26/11/2016 08h43 - Atualizado em 24/11/2016 15h33 | Ipanema Online

Qual a melhor idade para deixar os filhos saírem sozinhos?



Em algum momento da vida eles deverão deixar o “ninho de proteção” dos pais e aprender a andar com as próprias pernas. Recém-saídos da infância e a poucos passos da adolescência, os chamados pré-adolescentes tendem a desfrutar de alguns momentos novos da vida. Um dos primeiros sinais dessa “independência” é quando pedem para passear, ou sair de casa com os amigos, sem a companhia dos pais. Parece simples, mas não é. É necessária uma preparação, principalmente no tocante à segurança e confiança, tanto dos pais, quanto do próprio jovem.  Vale lembrar que a pré-adolescência geralmente inicia entre os 10 e 13 anos e segue até o 15º aniversário.

A psicóloga clínica Aline Alves da Silva é especialista na abordagem em terapia cognitiva comportamental. Ela avalia que não há como saber, com exatidão, se existe uma idade ideal para que pais deixem os filhos saírem sozinhos: “Vai da individualidade de cada um, de suas vivências, ambiente em que está inserido, como é a relação familiar, como são seus comportamentos diante de situações diversas, se demonstra segurança em posicionar-se, pró-atividade, maturidade”, explica. 

Um aspecto muito importante e que deve ser levado em conta, é que nem todos os pré-adolescentes amadurecem de forma igual, adianta Aline. “Cada pessoa tem seu tempo e momento para desenvolver-se. Há crianças com 13 anos que apresentam certa imaturidade para situações mais complexas, já existem outras na mesma faixa etária ou mais jovens que lidam melhor com essas situações”, esclarece. 

Outro alerta tem a ver diretamente com os pais, que não podem se mostrar inseguros em relação ao crescimento dos filhos. “Os pais por conta do medo, insegurança, de possíveis frustrações que o filho venha ter, acabam privando-o de vivenciar momentos importantes para seu desenvolvimento, deixando-os livres de responsabilidades. Vale ressaltar a importância do diálogo”, enfatiza. 

Sem privá-lo de amadurecer

Muitos pais podem sentir um “aperto no peito” ao ver o filho sair sozinho de casa, seja para passear com amigos em um shopping, ou dormir na casa de um colega pela primeira vez. O medo da violência, de que algo aconteça durante o trajeto dos “pequenos” muitas vezes é a principal preocupação dos adultos. Por outro lado, a privação do pré-adolescente, a vontade de deixá-lo somente em casa no intuito de que nenhum mal aconteça a ele, não ajuda seu desenvolvimento, principalmente no que diz respeito a conquistar a maturidade. A salvação em meio a isso tudo é o diálogo, orienta a psicóloga. “Nossa sociedade está cada dia mais violenta, o medo é natural, porém não podemos nos privar de conviver socialmente, de nos permitir e permitir os filhos a caminharem e construírem suas histórias. O diálogo é muito importante para esclarecer riscos e certos cuidados a ser tomado, estarem sempre atentos ao comportamento dos filhos”, ressalta. Uma dica básica é que os pais se informem de onde e com que ele vai estar. “Deixar que os filhos assumam certas responsabilidades é uma forma de prepará-los para a vida adulta, saber lidar e enfrentar situações diversas e frustrações. É muito importante para o desenvolvimento da pessoa, deixá-la mais segura sobre si”, orienta a especialista.

Aline vai direto ao ponto: “Os pais precisam compreender que essa situação será importante para o desenvolvimento de seu filho, claro que, sempre observando seu comportamento”. Entretanto, caso o diálogo não esteja surtindo efeito há a opção de terapia familiar ou individual que pode ajudar no entendimento e compreensão, tanto dos pais, quanto dos filhos. “Se ainda assim essa situação gerar desconforto, procurar terapia familiar ou individual, ressaltando que a fase da pré- adolescência é conflituosa, complexa, devido às mudanças fisiológicas e emocionais e para isso os pais precisam estar preparados para compreender e saber lidar com essa fase”.

Pequenas adaptações ajudam

O processo de adaptação é delicado. Primeiro, delimita-se pequenas responsabilidades até que os pais sintam-se confortáveis e o pré-adolescente tenha segurança e passe confiança aos adultos. “Estabelecer tarefas que não sejam muito complexas a priori, como por exemplo, comprar algo no supermercado sozinho, mesmo que você esteja no mesmo local, incentivando certas responsabilidades aos poucos, para que ambos sintam-se confortáveis quando o filho for sair sozinho”, recomenda a especialista. 

Saindo do ninho

Finalmente, chegou o esperado momento de o jovem sair sozinho e ir à casa de algum amigo. Neste caso, quais são os cuidados que devem ser tomados? Aline esclarece que os pais devem estar atentos aos comportamentos do filho. “Conhecer os amigos, família, saber o endereço em que ele estará. Demonstrar confiança em seu filho, respeitar o espaço, a individualidade dele”. 

E quanto a sair para curtir alguma festa? Neste aspecto, ela reitera o diálogo aberto e claro, evidenciando possíveis riscos, nunca deixando de passar confiança ao filho, E estabelecer alguns limites.

 E o momento em que for necessário dizer não, e o jovem revoltar-se com essa decisão? A especialista orienta que o pai ou responsável deve “explicar de forma clara o porquê desse ‘não’. Talvez a priori não irá compreender, mas irá refletir sobre”.

O comportamento, no entanto, não é regra. Algumas crianças podem não ter essa responsabilidade toda, mas sabem quando a situação é de perigo e se mostram alertas. Esse também é um ótimo indício de que elas estão preparadas para essa nova etapa. 

O outro lado da moeda

Imagine o seguinte cenário: uma festa “rave” que não foi autorizada pela Vara da Infância e Juventude a entrada de menores de 18 anos e o adolescente recebe “não” dos pais para ir ao local. Entretanto, o pré-adolescente mesmo assim decide ir, porém, escondido. No caso onde ocorre a festa, no qual não há autorização do judiciário para permanência de certas idades, é importante informar que, se ele for encontrado, os pais serão localizados e o fato será enviado para o Conselho Tutelar para que as medidas de proteção sejam aplicadas, conforme elencadas no ECA (Estatuto da Criança e Adolescente.

De acordo com Ligia Guerra da Cunha Geminiani, presidente do Conselho Tutelar de Sorocaba, tanto o pré-adolescente como a criança tem que ter o discernimento de que os pais são os responsáveis legais por eles e que devem satisfação de suas atitudes até completar a maioridade.  “O que hoje em dia está bem difícil”, considera. “Por isso é importante as seguintes palavras: respeito e bom senso”, destaca.

 O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê que “a criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis”. 

No artigo 16 do estatuto, que trata do direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: “ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais; é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”. 

Contudo, Ligia enfatiza que é “obrigação dos pais orientarem seus filhos sobre os riscos que a sociedade moderna oferece, e simultaneamente exercerem o papel de vigilantes conforme vão dando essa autonomia aos filhos.  A partir dos 12 anos os pais já podem começar a preparar os filhos para fazer o trajeto até a escola a pé ou utilizando o transporte público”, completa.

Dicas da Polícia Militar

No que tange à criança e ao adolescente, o ECA - Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990 dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e diz que ambientes como estádio, ginásio, campo desportivo, bailes ou promoções dançantes, boate ou congêneres, casa que explore comercialmente diversões eletrônicas, estúdios cinematográficos, de teatro, rádio e televisão podem ser frequentados por crianças ou adolescentes caso estejam acompanhados dos pais ou responsáveis, e se desacompanhado somente se o local tiver alvará judicial disciplinando a idade permitida.

Caso uma criança ou adolescente seja flagrado em um local como esses descritos, em situação irregular, os pais, o Conselho Tutelar, bem como um representante do estabelecimento em que a criança ou adolescente foi flagrado serão acionados e todos serão conduzidos à Delegacia de Polícia para esclarecimentos e registro da ocorrência.

Contudo, a base da sociedade é a família, principalmente através dos pais, que podem e devem diminuir os fatores de risco e aumentar os fatores de proteção. Se você tem uma família constituída e composta por crianças ou adolescentes e que desejem ou já frequentem bailes, baladas, entre outros, tenha muito cuidado:

•         Monitore seu filho, saiba onde e com quem ele está e tente compreender e manter a comunicação, mas seja firme e coloque os limites de forma muito clara;

•         Explique aos seus filhos, que as drogas são altamente prejudiciais à saúde e causam dependência;

•         Alerte para que nunca experimentem drogas, pois é assim que o vício começa; 

•         Oriente também das consequências legais, criminais pelo uso ou tráfico e tudo que isto pode representar em sua vida; 

•         Sempre que ele precisar de ajuda procurar um policial para receber apoio e orientação;

•         Caso os pais suspeitem, por algum motivo, que seu filho está em perigo procure a Polícia Militar através do telefone 190.