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Vítimas de cerveja contaminada em MG enfrentam despesas e sequelas

Foto: Gustavo Andrade/divulgação
Postado em: 18/06/2020

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Fernanda Canofre, FOLHAPRESS


Marco Aurélio Cotta, 65, que costumava levar e buscar a neta na escola todos os dias, a viu apenas uma vez nos mais de 160 dias em que está no hospital. Josias Moreira de Matos, 53, teve a carreira de 29 anos como taxista interrompida, depois de perder parte da visão e dos movimentos. Luciano Guilherme de Barros, 57, pisou fora do hospital pela primeira vez em seis meses no último dia 3 de junho.


Os três consumiram a cerveja Belorizontina, da Backer, e viram suas vidas viradas de cabeça para baixo há cerca de seis meses.

 

Assim como a maior parte das pessoas diagnosticadas com a síndrome nefroneural, consequência da intoxicação pelo dietilenoglicol encontrado na bebida, tiveram enjoos, problemas nos rins e sequelas físicas.


Enquanto o caso segue na Justiça, as contas de despesas médicas se acumulam e as famílias reclamam apoio da empresa para gastos emergenciais. Nas contas da Backer, foram encontrados pouco mais de R$ 12 mil -a empresa alegou que está sem faturar desde janeiro, quando recolheu bebidas do mercado e parou atividades.


Onze pessoas foram indiciadas pela Polícia Civil de Minas Gerais pela contaminação -sete delas por homicídio culposo, além de lesão corporal e contaminação de produto alimentício. A investigação aponta imperícia por parte de técnicos e gestores, apesar de reconhecer que houve um acidente. Além de outros pontos de vazamento da substância na fábrica, o problema principal ocorreu com uma solda, que levou o dietilenoglicol para dentro de um tanque.


A substância, usada para resfriar, segundo a polícia, é tóxica e o uso iria contra os manuais dos equipamentos cervejeiros. Caso a empresa tivesse usado álcool de cana-de-açúcar ou de cereais, diz o delegado Flávio Grossi, o vazamento teria provocado no máximo alteração no sabor ou no teor alcoólico da cerveja. Até o momento foram identificadas 29 vítimas -8 morreram. Outros 27 casos estão em investigação.


Os números foram atualizados na segunda (15) pela polícia, que diz que eles podem ser alterados devido às perícias médico-legais ainda sendo realizadas.


A Backer criticou a conclusão do inquérito, alegando que ela não condiz com as provas levantadas durante a investigação. A defesa da empresa afirma que ela comprava monoetilenoglicol e não dietileno, que a mistura teria sido feita pelo fornecedor sem seu conhecimento, e que não pode ser responsabilizada pelo defeito no tanque, que levou ao vazamento interno.


"A Backer concorreu para esses dois atos? Não. A Backer não teve culpa. Nós entendemos que a conclusão do inquérito não corresponde às provas que foram carreadas durante a investigação", afirmou o advogado Marco Aurélio Souza.


No dia 2 de maio, Marco Aurélio Cotta completou 65 anos dentro do hospital, com uma visita controlada de 40 minutos dos dois filhos e da mulher. Internado desde o dia 30 de dezembro, nesse tempo ele teve de ser reanimado cinco vezes, teve oito infecções e paralisia facial e ficou com parte da visão comprometida. Hoje, tem uma traqueostomia e faz hemodiálise.


Por cerca de um mês, ele ficou em um quarto, mas uma nova infecção o levou de volta ao CTI. Com as restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus, as idas da família ao hospital diminuíram -inclusive de Maria Aparecida, 63, com quem é casado há 38 anos. Há poucas semanas, ela voltou a ir todos os dias, mesmo com riscos.


"Eles têm uma relação emocional de dependência muito grande. Ele não consegue desenvolver se ela não estiver presente", conta a filha Ângela Minghini Cotta, 36. "A gente não sabe como o papai vai ficar, como vai ser o futuro dele, se ele vai conseguir sair dessa, então, a gente vai fazer o que tiver que ser feito para ele ter qualidade de vida, para passar por tudo isso."


Parte das despesas de Marco Aurélio é custeada pelo plano de saúde, mas outras, como a obra para adaptar a casa para recebê-lo em uma cadeira de rodas e exames fora da cobertura, são bancadas pela família.


O taxista Josias Moreira de Matos, 53, depende do SUS (Sistema Único de Saúde) para avançar no tratamento, enquanto lida com as sequelas em casa e com as contas. Ele ingeriu a cerveja só uma vez, no dia 5 de janeiro, e ficou internado por alguns dias.


"A Backer não só abalou a estrutura da saúde mas também o lado financeiro, porque ele era o provedor de casa, deixou de trabalhar e as contas começaram a acumular", diz a filha Dayane Hulda Bernardes, 21. "Ele fica angustiado, não poder dirigir e depender dos outros."


Pagamentos da prestação da casa e IPTU estão atrasados e ele corre risco de perder a placa do táxi. Dayane, que era motorista particular, parou de trabalhar para atender o pai. Recentemente, conseguiram dois auxílios emergenciais do governo federal pela pandemia.


Josias, que trabalhava de segunda a segunda, está com problemas na visão e audição e teve o movimento do lado direito do corpo afetado. A consulta no oftalmologista, solicitada em janeiro, foi marcada só na semana passada. Outras, como as de fisioterapia e fonoaudiologia, ainda não têm previsão.


A Backer fez um termo para custear despesas de uma das vítimas, o professor de psicologia da UFMG Cristiano Mauro Assis, 47. O valor mensal de custeio é confidencial, mas ele é o único hoje recebendo a ajuda.


A empresa afirma que pediu à Justiça alienação de bens para seguir pagando o que foi acordado e que passou R$ 200 mil para depósito judicial para arcar com custos de saúde das vítimas. O valor veio de um empréstimo como adiantamento da venda do estoque testado e certificado pelo Ministério da Agricultura, que a empresa aguarda autorização para vender.


O último balanço fiscal da empresa é de 2018, quando o faturamento foi de R$ 980 mil. Em 2019, a Backer passou por uma expansão com instalação de 12 novos tanques, segundo a PCMG.


Luciano Guilherme, 57, também espera pelo auxílio emergencial. Morador do bairro Buritis, onde as primeiras vítimas foram identificadas, ele deixou o hospital onde foi internado em 6 de dezembro no último dia 3, para evitar risco de contágio pelo novo coronavírus.


"Dois dias depois [de ser internado], eu apaguei e não lembro mais. Fiquei 65 dias no CTI, acordei no CTI, fiquei mais de 30 dias apagado, entubado, com traqueostomia e tudo", conta ele. "O veneno me fez perder a mobilidade, inclusive dos nervos da face, fiquei completamente imobilizado. Olho direito eu não enxergava nada e no esquerdo enxergava alguns vultos."


Luciano retirou 70 cm do intestino por causa de uma perfuração, tem problemas de audição e perdeu a capacidade renal e 35 kg. Apesar do alívio de estar em casa, ele sabe que o caminho é longo. Vivendo em um apartamento no quarto andar de um prédio sem elevador, para sair desce os degraus com ajuda e sentando em uma cadeira depois de cada lance de escadas.


A saída do hospital teve comemoração da equipe de saúde, com balões, promessa de um churrasco e a música "É preciso saber viver". No dia 28 de maio, quando completou 57 anos, no hospital, ele diz que não dormiu pensando que começava ali o primeiro ano de uma nova vida.


"Estou feliz demais da conta estando em casa, com a minha família. Eu ficava imaginando se um dia eu iria voltar e isso me ajudava", diz ele. "Falar que a gente espera justiça é bobagem, é claro que esperamos. Seja pagando a gente ou que paguem pelo que fizeram."

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