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Com Jesus de "rosto negro, sangue índio e corpo de mulher", Mangueira atualiza embate entre religiosos e carnavalescos

Divulgação / Mangueira
Postado em: 13/02/2020

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Anna Virginia Balloussier, da Folhapress

Misturar fé e Carnaval nem sempre dá samba. Não para grupos religiosos que vêm aumentando decibéis contra o que veem como cortejos despudorados na hora de vilipendiar seu credo.

A grita mais recente partiu do IPCO (Instituto Plínio Corrêa de Oliveira), de católicos que homenageiam, em seu nome, o fundador do ultraconservador TFP (Tradição, Família e Propriedade).   

Em abaixo-assinado, o IPCO pede "não ao samba da Mangueira que blasfema contra Cristo". Não há folia, nos últimos anos, "em que a Face Sagrada de Jesus não seja ultrajada, sempre em nome da liberdade de expressão", diz o texto.

Não foram os únicos aborrecidos com "A Verdade Vos Fará Livre", enredo de 2020 da escola de samba carioca.

Um dos maiores portais evangélicos, o Gospel Prime, chegou a publicar quatro meses atrás que a Mangueira abraçaria a Teologia da Libertação, "que busca desconstruir as doutrinas cristãs". 

Amplificado nos anos 1970, o movimento latino-americano incorporou à Igreja Católica discursos de justiça social e ganhou o rótulo de esquerdista.

Um de seus expoentes, o teólogo Leonardo Boff, vem mostrando entusiasmo com o "Jesus da Gente" da verde-e-rosa, com "rosto negro, sangue índio, corpo de mulher". 

Seria um jeito de enfiar "a visão de Karl Marx" no sambódromo, com um filho de Deus que "não é um libertador espiritual, mas um revolucionário que incentivou o uso político da igreja".

Fora a provocação barata ao presidente Jair Messias Bolsonaro, reclama o Gospel Prime. Diz o tema mangueirense: "Favela, pega a visão/ Não tem futuro sem partilha/ Nem messias de arma na mão". 

Para o IPCO, "a pretexto de exaltar as pessoas mais humildes", a Mangueira "conspurca a figura do Homem-Deus".

A petição deles "não passou nem a quantidade de seguidores que a gente tem", ironiza o carnavalesco Leandro Vieira. Só a conta da escola no Instagram tem 240 mil pessoas. 

Vieira, que tem as palavras Deus e família tatuadas, diz que a pressão de religiosos não o fará recuar. Seu Jesus será interpretado por pessoas como o ator Humberto Carrão e o pastor Henrique Vieira, um evangélico progressista. Os sambistas Nelson Sargento e Alcione virão como José e Maria. 

"A figura de Jesus foi historicamente domesticada para atender a interesses de poder", afirma. "Em nome de Jesus, já queimaram mulheres, torturaram indígenas. Num Brasil onde políticos se declaram terrivelmente cristãos [alusão a falas de Bolsonaro e sua ministra Damares Alves], Cristo foi transformado neste fiador de uma política que muitas vezes incita a violência."

Em janeiro, a Arquidiocese do Rio enviou uma carta à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), que organiza o Carnaval da cidade, para se dizer preocupada com eventuais ofensas à religião.

A Mangueira não é a primeira agremiação acusada por conservadores cristãos de achincalhar a imagem divina. 

Em 2019, a bancada evangélica acusou a Gaviões da Fiel de intolerância religiosa. O desfile do grêmio paulistano trouxe um duelo em que Satanás aparenta vencer Jesus. 

A Beija-Flor protagonizou 30 anos antes o mais emblemático embate do gênero.

A cúpula católica do Rio conseguiu liminar na Justiça para proibir a alegoria de um Cristo Redentor em farrapos, tal qual um mendigo.

A escultura acabou entrando coberta com plástico preto e a faixa: "Mesmo proibido, olhai por nós". 

Para Pedro Luis Barreto Litwincuk, o pastor Pedrão, da Comunidade Batista do Rio, vale lembrar que, para muitos fiéis, não se trata de expressão cultural, "mas uma falta de respeito com o Deus encarnado, Jesus". 

Sim, somos influenciados pela iconoclastia eurocêntrica "que coloca Jesus como loiro de olhos azuis, e não como um palestino".

A questão, contudo, "não é a imagem dele em ser índio, negro, loiro ou japonês, mas o limite do respeito pela pessoa que ele foi", diz.

Pedrão resgata uma passagem bíblica, do Livro de Isaías, que diz que o filho de Deus era despido de "boa aparência", sem "beleza nem formosura".

Contudo, existe "o tabu, o preconceito e a expectativa de como ele era", afirma. "O sentimento é de tristeza por desrespeitar a imagem de uma pessoa querida. Se alguém quiser zoar com a foto da sua mãe, você não ficará feliz." E nem um pouco contente ficou a Arquidiocese do Rio com várias representações de Jesus ao longo dos anos.

Além da já citada versão indigente de 1989, outras deram azia à Igreja Católica. 

Leandro Vieira lembra da decisão da Mangueira, em 2017, vetar uma de suas alegorias mais marcantes do ano: "Santo e Orixá", que trazia Cristo de um lado, e do outro o orixá que, para umbandistas, fez o mundo. 

A Arquidiocese tem um acordo com a Liesa: todo Carnaval, seu pessoal vistoria os barracões das agremiações antes dos desfiles. Se algo incomodar, sugere que fique de fora. 

Vieira conta que, naquele ano, não mostrou de antemão a escultura sincretista. No Desfile das Campeãs, a Mangueira não repetiu a criação que incomodou a cúpula católica. 

"A Arquidiocese pediu pra Liesa não autorizar a volta desse elemento cenográfico", diz. "Em nome do bom relacionamento com a Igreja", segundo ele, escolas costumam acatar ingerências do tipo. 

O desconforto religioso pode virar caso de polícia. Em 2000, a Polícia Civil confiscou da Unidos da Tijuca um painel com a Nossa Senhora dos Navegantes e, o carnavalesco Chico Spinosa foi acusado de vilipendiar um objeto de culto religioso.

"Acabei saindo de camburão do barracão e indo pra 4ª DP, com ameaça de um processo do clero do Rio", ele lembra. 
Decisão da Unidos: melhor não levar a santa ao sambódromo. 

A Beija-Flor tem histórico de quiproquós com cristãos. Em 2002, deu um jeito de esconder entre passistas uma representação de Nossa Senhora Aparecida -de novo, para não contrariar o arcebispado local. 

No ano seguinte, mudou em cima hora uma coreografia na qual Cristo e Satanás trocam tiros nas ruas, e uma bala acerta uma menina de rua.

Até Olavo de Carvalho, que anos depois viraria guru do bolsonarismo, criticou. Os dois ícones religiosos, escreveu na coluna que tinha em O Globo, "eram nivelados como igualmente responsáveis pela violência carioca. Não é preciso perguntar se mudou o carnaval ou mudamos nós".

Outra da agremiação, esta de 2005: Jesus açoitado por passistas fantasiados de soldados romanos. Ante novo protesto do clero carioca, a Beija-Flor preferiu não encenar a tortura na avenida.   

Seis anos depois, nova encrenca com católicos: ao homenagear o religiosíssimo Roberto Carlos, a escola bolou um carro alegórico com imagens de Jesus, Nossa Senhora e anjos. Nesta ocasião, não cedeu à pressão do episcopado católico. 

O historiador Luiz Antônio Simas lembra que a Estácio de Sá foi campeã no grupo de acesso em 2019 com enredo sobre um Jesus negro, e que já nos anos 1970 a Arrastão de Cascadura carnavalizava os jesuítas. 

Em 1976, para celebrar a ialorixá baiana Mãe Menininha do Gantois, a Mocidade foi consultá-la antes.

"Ela viu nos jogos dos búzios e só autorizou com a condição que a bateria toda raspasse a cabeça. Isso foi polêmico demais. Disseram que nem todas as coisas deram certo no desfile porque a escola não jogou os cabelos raspados no mar, como prometido à Mãe Menininha."

As cizânias com religiosos, hoje, continuam cabeludas.

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