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Scorsese usa mundo da máfia para falar sobre lealdade e finitude em "O Irlandês"

Divulgação
Postado em: 02/12/2019

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Erick Rodrigues

Responsável por vários clássicos do cinema, o diretor Martin Scorsese deixou uma assinatura marcante no subgênero dos filmes de máfia ao longo da carreira. "Caminhos Perigosos", "Os Bons Companheiros" e "Cassino" são histórias que abordam esse mundo violento e paternalista. Até "Os Infiltrados", sucesso baseado em um filme de Hong Kong, também carrega essa aura. Mais maduro, o cineasta volta agora a esse universo com "O Irlandês", produzido pela plataforma de streaming Netflix, mas apresenta na tela algo que vai além das tradicionais abordagens dessas obras.

Com uma bagagem robusta no gênero, Scorsese cercou-se de atores que, assim como ele, representam a "velha guarda" do cinema e são igualmente identificados com esse tipo de filme. Robert De Niro é o maior parceiro do diretor e, graças a isso, ficou bem marcado pela figura do mafioso. Joe Pesci, outro intérprete emblemático em histórias de máfia, também foi chamado para o projeto, assim como Al Pacino, que esteve em "O Poderoso Chefão", o maior clássico sobre essa temática, e que ainda carrega uma experiência como gângster adquirida em "Scarface". Está criada a força da máfia de "O Irlandês".

Com roteiro de Steven Zaillian, o longa é narrado a partir do olhar de Frank Sheeran (De Niro), um veterano de guerra que deixa de dirigir um caminhão de transporte de carnes para virar o homem de confiança de Russell Bufalino (Pesci), o chefe da máfia na Pensilvânia. Com atribuições que vão de cobranças de dívidas, ameaças a "queimas de arquivos", Sheeran vai ganhando espaço naquela "família" do crime, especialmente pela lealdade sem qualquer questionamento.

Os bons serviços prestados fazem com que Sheeran seja designado para dar suporte a Jimmy Hoffa (Pacino), influente presidente do sindicato de motoristas de caminhões. Seguro com a indicação de Bufalino, Hoffa desenvolve uma relação de muita confiança e amizade com o protagonista, a ponto, inclusive, de ajudá-lo a ascender entre os sindicalistas, também, é claro, para continuar no poder. 

Por conta de alguns reveses, Hoffa acaba perdendo poderes dentro do sindicato e, auxiliado por um temperamento explosivo, passa a criar problemas com aqueles que conquistam o espaço dele. Esses atritos esbarram nos interesses do grupo liderado por Bufalino, que começa a considerá-lo uma dificuldade a ser superada.

Escrevendo essas linhas percebo que, quanto menos detalhes dados sobre "O Irlandês", melhor vai ser a experiência cinematográfica. O roteiro de Zaillian e a direção de Scorsese constroem um filme em que cada gancho narrativo deve ser bem apreciado pelo espectador, que é conduzido por um caminho bem estruturado de acontecimentos. As polêmicas três horas e meia de duração da obra em nada pesam no interesse pela trama, que, apesar de mais lenta do que em outras histórias do gênero, preenche e valoriza cada cena.

Aqui, Scorsese, também produtor do filme, parece interessado em ir além de todas as abordagens já feitas nos filmes de máfia. "O Irlandês" usa esse universo para falar sobre as consequências da lealdade e as angústias da finitude do ser humano, reflexões feitas através do personagem de Robert De Niro. Ao invés de focar em um curto período e em sangrentos desfechos, o longa mostra o peso das escolhas feitas por um homem que, já distante dessa realidade, convive com a solidão e a culpa impostas pelo estilo de vida.

A lealdade de Sheeran a Bufalino cobra preços altos ao protagonista, ainda que ele só venha a entender isso perto do fim da vida. Para prestar os serviços ao chefe da máfia e ascender naquele núcleo criminoso, o personagem sacrifica a relação com a família, especialmente com uma das filhas, e ainda lida com a culpa de ter traído outro companheiro ao descobrir que não poderia jurar lealdade a duas figuras. Todas essas reflexões pesam mais na velhice, quando Sheeran se vê sozinho, sem o amigo a quem foi leal e a companhia da família, sempre tão preterida.

Com "O Irlandês", Scorsese valoriza a relevância da trinca de atores que sustenta a história e que andavam há tempos subutilizados pela indústria do cinema de Hollywood, implacável, especialmente, com os mais maduros. Vindos de personagens de pouca relevância e não condizentes com as carreiras de cada um, Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino têm desempenhos excepcionais. O primeiro, em quem a carga da trama se concentra, cria um tipo de lealdade incontestável, que praticamente age sem pensar, mas é "castigado" com uma longa vida de reflexão e culpa. Já Pesci aparece em um tom mais contido, sem perder a força que o personagem exige, e Pacino surge em uma personalidade mais reativa e intensa.

"O Irlandês" pode ser carimbado como um dos grandes filmes do ano e, também, mais um trabalho excepcional de Martin Scorsese, que foi além do óbvio das histórias de máfia e procurou os seres humanos que sobrevivem a elas. Valorizando os três atores companheiros de jornada, o diretor usou esse universo para discutir lealdade e finitude, temas que, talvez, sejam comuns às reflexões diárias de todos eles.

O IRLANDÊS

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)

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