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"Big Brother Brasil" e "The Circle" ganham relevância com estímulo a debates oportunos

Reprodução/TV Globo/Netflix
Postado em: 07/02/2020

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Erick Rodrigues

Confesso que, durante muito tempo, carreguei um preconceito em relação a reality shows como o "Big Brother Brasil", que focam em confinamento e convivência entre participantes. Na verdade, ainda estão longe de ser meus programas favoritos, mas o tempo mostrou que é uma bobagem sem tamanho pensar que o simples fato de acompanhar ou não essas atrações pode fazer parecer que uma pessoa é mais ou menos inteligente.

Tinha decidido que não veria o "Big Brother Brasil" neste ano, unicamente pela opção de ficar preso a mais um programa, mas não deu certo. Vi o primeiro dia, depois o segundo, daí o terceiro e já se passaram duas semanas. Bom, não estou arrependido de ter me deixado levar. A vigésima edição do reality está especialmente interessante, muito por conta dos debates que estão sendo suscitados pelo confinamento dos participantes.

O tema principal de discussão, que tem repercutido na imprensa e nas redes sociais, está relacionado ao machismo e a ignorância de alguns participantes. Falemos primeiro de Petrix Barbosa, ginasta que entrou no programa no grupo dos convidados pela produção e já foi eliminado. Ele gerou revolta das torcidas por sacudir os seios da influencer Bianca Andrade durante uma festa, quando ela parecia estar embriagada, e esfregar a genitália na cabeça de Flayslane, também quando a participante tinha ingerido álcool.

Nas duas ocasiões, Petrix foi chamado pela produção e recebeu alertas sobre o comportamento, mas não enfrentou punições por essas atitudes dentro do jogo, como já ocorreu, por exemplo, com quem foi agredido fisicamente na atração. A emissora se omitiu em relação a esse caso e, no discurso feito pelo apresentador Tiago Leifert, justificou dizendo não endossar as ações de participantes. O problema é que, muitas vezes, não fazer nada pode ser um exemplo errado para um comportamento que precisa ser repudiado e não pode ser classificado como brincadeira ou "apenas" influência da bebida, ainda que as pessoas diretamente afetadas não reconheçam que foram alvos de atitudes desprezíveis.

Petrix também conseguiu a rejeição do público por conta de uma conversa com Lucas Gallina, quando os dois sugeriram que seduziriam participantes comprometidas para prejudicá-las no programa. Nesse diálogo, eles deixam claro que, se fizessem isso, contariam com a compreensão das namoradas, que estavam assistindo a tudo. Além de demonstrarem uma autoestima muito elevada, por acreditarem que seriam irresistíveis às mulheres da casa, Petrix e Lucas também revelaram uma conduta baseada no reconhecimento de um privilégio injusto que a condição de "macho" dava a eles: o fato de não serem julgados como as mulheres.

O plano dos dois participantes levava em conta um machismo histórico, que coloca a mulher como "vadia" e "promíscua", enquanto o homem é "garanhão" ou "viril". Pior ainda quando eles já contam que vão ser perdoados pelas namoradas, simplesmente por uma visão de que a vida é assim mesmo e os homens são como são.

Esse pensamento não ficou restrito apenas a eles. Felipe Prior e Hadson Nery também se envolveram em conversas do gênero e ventilaram uma tática semelhante para arranhar a imagem de Mari Gonzalez no programa. Comprometida, ela seria alvo da sedução de Lucas e dos votos do trio, considerando a rejeição que teria diante das investidas do companheiro de confinamento. Nesse caso, no entanto, o plano não saiu como esperado.

O grupo de mulheres da casa descobriu a tática machista dos participantes e confrontou Prior, Gallina e Nery, que descaradamente mentiram ao dizer que não fizeram nada disso. A confirmação definitiva veio com a entrada de dois novos participantes no programa, que trouxeram informações externas sobre a conduta dos homens. Ignorados e acuados pelas mulheres, eles choraram, temeram e continuaram negando o machismo, utilizando os argumentos mais pobres, como, por exemplo, o fato de conviverem frequentemente com o sexo feminino.

Todos esses acontecimentos do "Big Brother Brasil" provocaram conversas muito interessantes sobre atitudes machistas e a visão sobre a mulher na sociedade; assédio e conduta inapropriada; sororidade; e a importância de chamar à realidade algumas mulheres que fazem "vistas grossas" a certos comportamentos masculinos. Ainda que alguns espectadores não se engajem tanto nessas discussões, é importante que elas estejam em um produto televisivo de entretenimento.

Com um tom mais leve, o reality show norte-americano "The Circle" é outro que merece destaque atualmente por levantar um debate oportuno: a vida, muitas vezes falsa, nas redes sociais. Disponível na plataforma de streaming Netflix, o programa confina participantes em apartamentos e restringe o contato entre eles a uma rede social. Ali, eles podem usar informações e fotos para criar um perfil e interagir com os demais, sendo que não são obrigados a dizer a verdade.

Através das imagens, descrições e conversas, os participantes devem ganhar a simpatia uns dos outros para continuarem no programa. Os menos votados em um ranking de preferência são eliminados.

Além do entretenimento, "The Circle" levanta questionamentos interessantes sobre a vida nas redes sociais, nem sempre sustentada em informações verdadeiras. Alguns preferem fingir ter outras personalidades por insegurança e não aceitação, outros enganam descaradamente para obter alguma vantagem e ainda há quem tente ser autêntico, mesmo que isso não garanta popularidade.

O programa também destaca como algumas relações são construídas superficialmente por ingenuidade ou carência de alguma das partes, em um ambiente que alimenta a necessidade de aceitação e reflete o afastamento das pessoas na vida real. "The Circle" ainda mostra como os julgamentos por aparência podem ser cruéis por gerarem exclusão, traumas e insegurança. Sem dar spoiler, mas é curioso ver, no fim do reality, o predomínio de participantes que, mesmo diante de todos esses questionamentos, escolheram ser francos.

Assim como qualquer outro preconceito, julgar os reality shows apenas pela proposta inicial ou pela visão que outras pessoas vão ter de você por esse hábito é uma besteira. Gostar ou não depois de já ter visto é outra história. Tem valido a pena acompanhar as discussões levantadas em "Big Brother Brasil" e "The Circle", que, mesmo sendo produtos feitos puramente para entretenimento e audiência, estão conseguindo mostrar relevância.

 

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