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Mercado vê cenário de total instabilidade e risco a Guedes após queda de Moro

Foto: Marcos Corrêa/PR
Postado em: 25/04/2020

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Izabela Bolzani e Júlia Moura, FOLHAPRESS


A queda do agora ex-ministro da Justiça Sergio Moro faz o mercado financeiro traçar, nesta sexta-feira (24), cenários de total instabilidade política e econômica. O contexto é agravado pela crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus.


Analistas e economistas apontam desde o risco de que Paulo Guedes será o próximo a cair até chances de que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), decida abrir um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).


O retrato dessa incerteza é a alta do dólar, que superou os R$ 5,70. A Bolsa brasileira teve forte queda e chegou a flertar com um novo circuit breaker -mecanismo de proteção a investidores acionado quando o Ibovespa cai mais de 10%.


Nessa sexta, o dólar encerrou com alta de 2,5%, a R$ 5,6610. Na semana, a moeda americana acumula alta de 8%. Já o Ibovespa -que chegou a cair 9,6% depois da fala de Moro-, reduziu suas perdas ao longo da tarde e terminou a sessão com queda de 5,45%, a 73.330 pontos.


"O cenário é nebuloso, é complicado. Acho que a tendência é que isso se escale, é difícil encontrar alguma maneira de o Bolsonaro reverter esse quadro. Ele está sem apoio tanto político quanto popular e temos alguns pontos-chave que é como vai ser a reação do Rodrigo Maia, que pode abrir um pedido de impeachment e isso pode acelerar", afirma Luis Sales, analista da Guide.


"A gente pode ter uma abertura de investigações com relação ao Bolsonaro", disse ele, em referência a afirmações feitas por Moro em entrevista em que anunciou sua demissão.


O ex-juiz da Lava Jato afirmou que Bolsonaro pretendia fazer uso político da Polícia Federal e queria acesso direto ao chefe do órgão.


A troca de Mauricio Valeixo no comando da PF foi o estopim para queda de Moro.


Moro afirmou ainda que o presidente estava incomodado com investigações do STF (Supremo Tribunal Federal).
"É um cenário já de crise. Por conta da pandemia, [Bolsonaro] já vinha perdendo bastante apoio popular e também credibilidade mesmo no âmbito político", acrescentou Sales.


"É uma crise que pode ser uma crise de saúde que se caminha para uma crise política e econômica por perda de credibilidade também", completou.


Para os economistas Tony Volpon e Fabio Ramos do banco suíço UBS, o impeachment é improvável no momento.
"É possível que a demissão e as acusações de Moro aumentem os pedidos de processo de impeachment contra o presidente Bolsonaro, mas para isso acontecer, em nossa opinião, terá que haver um forte apoio popular, e a oposição a Bolsonaro, principalmente da esquerda política, sempre criticou Moro, que investigou muitos membros do Partido dos Trabalhadores quando era juiz da Lava Jato", dizem em relatório.


Além disso, eles apontam que Maia não deve abrir um processo de impeachment enquanto o país sofre os impactos econômicos e de saúde da pandemia de Covid-19 "a menos que haja prova concreta interferência política nas investigações judiciais em andamento", dizem.


Cassiano Leme, presidente da Constância Investimentos, afirmou que a queda da Bolsa não reflete apenas a saída de Moro, mas os riscos que as afirmações feitas trazem ao país.


"O que faz preço na Bolsa não é propriamente o combate à corrupção [associado a Moro], mas talvez em um sentido de mais longo prazo da instabilidade geral do país", afirmou.


Ele pontuou que será difícil prever o próximo movimento do governo.


Consenso entre analistas é que a permanência de Guedes, o fiador econômico de Bolsonaro desde a campanha eleitoral, está sob questionamento.


"Poderá haver outra instabilidade nos outros ministros, importantes para a própria caminhada econômica", disse Leme.


"Desafio do presidente de rearticular e criar uma nova base política se renova. É algo que vem desde a saída do [do presidente] do PSL. Justiça e Economia eram os baluartes do governo. Essa saída levanta rumores sobre a saída de Guedes e isso é muito negativo", afirma Ilan Arbetman, analista da corretora Ativa.


Para Arbetman o discurso do presidente ao fim do dia foi inconclusivo e "ineficaz no sentido de mitigar o atual nível de volatilidade do mercado brasileiro".


A leitura de André Perfeito, economista-chefe da Necton, é que a queda de Moro dificulta a aproximação de Bolsonaro com o centrão. Nas últimas semanas, o presidente vinha articulando uma coalizão para tentar isolar Rodrigo Maia.


Isso colocaria sob risco a agenda econômica, ainda mais em um cenário já complicado pelos efeitos econômicos causados pela pandemia do novo coronavírus.


"Guedes não está disposto a fazer isso porque ele é um cara coerente. O problema é que o que o presidente vai exigir dele é muito mais do que talvez ele esteja disposto porque ele acredita que existem questões fiscais de longo prazo que ele precisa controlar", afirmou.


"A pressão política que culminou [na demissão de] Valeixo e Moro são as mesmas que vão para cima do ministro Paulo Guedes."


Sales, da Guide, tem avaliação semelhante. "Fica também a dúvida com relação ao Paulo Guedes, porque a principal causa dele são as reformas. Não temos nenhum tipo de ambiente para isso e o que sobra são estímulos fiscais, que é contra a política e visão do ministro e também contribuiu para uma deterioração das contas públicas", completa.


Para George Wachsmann, sócio da Vitreo, a saída de Moro coloca em xeque a tese do mercado de que o "presidente poderia ter defeitos, mas tinha uma equipe técnica", algo que teria se sustentado na troca dos ministros da Saúde, com Nelson Teich, visto como técnico, no lugar de Luiz Henrique Mandetta, tido pelo mercado como mais político.


"A saída de Moro é muito ruim e piora o cenário para segunda parte do governo Bolsonaro. É quase como a gota de água para o mercado colocar na sua frente o agravamento político no Brasil", diz Wachsmann, que também vê risco de Guedes sair do governo.


"O presidente não dá poderes aos ministros e há um medo no mercado de que o mesmo aconteça com Guedes. É um risco real, mas apostamos na resiliência do ministro. Se pessoas tivessem certeza que a saída do Moro fosse isolada, talvez a reação do mercado seria diferente. Moro, junto com Guedes, fazia parte do tripé de sustentação do governo. Se uma perna cai, as outras ficam bambas", afirma Wachsmann.


Ele aponta há sinais de enfraquecimento de Guedes que corroboram para a especulação de sua saída, como a apresentação do programa Pró-Brasil para retomada econômica sem a participação da pasta de Guedes.


O programa, que foi criado pelo ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, é sustentado na reativação de obras públicas com recursos do Tesouro como forma de evitar um aumento do desemprego.


Para o professor Carlos Melo do Insper, a análise sobre o Pró-Brasil já mostra que a posição do ministro da Economia já não era fácil há algum tempo. "A questão que fica é se ele é capaz de voltar [a economia] para o eixo depois dos esforços emergenciais", afirmou o professor.


​"A interpretação que se tem dentro do governo é de que Guedes não é capaz de fazer isso [colocar a economia de volta no eixo]. E quando se monta um grupo fora do Ministério da Economia para pensar nesse tipo de política, ainda que seja um esboço, o Guedes está fora. Mas é um processo que precisa decantar mais. A situação do ministro não é confortável, mas não significa que haverá uma debandada", disse Melo.


Já Gustavo Almeida, analista da Spiti, não vê uma saída do ministro da Economia. "Guedes sempre se mostra comprometido com o governo. Sua saída é apenas especulação", diz.


Ele aponta que a forte aversão a risco do mercado, que piorou durante o pronunciamento de Moro, se deve a declarações sobre Bolsonaro. "São acusações graves, bem tensas e Bolsonaro vai ter que se pronunciar e se defender. Moro é um ex-juiz e provavelmente tem provas de tudo o que está falando, ele não vai falar palavras ao vento. Sua figura é muito forte, com muita credibilidade", diz Almeida.​


Para os analistas, a percepção que fica para o mercado após o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro no final da tarde desta sexta (24) é a de que será preciso atenção para as reações nas bancadas ruralista e da bala -duas principais frentes de apoio a Bolsonaro.


"O discurso foi emocional e, por mais que a presença dos ministros em torno do presidente crie algum tipo de alívio, todos sabem que é muito protocolar. É preciso ficar de olho nas bases de apoio, porque a tendência é que a temperatura vai aumentar", disse Perfeito, da Necton.


Segundo Sales, a tensão política deve trazer mais insegurança no curto prazo, situação que continuará a pressionar o dólar para cima e o Ibovespa para baixo na próxima semana.


"Estamos em um limbo, onde não há a saída [do Bolsonaro], já que o Congresso de certa forma não tem tanto pulso para fazer um impeachment, mas também não há governabilidade. Isso trava tudo e ao mesmo tempo em que pressiona por mais estímulos fiscais, também joga pressão no Guedes, que já está perto de uma berlinda", disse o analista da Guide.

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