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Ao endossar Biden, revista científica rompe tradição e apoia candidato pela 1ª vez em 175 anos

Arquivo / Folhapress
Postado em: 16/09/2020

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Adriano Maneo, da Folhapress

Um dos mais influentes veículos de divulgação científica do mundo, a Scientific American rompeu uma tradição de 175 anos e afirmou, nesta quarta-feira (16), que vai apoiar um candidato nas eleições presidenciais americanas pela primeira vez em sua história.

"Neste ano, somos obrigados a fazê-lo", diz um texto no site da revista. "Não fazemos isso levianamente", continua a publicação, que convoca os eleitores a votarem no candidato democrata, Joe Biden.

Entre os motivos, estão a rejeição à ciência difundida pelo atual presidente e candidato republicano à reeleição, Donald Trump, além de sua resposta à pandemia do coronavírus e seus ataques às proteções ambientais, ao sistema de saúde e aos pesquisadores dos Estados Unidos.

"As evidências e a ciência mostram que Donald Trump prejudicou severamente os Estados Unidos e seu povo. O exemplo mais devastador é a sua resposta desonesta e inepta à pandemia de Covid-19, que custou mais de 190 mil vidas americanas até o meio de setembro", diz a Scientific American.

"É por isso que urgimos que você vote em Joe Biden, que está oferecendo planos baseados em fatos para proteger nossa saúde, nossa economia e o meio ambiente", afirma a publicação.

A revista lembra que Trump foi avisado diversas vezes sobre a gravidade da doença ainda em janeiro e fevereiro, antes de o vírus chegar aos EUA, mas que, ainda assim, não desenvolveu uma estratégia nacional para prover equipamentos de proteção, testagem e diretrizes de saúde.

A publicação também afirma que foi com testes em massa e rastreamento que países europeus e asiáticos controlaram a doença, salvando vidas e reabrindo negócios e escolas, e que os lapsos de Trump aceleraram a disseminação do vírus, "particularmente em comunidades altamente vulneráveis".

A guerra cultural em torno das máscaras promovida pelo governo do republicano também foi incluída na conjuntura que levou a revista a se posicionar, além do incentivo do presidente às pessoas que resistiram a respeitar medidas de distanciamento social e outras restrições por conta da crise sanitária.

"Os estados que seguiram as orientações erradas de Trump registraram recordes diários e porcentagens mais altas de testes positivos do que aqueles que não seguiram", afirma a Scientific American. "Estados tiveram que fechar de novo, a um custo econômico tremendo."

"Em cada estágio, Trump rejeitou a lição inconfundível de que controlar a doença, e não minimizá-la, é o caminho para a reabertura e recuperação econômica", prossegue o texto.

A revista menciona também a revelação feita pelo livro do jornalista Bob Woodward de que Trump mentiu repetidamente sobre a ameaça da doença, ao afirmar que "é como uma gripe", quando sabia que era mais letal e altamente transmissível. Além disso, a publicação diz que suas mentiras encorajaram as pessoas a praticar comportamentos arriscados e a espalhar o vírus ainda mais.

A publicação lembra da campanha de ataques a pesquisadores de saúde, em especial a Anthony Fauci, maior especialista em doenças infecciosas dos EUA, e classifica a ação como uma "tentativa desprezível de semear mais desconfiança".

Além do destaque dado à resposta do presidente à pandemia, a Scientific American elenca uma série de outros motivos pelos quais decidiu endossar Biden.

Entre elas estão as tentativas do governo em eliminar o ObamaCare sem oferecer alternativas, os cortes a agências e órgãos científicos e de saúde, e a retirada do país da Organização Mundial da Saúde.

"Essas e outras ações aumentam o risco de que novas doenças nos surpreendam e nos devastem de novo", diz o texto.

Segundo a revista, Trump substituiu cientistas por representantes da indústria no conselho da Agência de Proteção Ambiental e continua tentando eliminar regramentos de saúde do órgão.

Finalmente, a publicação lembra que Trump nega as mudanças climáticas e que o presidente retirou os EUA dos acordos internacionais para mitigá-las, em clara oposição às propostas de Biden, que propôs um plano de US$ 2 trilhões para infraestrutura de energia limpa nos setores de transporte, energia e construção civil ao longo de quatro anos.

Segundo a Scientific American, o democrata "vem preparado com planos para controlar a Covid-19, melhorar a saúde, reduzir emissões de carbono e restaurar o papel legítimo da ciência na elaboração de política pública".

A publicação elogia o plano de Biden de instituir um conselho de testagem nacional para ampliar os exames e fazê-los chegar às comunidades e a proposta de ajudar a financiar escolas para se adaptarem à nova realidade e outras medidas para conter a Covid-19.

Também considera positivo o fato de o candidato democrata se cercar de especialistas para ouvir seus conselhos. "[A equipe] não inclui médicos que acreditam em aliens e terapias de vírus desmascaradas, um deles a quem [Trump] chamou de ´muito respeitado´ e espetacular", diz o texto, em alusão a um vídeo compartilhado pelo presidente em que uma médica usa informações falsas para defender um coquetel de medicamentos como cura para a Covid-19 e criticar o uso de máscaras.

A Scientific American pondera que não pode ter certeza de quanto das ambições de Biden serão cumpridas, já que muito depende do Congresso, mas diz que ele está ciente da necessidade de escutar a ciência para enfrentar as crises atuais e os desafios futuros.

Finalmente, a revista afirma que Trump e seus aliados estão tentando criar obstáculos para a votação, e urge os leitores a participarem do pleito.

"É hora de tirar Trump e eleger Biden, que tem um histórico de seguir os dados e de ser guiado pela ciência."

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