05/11/2016 08h12 - Atualizado em 03/11/2016 14h56 | Ipanema Online

Crespo: prefeito eleito e quatro anos pela frente



A maioria dos sorocabanos que foi às urnas, na semana passada, escolheu José Crespo (DEM) para governar a cidade pelos próximos quatro anos. Passado o processo eleitoral democrático, ele deixa de ser a escolha de mais de 182 mil pessoas e passa a ser a realidade de todos para conduzir Sorocaba em direção ao futuro.

Crespo chega à prefeitura com 61 anos, depois de ter cumprido dois mandatos como vereador e outros três como deputado estadual. Advogado, engenheiro eletricista e professor universitário, ele iniciou a vida pública como presidente da Urbes – Trânsito e Transporte durante o primeiro governo de Antonio Carlos Pannunzio (PSDB), entre 1989 e 1992. O democrata, aliás, vai receber o cargo do tucano, de quem diz ser amigo desde a infância, apesar de ter sido um dos principais opositores da atual administração.

A ligação entre eles não para por aí. Ao receber a prefeitura das mãos de Pannunzio, Crespo repete o feito de seu pai, José Crespo Gonzales, que governou Sorocaba entre 1969 e 1973, e recebeu o cargo de Armando Pannunzio, pai do atual chefe do Executivo. A coincidência foi considerada por ele “significativa”.

Crespo, que terá como vice-prefeita a delegada Jaqueline Coutinho (PTB), se elegeu em uma coligação que engloba 14 partidos. Ele começa o mandato, também, com o apoio de, pelo menos, 10 vereadores eleitos, que fazem parte do grupo político. Seu “mentor” é o ex-prefeito e ex-deputado federal Renato Amary (PMDB), que teria sido o candidato da coligação, mas deixou a disputa por questões judiciais pendentes e, assim, deu lugar ao democrata. Amary, aliás, que declarou que não terá nenhum cargo no governo, deve atuar como uma espécie de “conselheiro” para o futuro prefeito.

Após a vitória, que veio depois de outras quatro tentativas, Crespo concedeu entrevista ao Jornal Ipanema e falou de alguns tópicos importantes sobre a preparação para administrar o município e medidas que devem ser tomadas a partir de janeiro de 2017.

Jornal Ipanema – O que mudou do sentimento de ser candidato para estar eleito?

Crespo - Essa ficha talvez não tenha caído plenamente, porque a adrenalina da campanha demora um pouquinho para baixar. Já disputei a prefeitura várias vezes, portanto, temos um ideal, um sonho de muitos anos que viemos acumulando, principalmente nas ideias e nas propostas, que agora deverão ser atualizadas para nortear o governo. Acredito muito nisso. Alguém só se elege em razão de um plano, é isso que vai dirigir os nossos trabalhos. Naturalmente agora, é que nós vamos começar a fazer três coisas importantes: a primeira delas é uma revisão administrativa, em razão das metas do nosso plano, que é a segunda. E, também, a terceira, que é a procura e identificação dos nomes para comporem as equipes, a começar do primeiro escalão, que são os secretários municipais e também os demais profissionais dos cargos de confiança, que foi, por sinal, um assunto durante a campanha.

Jornal Ipanema – A sua vice-prefeita, Jaqueline Coutinho (PTB), ficará apenas nessa função ou também vai acumular uma secretaria?

Crespo - Não tive ainda essa conversa com ela. A Jaqueline se credenciou de uma tal forma que eu não sei se ela deverá ser secretária. Se ela quiser, já dou a resposta de pronto, será, mas acredito que ela vai ser uma vice-prefeita tão atuante que vai estar acima do cargo de secretário.

Jornal Ipanema – Como vai lidar com a escolha daqueles que irão ocupar os cargos de livre provimento, os chamados “cargos comissionados”?

Crespo - O que eu vou dizer é aquilo que disse, e disse com coragem durante a campanha, porque sofri algum desgaste. Todos os governos, todas as esferas, têm cargos de confiança, que são necessários. O nosso governo terá o mínimo desses cargos, não vai chegar a 1%, porque o corpo mais importante é o de carreira, é lógico. Mas, os de confiança são aqueles que são escolhidos politicamente sim, não que sejam necessariamente pessoas do grupo político. As pessoas que vão compor esses cargos de confiança, a partir dos secretários, eu posso afirmar, serão pessoas qualificadas. Em todos esses cargos, incluindo os de assessoria, nós não teremos cabide de emprego nenhum, muito menos funcionários fantasmas. Eu quero reafirmar, é uma questão que choca um pouco, mas o objetivo é justamente esse: nós teremos muito trabalho pela frente. Os cargos comissionados, além de pessoas qualificadas, muitas do grupo político sim, mas também alguns de fora do grupo, conforme a necessidade, vão trabalhar 16 horas por dia. Talvez nós tenhamos dificuldades de achar pessoas para encarar isso. Não vai ter ninguém com um segundo emprego ou ocupação. É assim que vai ser.

Jornal Ipanema – O seu governo terá o apoio de metade (10 vereadores) da Câmara. De que forma vê a relação que deve ter com o Legislativo?

Crespo - Nós valorizamos muito o Poder Legislativo. A Câmara é um poder autônomo e, portanto, importante para a realização do nosso plano de governo. A grande vantagem dessa nossa aliança é que conseguimos eleger de cara, no primeiro turno, já metade das cadeiras na Câmara Municipal. No segundo turno, mais alguns vereadores eleitos de outros partidos vieram. Nós temos maioria qualificada, de dois terços até. Entretanto, eu tenho consciência de que é importante que a Câmara seja autônoma, até para fiscalizar o Executivo. Eu acredito nesse trabalho de fiscalização até para que possamos corrigir alguma distorção que possa estar acontecendo ao longo dos quatro anos. Isso é perfeitamente possível de acontecer, porque a máquina [pública] é muito grande e a Câmara pode colaborar muito fazendo essa fiscalização. Vamos respeitar totalmente o trabalho da Câmara, incluindo esses vereadores sintonizados com o nosso grupo político. Alguns poderão ser secretários, por sinal, esse assunto ainda não foi falado, porque nós nos recusamos estrategicamente a conversar sobre nomes de pessoas para ocuparem quais cargos durante o governo. Não há ninguém que tenha sido escalado.

Jornal Ipanema – O prefeito Pannunzio, após a confirmação da vitória, ligou para cumprimentá-lo pelo resultado. Isso reaproximou vocês?

Crespo - Não sei se a palavra é exatamente essa. Nós temos uma amizade pessoal desde crianças, nossos pais já eram amigos. Então, nada abalou a nossa relação pessoal. Lógico que as circunstâncias político-partidárias e, principalmente, as eleitorais, é que interferem muito. Mas, o melhor é mantermos a distância eleitoral que é exigida e, depois, nos acalmarmos e eliminarmos rebarbas, se é que ficaram. O Pannunzio é uma pessoa madura, e eu também, portanto, nunca levamos para o lado pessoal.

Jornal Ipanema - É significativo receber a prefeitura das mãos de Antonio Carlos Pannunzio, já que seu pai, José Crespo Gonzales, recebeu o cargo de prefeito do pai dele, Armando Pannunzio?

Crespo – Sim, tem um significado. Algumas coisas acontecem por forças superiores, nós não planejamos e nem somos capazes de explicar. Mas, certamente, tem um significado. O Antonio Carlos Pannunzio, filho de Armando Pannunzio, é um amigo pessoal, que, infelizmente, não conseguiu fazer o governo que ele desejava. Mas, agora isso está superado. Tenho certeza que faremos uma excelente transição [de governo] e, depois, todos continuaremos de cabeça erguida pelo bem de Sorocaba.

Jornal Ipanema – O seu governo vai se iniciar em meio a uma crise econômica do país e, também, orçamentária no município. Como isso afeta o plano de trabalho?

Crespo – Existe uma crise nacional, que também repercute em Sorocaba. Mas, eu tenho a certeza de que nós conseguiremos, em uma revisão administrativa, adequar os problemas da crise ao nosso orçamento e, principalmente, corrigindo algumas distorções. Há algum desperdício, que talvez não seja culpa de uma pessoa, mas de um sistema que deve estar ultrapassado, daí a necessidade de uma revisão administrativa. Nós buscaremos novos modelos de trabalho, é nesse sentido que nós vamos combater e superar essa crise. Eu acredito muito nisso. Quebrando paradigmas, para quem entende mais o que significa essa frase, nós vamos quebrar paradigmas e buscar soluções novas para os antigos problemas, segundo um novo formato de trabalho.

Jornal Ipanema – Durante a campanha, muito se falou sobre propostas da área da saúde para o tratamento de doenças, mas pouco se falou sobre prevenção. O que será feito em relação a essa questão?

Crespo - A medicina preventiva vai ser o principal trabalho dos antigos postinhos de bairro, agora as UBSs [Unidades Básicas de Saúde]. Nós vamos fazer com que ali fiquem médicos permanentes, sempre os mesmos médicos. O conceito “médico de família” será exatamente esse, juntamente com o programa de acamados, que vai ser revitalizado para as pessoas que não conseguem sair de suas casas. Essa é uma diferença fundamental. Antes, o serviço de médico de família e acamados tinha uma central que atendia, conforme era possível, em todos os bairros. Portanto, o médico que visitava a mesma família raramente era o mesmo. Agora vai ser diferente e muito melhor. O médico do posto de saúde é que vai até a casa do paciente, no bairro que cerca aquela UBS. É o verdadeiro médico de família, que vai criar a efetiva relação médico-paciente, isso é medicina preventiva. Agora, existem emergências, essas não dá para prevenir totalmente. Então, as UPHs [Unidades Pré-Hospitalares] serão melhor equipadas para fazer um atendimento melhor na hora que esses problemas chegarem. E, se precisarem de um atendimento ainda mais intenso, [os pacientes] vão para o pronto-socorro principal, que deverá ser a Santa Casa.

Jornal Ipanema – O contrato para implantação do Bus Rapid Transit (BRT) ainda não foi assinado e, por isso, ainda não houve o início das obras para o funcionamento desse sistema de transporte. Esse contrato será assinado por você?

Crespo – Não. O contrato atual em hipótese nenhuma, porque é um contrato ruim, danoso para a cidade. Mas, a sigla BRT deverá ser mantida no eixo da avenida Itavuvu, ali nos deveremos ter um BRT. Mesmo com relação à sigla, nós vamos verificar a necessidade de investir em um corredor, porque o sistema de faixas exclusivas é outro mecanismo bem mais barato e que, talvez, atinja o mesmo resultado. Seja qual for a decisão tomada, em poucos meses, ela será efetivada. Esse processo que acabou, até o prefeito [Pannunzio] percebeu que foi viciado, prova disso é que ele não assinou. Depois que tomarmos posse, até porque teremos tanto trabalho pela frente, não vamos ficar caçando bruxas ou revirando a sujeira embaixo do tapete, a menos que haja denúncias específicas. Tem muita coisa ruim, imoral e ilegal nesse contrato do BRT. Nós vamos deixar que o Ministério Público faça o trabalho dele e vamos tocar a cidade, nesse caso, em benefício do usuário de ônibus.

Jornal Ipanema – No decorrer da campanha, também foi falado de um projeto de implantação de um metrô de superfície em Sorocaba. Como e quando isso será feito?

Crespo - Há um projeto, do governo do Estado, e a minha relação com o governador [Geraldo] Alckmin vai favorecer nisto também, pois nós vamos pedir que ele toque à frente o trem de média velocidade de Sorocaba até São Paulo. E, por que estou lembrando disso? A antiga área da Gerdau, se Deus quiser, essa vai ser a maior PPP [Parceria Público-Privada] do governo, vai ser a nova estação rodoviária intermunicipal. Mas, também, vai ser a estação principal do metrô de superfície, que vai de Brigadeiro Tobias até George Oeterer, além de ser a estação de saída desse trem de média velocidade de Sorocaba para São Paulo. A área da Gerdau é tão grande que haverá bolsões de estacionamento para o passageiro deixar o carro no Terminal Multimodal, será esse o nome, e ir confortável de trem para São Paulo. E, se precisar pegar as linhas urbanas, terá o metrô de superfície e todas as linhas de ônibus. Tudo estará concluído no final de quatro anos, mas quanto antes melhor.