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Novo Especial de Natal do Porta dos Fundos fracassa com a mesmice

Foto: reprodução
Postado em: 10/12/2020

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Reinaldo José Lopes, FOLHAPRESS

 

Os filmes de Natal do grupo de humor Porta dos Fundos já se transformaram numa espécie de tradição de fim de ano, uma variante supostamente transgressora do arroz com passas e do especial de Roberto Carlos na TV. A edição de 2020, com a sátira de praxe às narrativas bíblicas, mostra que até a transgressão cansa quando vira fórmula.


Aliás, é curioso que esse cansaço se torne mais claro justamente quando o grupo resolve deixar de lado sua costumeira paródia de cenas dos evangelhos -frequentemente hilária, ainda que com um ou ambos os pés no mau gosto- para embarcar no paralelismo político entre a Jerusalém do século 1º e o Brasil do século 21.


A piada do título do especial, que escancara essa abordagem logo de início, parecia boa. "Teocracia em Vertigem", a transfiguração hierosolimita do documentário indicado ao Oscar "Democracia em Vertigem", traz até uma rápida participação da diretora da "versão séria" da história, Petra Costa. A primeira cena, em que parlamentares da Judeia e da Galileia usam fartamente o nome de Deus em vão para abrir o processo de crucificação de Jesus e livrar a pele de Barrabás, é um jeito interessante de ridicularizar o circo que foi a votação do impeachment de Dilma Rousseff.


Se a bancada evangélica que ajudou a rifar a presidente sempre esteve mais para bancada farisaica mesmo, aqui eles se transformam em fariseus de verdade, sempre com uma pedrinha à mão para atirar em prostitutas desavisadas. Até a frase icônica do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha -"Deus tenha piedade desta nação"- é usada de um jeito que faz sentido.


A narrativa prossegue em ritmo de documentário, enquanto amigos e desafetos de Cristo -e, como parece ser inevitável em qualquer gozação bíblica hoje em dia, também Maria Madalena- são entrevistados e dão sua versão sobre a trajetória do Nazareno, enquanto o próprio Jesus não aparece.


O apóstolo Pedro (Leandro Ramos, do Choque de Cultura), por exemplo, reclama que a onipotência e a onisciência do menino Jesus estragavam as brincadeiras e irritavam seus coleguinhas -um tema curiosamente parecido com o do "Evangelho da Infância de Tomé", um dos textos apócrifos (não incluídos na Bíblia) mais conhecidos.


Na maioria dessas conversas, porém, é quase como se o roteiro servisse apenas como desculpa para completar uma espécie de cartela de bingo das muitas misérias da era Bolsonaro. Numa lista não exaustiva, temos menções a rachadinhas, milícias, cancelamento, fake news (diversas vezes), algoritmos de celular, vírus, "Deus acima de todos", bancada da Bíblia, "arminha com a mão" e "isentões". Ufa.


Esse samba de uma nota só do paralelismo não ajuda. E, se o primeiro palavrão proferido por uma figura do Novo Testamento provoca gargalhadas, ou pelo menos choca, o centésimo começa a parecer criancice ou preguiça humorística (até porque o mundo da Bíblia era muito menos reticente em relação a funções fisiológicas básicas do que os cristãos conservadores de hoje).


Talvez por isso mesmo, as poucas piadas realmente engraçadas são as mais inocentes -como Maria (Evelyn Castro) contando sobre o sumiço de Jesus no Templo de Jerusalém aos 12 anos e a desculpa do menino, dizendo que estava cuidando dos assuntos de seu Pai (Deus, é claro). "Chama Deus de pai, mas quem é tá ralando pra comprar teu ábaco de última geração, hein? É o coitado do José", diz ela.


As aparições de Maria no "documentário" também são as únicas que transmitem algum tipo de ternura ou dor verdadeira -em especial na assustadora cena em que ela é praticamente arrastada para um programa policial de TV comandado por um apresentador romano (Gregorio Duvivier). "Alguém aí já viu gente de bem pregada em cruz?", berra ele, para depois fingir empatia com Maria -"Vagabundo também tem mãe, né, gente?"- e enfim voltar à truculência, fazendo uma cruz com os braços para pedir mais execuções. A cena talvez seja o maior acerto do especial. Eis aí um império que, ao contrário do de Roma, ainda está longe de cair.

 

Teocracia em vertigem


Quando: Estreia 10 de dezembro
Onde: YouTube e Pluto TV
Elenco: Antonio Tabet, Evelyn Castro, Fabio De Luca, Fabio Porchat, Gabriel Totoro, Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Leandro Ramos, Nathalia Cruz e Noemia Oliveira
Produção: 2020, Brasil
Direção: Porta dos Fundos
Avaliação: regular

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