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"Bom Sucesso" e "Amor de Mãe" resgatam o prazer de ver boas novelas

Divulgação/TV Globo
Postado em: 20/01/2020

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Erick Rodrigues

É injusto dizer que o gênero tem sido totalmente desinteressante, mas o fato é que a produção de novelas andava bem desregular e, com algumas exceções, parecia perdida em repetições narrativas e vítima de textos que "mastigam" demais as histórias para torná-las mais fáceis de serem aceitas por um público com cada vez mais opções de entretenimento, como a internet e os serviços de streaming. No entanto, duas tramas no ar atualmente fogem a essas características: "Bom Sucesso" e "Amor de Mãe", exibidas pela TV Globo.

Falemos primeiro da novela escrita por Rosane Svartman e Paulo Halm, que entra na última semana de exibição no horário das 19 horas. "Bom Sucesso" trouxe, desde o início, uma trama com inspirações reais que, ao mesmo tempo, convidou o público a mergulhar no fértil e infinito mundo da literatura. Os livros foram explorados ao longo de toda a história, tanto para o desenrolar da narrativa quanto para estimular reflexões e discursos necessários.

Sobre o folhetim, é impossível não dizer que o destaque foi a relação entre o editor de livros Alberto Prado Monteiro (Antonio Fagundes) e a costureira Paloma da Silva (Grazi Massafera), personagens conectados pelo amor à literatura, mas, também, pelo erro de um laboratório, que fez com que ela pensasse que estava sentenciada à morte. Na verdade, é o editor que é diagnosticado com uma doença incurável e recebe a notícia de que tem poucos meses de vida.

O erro nos exames cria uma amizade que aproxima dois mundos quase que totalmente diferentes. O elo criado entre os personagens é sustentado pelos livros. A costureira, que não pode estudar para assumir as rédeas da família, sempre encontrou na literatura uma forma de sonhar e, assim, fugir do mundo real, ainda que por pouco tempo. Alberto, mais do que fazer desse hábito um ofício, também passou a vida usando a leitura como uma forma de elevação do espírito.

A escolha desse universo foi muito acertada e oportuna para os tempos em que vivemos. Além de contribuir com a narrativa, tornando-a mais poética, a retratação da importância da literatura serviu como contraposição a um cenário real de negação e até perseguição ao conhecimento. 

No capítulo do último sábado (18), o ensandecido vilão Diogo (Armando Babaioff), que havia assumido o controle da editora Prado Monteiro e adotado um discurso autoritário que poderia sair da boca de muitos políticos no poder, decidiu queimar a empresa. Enquanto isso acontecia, Alberto lia trechos de "Fahrenheit 451", livro de Ray Bradbury sobre um distopia onde os livros são proibidos e queimados. Em uma bela cena, após o incêndio, o editor e os funcionários resgatam algumas obras dos escombros, sinalizando a esperança por um renascimento.

"Bom Sucesso" tem outros pontos positivos, que ajudaram a construir o sucesso da novela. Dialogou com o espectador, por exemplo, sobre outros temas pertinentes, como inclusão, bullying, violência e drogas. Também cativou com bons núcleos coadjuvantes e fez rir com os textos reservados à atriz Silvana Nolasco (Ingrid Guimarães) e a Diogo, um ótimo vilão com tiradas inspiradas. Houve um escorregão, quando a trama se concentrou na volta do ex-marido de Paloma, mas a recuperação foi rápida e os danos ao conjunto da obra foram superficiais.

Há quase dois meses, "Bom Sucesso" ganhou deixou de estar isolada entre os bons folhetins atualmente em exibição e passou a dividir o espaço com "Amor de Mãe", trama assinada por Manuela Dias, estreante do horário nobre das 21 horas. Até aqui, pelo menos, a história tem cumprido com a tarefa de produzir bom entretenimento e, porque não dizer, honrar a atenção do público.

As tramas apresentadas em "Amor de Mãe" giram em torno de Lurdes (Regina Casé), Vitória (Taís Araújo) e Thelma (Adriana Esteves), mulheres fortes que fazem de tudo pelos filhos e, por conta disso, são passíveis de muitos erros. Esse, aliás, é um ponto importante da proposta de Manuela Dias. Quase todos os personagens revelam características ambíguas, capazes de provocar tanto a torcida quanto o julgamento do público.

Lurdes, por exemplo, é uma mãe amorosa e que não mede esforços pela família. Mergulhada na busca por um filho que foi vendido ainda criança pelo marido, a personagem defende a prole com unhas e dentes, inclusive sendo capaz de acobertar o crime de um deles e sacrificar a segurança financeira dos demais por outro, que, viria a ficar provado depois, nem era filho mesmo. Assim como ela, Vitória e Thelma também têm suas nuances. Enquanto a primeira pode ser justa e, ao mesmo tempo, fraca e egoísta, a segunda enche o filho de amor, sufocando-o e tomando atitudes condenáveis, como furar as camisinhas do jovem para ganhar um neto.

A inteligência do roteiro de Manuela Dias merece ser destacada. Marcada por diálogos fortes, a narrativa da novela sabe aproveitar bem os clássicos recursos do gênero e, simultaneamente, apresenta ao público uma nova forma de utilizá-los, através de personagens menos maniqueístas e mais reais. Essa proposta se fortalece com a direção artística de José Luiz Villamarim, que trabalha com enquadramentos mais cinematográficos e tem criado belas imagens para o produto.

Da mesma forma que "Bom Sucesso", "Amor de Mãe" também se mostra uma novela conectada com o próprio tempo e que não se furta em abordar temas importantes. A trama já discutiu violência contra a mulher, preservação do meio ambiente, feminismo, tráfico de crianças, racismo, desigualdade social e machismo. Recentemente, através de uma ocupação escolar, o folhetim passou a difundir um discurso muito pertinente sobre educação e a importância de investir no saber para o futuro dos mais jovens, mesmo que seja necessário enfrentar interesses políticos e qualquer outra adversidade, como a violência.

Em relação ao trabalho do elenco, destaco aqui os desempenhos de todos os envolvidos no núcleo da matriarca Lurdes, vivida com vigor por Regina Casé. Figura bissexta em novelas, a atriz rouba qualquer cena com a composição humanizada e cheia de nuances da personagem, que vai do drama ao humor com intensidade e competência. Também desse núcleo, Jéssica Ellen merece uma citação por dar carisma e força à professora Camila, filha adotiva de Lurdes especialmente envolvida no debate sobre educação aberto pela trama. Humberto Carrão, Taís Araújo, Ísis Valverde e Adriana Esteves também estão ótimos.

Conectadas ao momento em que estão sendo exibidas, "Bom Sucesso" e "Amor de Mãe" são produtos de entretenimento diferenciados, que prendem a atenção do público com boas histórias e conseguem ganhar relevância ao sustentar discursos e propor diálogos sobre temas necessários aos dias de hoje. Depois de algumas repetições do gênero e textos pobres que ganharam destaque na programação nos últimos tempos, essas obras resgatam o prazeroso hábito de sentar em frente à TV (ou qualquer outra tela disponível) e ver boas novelas brasileiras.

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