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"1917" usa refinamento técnico para disfarçar história fraca e pouco envolvente

Divulgação
Postado em: 29/01/2020

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Erick Rodrigues

No início da temporada de premiações deste ano, muitos falavam sobre as chances de êxito dos filmes "Era Uma Vez em Hollywood" e "O Irlandês", ou, até mesmo, das expectativas sobre "Coringa". Foi no Globo de Ouro que as atenções começaram a se voltar para "1917", drama de guerra do diretor Sam Mendes que levou o prêmio de melhor filme do gênero. Menos em evidência do que os concorrentes daquele momento, o longa rapidamente se transformou em favorito ao Oscar 2020, posto confirmado posteriormente com a vitória no Producers Guild Awards, o verdadeiro termômetro para a principal categoria do maior prêmio de Hollywood.

A estreia de "1917" e as primeiras críticas sobre o filme apontaram a proposta arrojada de Mendes e do responsável pela fotografia do longa, Roger Deakins, de criar condições para fazer uma obra que parecesse um grande plano-sequência. De fato, esse refinamento técnico apresentado é a grande qualidade da produção, mas é preciso destacar que a ousadia do projeto parou aí.

Ambientado na Primeira Guerra Mundial, o roteiro de "1917" é focado nos soldados Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), que recebem a missão de levar uma mensagem a companheiros de batalha. Para isso, precisam atravessar o território inimigo e chegar antes que cerca de 1600 homens morram em uma armadilha.

Para dar o tom dessa missão, Mendes segue os dois soldados britânicos com um câmera que parece registrar ações contínuas, sem nenhuma pausa. Para essa impressão, foi desenvolvida uma técnica que permitiu que vários planos-sequência fossem planejados e filmados, para, depois, serem costurados por um edição quase imperceptível. O resultado da empreitada é impressionante e faz toda a diferença para o filme.

Atrás de Blake e Schofield, a câmera percorre trincheiras, desvia de corpos, ultrapassa barreiras e dá uma dimensão mais realista sobre a tensão e o medo daqueles soldados, que precisam superar esses sentimentos para tentar salvar os companheiros de combate. As ações registradas pelos planos-sequência filmados são extremamente complexas e bem planejadas, exigindo um rigor coreográfico poucas vezes visto no cinema.

Toda essa proposta de "1917" tem a mão do diretor de fotografia, que contribui para a qualidade das sequências. Deakins também usa poucas luzes e cores para mergulhar o espectador na angústia e na insegurança de uma guerra, onde o risco está sempre à espreita e pode ameaçar vidas em uma distração.

Tal feito técnico pode, no entanto, disfarçar o grande defeito do filme: a história. "1917" parece, desde o começo, um roteiro formado por repetições do gênero. É fácil lembrar de obras como "O Resgate do Soldado Ryan" e "Dunkirk", que apresentaram situações parecidas as do longa. Quando isso não acontece, o enredo parece frágil, oco mesmo. A dinâmica da produção não permite que os personagens sejam desenvolvidos, ou melhor, parece que a obra nem se interessa muito por eles, que são meros instrumentos para o percurso da câmera. Fica difícil envolver o público assim, por mais boquiaberto que o espectador fique pela técnica.

Com o espaço reservado aos personagens, atores como Benedict Cumberbatch e Colin Firth pouco se destacam em suas participações especiais. Na dupla de protagonistas, o melhor desempenho é o de George MacKay, que tem mais oportunidade de explorar os sentimentos do personagem.

Com muitas chances de sair do Oscar com os prêmios de melhor filme e direção, "1917" merece todos os elogios pelo refinamento técnico que consegue atingir. Do planejamento dos planos-sequência à costura dessas cenas, passando pela fotografia, toda a técnica funciona perfeitamente e impressiona. A emoção do filme, no entanto, fica restrita a essas características, que acabam disfarçando uma história fraca e amparada por repetições do gênero.

 

1917

COTAÇÃO: ★★★ (bom)

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