horas de séries por dia todos os dias da semana, somadas a 8 horas por dia nos finais de semana, ao longo de um ano essa pessoa terá gasto 2 meses de sua vida assistindo séries e certamente deixando de lado outras atividades significativas em sua vida”, este é o exemplo que a psicóloga cita para alertar que as séries não podem ser prioridade na vida da pessoa.

Sentimento reprimido?

Ao ser questionada se assistir a muitos seriados é sinal de que há sentimento reprimido, a especialista responde que, geralmente, quando nosso comportamento fica excessivamente voltado para algo específico, existem indícios de que algum sentimento pode estar reprimido. “Não é uma regra, não devemos generalizar, mas assistir seriados demasiadamente pode indicar que a pessoa está tentando compensar sentimentos de insatisfação, solidão, tristeza ou uma sensação de vazio ao assistir séries na maior parte do tempo”, revela. “Há alguns estudos, ainda recentes, que apontam sentimentos de depressão nos indivíduos que passam muito tempo de frente para os seriados”, afirma. 

Desligando a telinha

Caso a pessoa reconheça que foi além da “dose”, a Psicologia ajuda na recuperação daqueles que consideram-se viciados em séries. “Mostrar a situação atual que a pessoa se encontra, contextualizando seus hábitos e comportamentos caracteriza o papel da Psicologia, que entre outros aspectos, é tornar consciente para a pessoa a realidade na qual ela se encontra”, explica Ariane. 

Porém, ela frisa que só pode promover mudanças quando a pessoa reconhece que há algo disfuncional em sua vida e aceita a ajuda. “O próximo passo é mostrar caminhos alternativos – realizar atividade física, desenvolver outro hobby, aumentar o relacionamento interpessoal, conversando mais com as pessoas próximas - desenvolver potencialidades e habilidades no indivíduo”, cita alguns exemplos durante o tratamento de “desintoxicação”.

Entretanto, o modo de recuperação de cada pessoa é relativo. “Quando falamos sobre recuperação de viciados devemos ter o diagnóstico claro do vício e iniciar um tratamento psicoterapêutico e medicamentoso. Somente após o diagnóstico é que podemos considerar o vício em si, mesmo que a pessoa não aceite o diagnóstico e a necessidade do tratamento”, expõe a psicóloga.