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Banqueiro José Olympio, à frente da Bienal, perdeu sua esperança com Bolsonaro

Postado em: 24/03/2021

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Anna Virginia Balloussier, FOLHAPRESS


Uma das primeiras obras que o visitante veria na exposição agora adiada é uma de Nuno Ramos chamada "Coluna de Cinzas", uma pilha com 1,87 metro de pedaços de madeira e cinzas.


Do mesmo artista que confinou urubus numa instalação na Bienal de São Paulo, em 2010, e que um mês depois do massacre do Carandiru representou cada um dos 111 detentos mortos com uma pedra no chão, a peça simboliza a brevidade da vida. Com o Brasil se avizinhando das 300 mil mortes por Covid-19, há uma metáfora óbvia a ser pinçada aí.


Mas é possível ver a obra também como alegoria do desencanto de José Olympio da Veiga Pereira, de 58 anos, com o governo pelo qual, no fim de 2018, ele nutria mais otimismo. Foi o que disse ao jornal Folha de S.Paulo naquele dezembro, às vésperas de Bolsonaro estrear no Palácio da Alvorada. Ele próprio tinha sido recém-eleito para presidir a instituição responsável pela maior mostra de arte do Brasil e uma das maiores do mundo, a Fundação Bienal de São Paulo.


A escultura de Nuno Ramos tem dois centímetros a mais do que Jair Bolsonaro, um presidente que pode não estar mais à altura do cargo. "Do final de 2018 para cá, muita coisa mudou. Acho que a gente está vivendo um momento que não dá para ser otimista. Tem que se render aos fatos. A gente está num momento muito, muito complicado."


Olympio está no noticiário cultural por, junto com a mulher, figurar entre os 200 maiores colecionadores de arte do mundo, ao lado de gente como Jeff Bezos, o fundador da Amazon. Pertencem à dupla a escultura de Nuno Ramos e outras 118 obras da exposição "1981/2021: Arte Contemporânea Brasileira na Coleção de Andrea e José Olympio da Veiga Pereira", uma seleção organizada por Raphael Fonseca.


Acontece que Olympio também frequenta o circuito econômico. É presidente do Credit Suisse Brasil. Nesta semana, ele se uniu a outros banqueiros graúdos, como Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles, ambos do Itaú Unibanco, numa carta que pede medidas mais eficazes para brecar a escalada mortífera da Covid-19. Não é preciso nomear Bolsonaro para o ver como alvo de trechos como "o país exige respeito; a vida necessita da ciência e do bom governo".


A própria mostra foi afetada pela crise sanitária –abriria nesta semana no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, mas foi adiada por causa de um decreto municipal que impede o funcionamento de museus por ora.


Olympio deu esta entrevista por vídeo, com a mulher e o yorkshire Pablo, acima deles duas telas de Anna Maria Maiolino. O trio estava na mansão que abriga boa parte do acervo pessoal com 2.500 obras, além de 30 papagaios do tipo Lóris, reconhecido pelas cores vibrantes.


Mais cinzenta é a realidade do governo que em 2018 animou o mercado. Olympio a princípio prefere não falar sobre isso. "A sua entrevista é sobre a nossa exposição. Não me leva para esse lado", ele pede, depois de conversar por 40 minutos sobre diversos outros debates artísticos além da mostra em questão.


Difícil passar reto pelo tema mais premente desta geração. Vejamos Nuno Ramos, expert em trabalhos "muito cataclísmicos, sombrios", como Olympio o descreve. Uma ode aos tempos atuais?


"Acima de tudo, neste momento a preocupação é com a vida", diz. "Estamos muito impactados com este número horroroso de mortes, esta confusão que a gente está vivendo. É um momento muito sombrio da nossa história. Éramos para estar no Rio [para apresentar a exposição que, dias depois, acabou adiada], desistimos, achamos que não era seguro."


Questionados se já viram florescer uma arte pandêmica, Olympio e Andrea titubeiam. "A gente está muito curioso pra ver como é que isso vai", ele começa a responder, mas é interrompido pelo cãozinho Pablo, que abocanha uns óculos. "Ainda não notei. Estou curioso de ver o que vem por aí. Claramente mexeu com todo mundo."


Eles lembram então Erika Verzutti, artista que tem uma escultura na mostra e que os entusiasma –Andrea comprou a primeira obra dela. Ele conta que recentemente a paulistana fez pinturas digitais. "Em vez de pincel, tinta e tal, pelo computador ela criou pinturas que têm aspecto de pintura, pixeladas."


Cariocas radicados em São Paulo, os dois circulam pelo mundo das artes desde o início dos anos 1980. Ainda se lembram de uma das primeiras aquisições conjuntas, "uma gravurinha da Djanira", artista morta em 1979.


O banqueiro assumiu a presidência da Fundação Bienal em 2019. Seu mandato iria até o ano passado, mas foi estendido depois que a mostra foi postergada. De novo, a Covid-19 é a culpada.


A Bienal de 2020 já foi empurrada para a frente duas vezes. Por enquanto, está prevista para setembro de 2021. Se o vírus não der trégua até lá, podem remarcar mais uma vez, diz.


A diversidade a conta-gotas no alto escalão da curadoria brasileira é o próximo assunto. A presença de minorias na linha de frente da arte, afinal, ainda é bissexta. Quase todos os principais museus do país têm homens brancos em sua proa. No ano passado, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro virou uma das exceções ao nomear Keyna Eleison, curadora negra, para sua direção artística.


Não foge à regra a própria Bienal. Tem cinco curadores, quatro estrangeiros e um brasileiro, três homens e duas mulheres. Nenhum deles negro. "Ele é descendente de japonês?", Andrea pergunta e o marido confirma a ascendência de Paulo Miyada, parte do time e também curador do Instituto Tomie Ohtake.


"Diversidade é superimportante e está aí para ficar. É uma coisa que em todos os setores estamos conseguindo buscar", afirma Olympio, dando o MAM do Rio como exemplo. "Isso é um processo, vai acontecendo naturalmente."


Outro processo em marcha no panorama artístico é o NFT, o token não fungível, na sigla em inglês, que movimenta milhões de dólares no mercado da criptoarte. Estamos falando de um certificado digital para obras que não podemos ver ao vivo. Só existem enquanto virtuais.


A título de ilustração, um homem anunciou que leiloará com lance mínimo de centenas de milhares de dólares um vídeo de 23 segundos que viralizou no TikTok -ele andando de skate enquanto bebe um suco do galão, tudo ao som de "Dreams", clássico de uma banda dos anos 1960, Fleetwood Mac.


"Essa arte digital é só desdobramento de uma coisa que vem acontecendo há bastante tempo", afirma Olympio. O americano Sol LeWitt, por exemplo, já produzia décadas atrás pinturas que vinham com instruções para serem reproduzidas por qualquer um. Como uma receita de bolo, compara.


Andrea resgata outro exemplo, este dos nossos tempos. A Gucci, grife dos endinheirados, passou a vender um tênis digital por US$ 12, um par em cores néon que só pode ser calçado virtualmente. Ela admite que ainda acha "um pouco difícil de entender" a graça do NFT.


Para discorrer sobre a instantaneidade da arte num mundo tomado pela lógica do conteúdo viral que se dissipa como um espirro no ar, Olympio recupera o mineiro Amilcar de Castro. "Ele dizia que suas esculturas eram efêmeras. Em mil anos, o aço oxidaria todo e desapareceria. O conceito de efemeridade é relativo."


Passageira foi também a boa impressão com o governo Bolsonaro. Quando conversou com este jornal há dois anos, ele achava cedo para falar da perspectiva para o setor cultural com o Planalto sob nova direção. Preferia ver antes quem seria o secretário de Cultura.


Agora já estamos no quinto titular da área, Mario Frias. Cauteloso com as palavras, como de costume, Olympio aponta uma "situação delicada" para o cenário. "O próprio funcionamento da secretaria tem sido muito criticado. Acho que a cultura merece uma atenção maior."


Apoiaria de novo Bolsonaro? "Naquele momento, ele representou uma esperança. Infelizmente, ela não se materializou da forma como todo mundo esperava. Todo mundo, não, na forma que os eleitores dele esperavam", afirma.


Enquanto o poder público não corresponde às expectativas, Olympio e Andrea expõem um dos acervos privados de arte contemporânea mais expressivos do país.


Estarão no CCBB, quando a pandemia permitir, obras como "Isto É uma Droga", assemblage com caixas de remédio feita por Paulo Brucsky, e o néon "Sex War Dance", de Carmela Gross. Adriana Varejão, Claudia Andujar, Paulo Nazareth e Anna Israel, filha do casal, são outros nomes representados.


Calculam que artistas nacionais correspondem a 95% da coleção. "Se o cenário local não produzisse tanta coisa interessante, a gente provavelmente buscaria em outro canto", diz Olympio. "Não colecionaria arte brasileira se não estivesse convencido da qualidade."

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