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O pente do João dos Santos - veja a coluna semanal de Vanderlei Testa

Postado em: 16/11/2019

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Por Vanderlei Testa

 

O ano era 1982. Os cortes de cabelo no pequeno salão de Araçoiaba da Serra eram realizados em meio a muito bate papo de amigos. Falava-se de tudo. Futebol, sítios, plantações, mulheres, política. Havia risos das piadas e tristeza quando alguém falecia na cidade.

 

O João cabeleireiro comandava a barbearia e os cortes dos cabelos. Um dia ouviu dizer pela imprensa e fornecedores que haveria um evento na capital São Paulo com as últimas novidades em cortes masculinos e femininos.

 

Curioso e sempre atualizado na moda dos anos 80 o João deu um jeito de tirar uns dias de folga e partiu pra capital. Ficou impressionado com o que via no mundo dos produtos de beleza e das máquinas de cortes.

 

Em uma das tendas de vendas aos profissionais tinha algo que fascinou os olhos do João. Um pente amarronzado fisgou o desejo do amigo cabeleireiro de Araçoiaba. Aparentemente um simples instrumento de trabalho. Mas não era. Havia entre os dois uma ligação que se tornaria afetiva nestes 37 anos de vida em comum.

 

O pente do João continua diariamente nestes mais de 100 mil dias sendo acariciado em seus dedos em cortes com a inseparável tesoura. Sou um de seus usuários há anos.

 

 

Este mês ao cortar o cabelo com o João em seu moderno espaço no Shopping Iguatemi, percebi pela primeira vez essa cumplicidade do pente e o João. E perguntei ao olhar o pente em suas mãos e ver o desgaste do tempo de uso nesse companheiro especial, se ele, pente, era antigo. Pronto, surgia à ideia deste artigo e o relato que me fez fotografar o histórico objeto que fascina há quase quatro décadas a sua vida.

 

O pente do João um dia se perdeu misteriosamente. Simplesmente sumiu da sua bancada. Vira daqui, vira dali, ele deu uma fugida do seu dono.

 

 

O companheiro de trabalho teria que ser substituído. O suplente não tinha a mesma identidade. Era bonito e novo, mas não havia sentimentos naquele parceiro cheio de 27 pontas para alisar os penteados.

 

 

A magia do velho amigo de 37 anos foi junto com o seu desaparecimento. Foi há poucos meses. Algumas semanas depois em uma arrumação no andar superior do salão reorganizando armários, eis que o sumido pente surgiu envergonhado.