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Horas após falar em pacto, Bolsonaro volta a criticar governadores e medidas de isolamento

Foto: Marcos Corrêa/PR
Postado em: 01/04/2020

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Daniel Carvalho, FOLHAPRESS


Menos de 12 horas após ter ido à televisão propor um pacto a governadores e prefeitos na crise do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a criticá-los pelas redes sociais nesta quarta-feira (1º), mais uma vez colocando em xeque as medidas de isolamento social.


Um dia antes, em seu quarto pronunciamento sobre a crise, o presidente havia sinalizado uma mudança de tom de seu discurso e pedido um pacto nacional para o enfrentamento à pandemia.

 

Na TV, depois de criticar em sua última aparição gestores locais pelas medidas de isolamento social, além de culpar a mídia por espalhar pânico na população, ele pregou a junção de esforços. "Agradeço e reafirmo a importância da colaboração e a necessária união de todos num grande pacto pela preservação da vida e dos empregos: Parlamento, Judiciário, governadores, prefeitos e sociedade."


Se em outras ocasiões comparou a doença a uma gripezinha e a um resfriadinho, Bolsonaro desta vez disse na TV que o país enfrenta um grande inimigo. "Estamos diante do maior desafio da nossa geração. Minha preocupação sempre foi salvar vidas."


Na manhã desta quarta-feira, porém, Bolsonaro retomou os ataques e compartilhou um vídeo em que um homem aparece no Ceasa (Central de Abastecimento) de Belo Horizonte e relata situação de desabastecimento.
Na segunda-feira (30), o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, negou que haja uma crise de desabastecimento. E, na terça, o ministro Sergio Moro (Justiça) repetiu o discurso e afirmou não haver motivo para "receios infundados".


No final da manhã a assessoria de imprensa da Ceasa informou que não há desabastecimento e que o movimento está normal, mesmo durante a crise do coronavírus. Em um dia de grande circulação, passam pela central de abastecimento 70 mil pessoas, de acordo com a administração. No dia em que o homem do vídeo compartilhado por Bolsonaro afirma ter feito a gravação, a Ceasa disse que o movimento estava normal desde as 4h.


​Depois que o desmentido começou a circular nas redes sociais, Bolsonaro apagou a publicação que havia feito no Twitter, no Instagram e Facebook.


"Para você que falou, depois do discurso do presidente, que economia não tinha importância, que importante eram vidas, dá uma olhada nisso aí. Pois é, fome, desespero, caos também matam", diz o homem no vídeo compartilhado por Bolsonaro.


"A culpa disso aqui é dos governadores porque o presidente da República está brigando incessantemente para que haja uma paralisação responsável. 


Não paralisar todos os setores, quem não é do grupo de risco voltar a trabalhar, ok?", afirma o homem, que fala em "governadores querendo ganhar nome e projeção política a custa do sofrimento da população".


Acompanhando o vídeo, Bolsonaro postou três frases. "Não é um desentendimento entre o Presidente e ALGUNS governadores e ALGUNS prefeitos..", diz o presidente. "São fatos e realidades que devem ser mostradas", prossegue. "Depois da destruição não interessa mostrar culpados", conclui o presidente.


Isolado dentro e fora do governo, o presidente falou por sete minutos e 32 segundos em cadeia de rádio e TV na noite desta terça-feira, enquanto se ouviam panelaços em diversas cidades do país contra seu discurso.


Ele voltou a usar declarações do diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus. Agora, para sustentar tese que equipara o salvamento de vidas ao de empregos. O presidente citou trechos de entrevista do chefe da entidade na véspera, na qual enfatizava que os governos devem ter preocupação com os mais pobres durante a pandemia.


Ghebreyesus reiterou a importância do confinamento para a prevenção do coronavírus e disse que os países que adotarem quarentena como uma das formas de conter a disseminação do devem respeitar a dignidade e o bem-estar dos cidadãos.


A mudança de tom do presidente em seu pronunciamento ocorreu após conversa com o ex-comandante do Exército general Villas Bôas e com ministros militares e da área jurídica.


Nos últimos dias, conforme mostrou a Folha de S.Paulo, dois ministros com alta popularidade, Sergio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia), se distanciaram do presidente e passaram a apoiar a fala do titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na defesa do isolamento social.


Segundo relatos feitos à reportagem, a conversa entre Bolsonaro e o ex-comandante do Exército foi decisiva para a mudança de postura. O presidente costuma se aconselhar com Villas Bôas, visto como uma figura de autoridade nas Forças Armadas.


Os militares ficaram incomodados com as críticas feitas pelo presidente a medidas de isolamento e distanciamento social. Ele vinha fazendo apelos para que as pessoas voltassem às ruas, na contramão do que orientam o Ministério da Saúde e a OMS.


Na manhã desta quarta-feira, um dia após jornalistas que ficam de plantão na porta do Palácio da Alvorada terem se afastado após Bolsonaro incentivar apoiadores a hostilizarem a imprensa, um segurança da Presidência orientou que as pessoas que geralmente o aguardam não atacassem os repórteres.


"Só peço a vocês que, quando o comboio parar aqui, evitar de ficar criticando o pessoal da imprensa. Infelizmente eles também estão fazendo o trabalho deles", disse o segurança.


A fala foi captada pelos gravadores dos jornalistas que já estavam posicionados no púlpito onde Bolsonaro costuma falar.


Nesta quarta, porém, Bolsonaro não deu entrevista. Falou apenas com os apoiadores. Uma apoiadora felicita o presidente pelo discurso da noite anterior. "Mas o problema continua", reagiu Bolsonaro.


"O diretor-presidente da OMS falou que cada país tem a sua peculiaridade. Tem país que é rico, tem um tratamento, quem não é, como o nosso, tem outro tratamento", disse Bolsonaro aos apoiadores. ​


Bolsonaro tem insistido na adoção no que chama de isolamento vertical, no qual apenas idosos e grupos de risco devem ser isolados -o restante da população deveria voltar a trabalhar imediatamente.


Essa opinião externada por Bolsonaro é contrariada não só pela OMS e por especialistas em pandemia, mas pela maioria dos líderes mundiais, inclusive o presidente americano, Donald Trump. Itália e Reino Unido, antes favoráveis a esse isolamento menos restrito, voltaram atrás diante do avanço dos casos da doença.

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