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"American Son" escancara racismo estrutural com texto poderoso e ótimo elenco

Divulgação
Postado em: 20/11/2019

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Erick Rodrigues

Dizem que a maternidade, além das alegrias que proporciona, também estabelece um constante estado de preocupação. Não é raro encontrar mães que não conseguem pegar no sono por estarem preocupadas com o filho que não chegou em casa. Infelizmente, para algumas dessas mulheres, as angústias são dobradas. Isso porque, mais do que considerar todos os problemas do mundo lá fora, elas também vivem a tensão de imaginar que os filhos podem ser alvos de injustiças e violências apenas por terem a pele negra.

O desespero de uma mãe com o desaparecimento do filho, sujeito a esse tipo de preconceito, é o ponto de partida de "American Son", filme da Netflix baseado em uma peça homônima da Broadway. A estrutura narrativa do longa, inclusive, segue a influência teatral, sendo ambientada basicamente em um único cenário e com personagens chegando ou deixando a cena conforme a necessidade da trama.

Kerry Washington vive Kendra, a mãe aflita pela falta de notícias do filho adolescente, que saiu de carro com os amigos. Visivelmente nervosa, ela é colocada em uma sala privada da delegacia e tenta conseguir alguma pista sobre o garoto com o policial Paul Larkin (Jeremy Jordan). Do alto dos privilégios conferidos pela pele branca e pela autoridade da farda, o oficial minimiza a angústia daquela mãe e, aos poucos, vai revelando comportamentos racistas, ainda que tente fazer parecer que aquilo faz parte do trabalho dele.

Larkin tenta, de todas as formas, dizer a Kendra que entende a angústia dela com o desaparecimento do filho. Mas, a verdade é que ele não entende e não parece interessado em tentar realmente ouvir aquela mãe preocupada com o racismo estrutural da sociedade, que segue provocando desigualdade e brutalidade contra os negros. 

Com a desculpa de colher informações sobre o caso, o policial questiona Kendra sobre a aparência do garoto e parte de preconceitos e estereótipos para fazer as perguntas. "Seu filho tem dente de ouro? Um nome de rua?", quer saber o oficial, presumindo, apenas pela cor da pele da mulher, que o jovem pode ser membro de uma gangue. Repetindo à exaustão que entende o drama da personagem, ele diz que também tem filhos, mas ouve um questionamento que o confronta com a realidade. "Algum deles é negro?".

Visivelmente alterado pelo desespero daquela mãe, Larkin se sente aliviado quando vê um homem, que carrega um distintivo, entrar na sala. Pensando ser ele um superior responsável, o policial critica as atitudes de Kendra e espera encontrar apoio. O homem em questão era, na verdade, Scott Connor (Steven Pasquale), agente do FBI, branco, de olhos azuis e, também, pai do garoto desaparecido. O pré-julgamento dele sequer considerou esse laço com Kendra e o adolescente.

"American Son" é mais do que uma história sobre a angústia da maternidade. A questão nevrálgica do espetáculo transformado em filme é o racismo impregnado em uma sociedade que insiste em minimizar ou negar a existência dele. O longa provoca uma reflexão sobre a necessidade de rompermos com as bolhas sociais formadas no mundo, que geralmente impedem que uma pessoa branca, colocada em uma posição de privilégio apenas pela cor da pele, procure entender uma realidade diferente. Essa falta de empatia ainda produz comentários como "os negros são os mais racistas" ou "os negros se fazem de vítimas".

Outro aspecto importante destacado em "American Son" é o debate sobre o racismo relacionado à brutalidade policial. É importante dizer que o longa, assim como outras discussões pertinentes do gênero, não questiona a importância e a integridade da instituição como um todo, apenas coloca luz sobre a necessidade de repudiar comportamentos racistas inseridos na sociedade como um todo, inclusive na polícia, mostrando que eles podem perpetuar injustiças e violência.

Com um elenco reduzido e adequado à proposta teatral, "American Son" se beneficia do desempenho dos atores, que também faziam o espetáculo na Broadway e mostram dominar a história. O destaque é Kerry Washington, muito entregue ao drama da personagem e à força do debate provocado pela história. Ela emociona e consegue fazer o espectador prestar atenção às angústias relacionadas ao desaparecimento do jovem.

Com a força concentrada no texto e nos atores, "American Son" não é um filme fácil para aqueles que esperam movimento. A linguagem teatral adotada pela obra pode espantar parte do público, mas vale a pena dar uma chance a essa proposta, que proporciona uma importante experiência de reflexão.

"American Son" nos confronta com uma realidade incômoda, que só pode mudar quando o racismo deixar de ser justificado e passar a ser combatido com veemência, não só pelas leis e pelos negros, mas por toda a sociedade. Isso começa com a disposição de nos colocarmos no lugar dos outros, ouvindo sobre os preconceitos sofridos e agindo para que eles não se repitam. Continuar dizendo que "todos são iguais e não existe preconceito" e que "os negros se vitimizam" é, por passividade ou concordância com a discriminação, continuar jogando o problema para debaixo do tapete. 

AMERICAN SON

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)

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