Por Gabriel Bitencourt

Estamos acostumados a acreditar que para os problemas que nos afligem sempre há uma solução mágica. Isso ocorre em todos os campos da atividade humana.

Assim, um belo dia, para combater o mato que nascia nas diversas culturas agrícolas, nas frestas dos paralelepípedos das cidades, ao lado das estradas e linhas de trem, em substituição à mão de obra humana, como “num passe de mágica”, surgiu o glifosato – o princípio ativo do Roundup -, o “mata-mato” mais conhecido e usado no mundo. Aplica-se o produto e “zás” acabou-se o mato!

Há vários anos estudo o tema.

Li muito sobre o seu potencial toxicológico. Fui autor do projeto de lei que buscava proibir seu uso no ambiente urbano da cidade onde fui vereador – Sorocaba.

Anos depois, em 2010, por conta das mesmas preocupações que eu tinha com relação à aplicação deste produto, a ANVISA, proibiu seu uso nas zonas urbanas das cidades. Os motivos da proibição são relativos à toxidade do produto e à impossibilidade de implementação de medidas de segurança sanitária para sua aplicação nos ambientes urbanos.

O produto, entretanto, continuava (e continua) sendo comercializado e aplicado fartamente na zona rural e nas cidades como se fosse mágico: mata as ervas daninhas, “não provoca qualquer dano ambiental e nem às pessoas que o manipulam”. Assim o produto é vendido e festejado.

Em setembro deste ano, a França, dada à conclusão de que o produto tem potencial de causar câncer, entre outros graves problemas de saúde pública e ambiental, decidiu abolir o seu uso em todo território francês, inclusive na agricultura.

Este ano a União Europeia deverá avaliar a controversa possibilidade de autorizar a continuidade de seu uso nos países membros.

E é neste cenário de debate mundial sobre o assunto que vi uma situação que ilustra bem como a sociedade consome a propaganda enganosa e nos submete, a todos, aos seus perigos intrínsecos.

Passando em frente a uma movimentada avenida da cidade de Sorocaba, vi um jovem aplicando o produto na calçada.

Por conta do semáforo fechado e o vidro aberto do carro, logo senti o cheiro e os efeitos – aos quais sou bastante sensível – produto.

Ali, estava tudo errado: produto proibido de ser aplicado em ambiente urbano, em dia quente e com vento (alto potencial de intoxicação de transeuntes, aves e animais domésticos); o aplicador não tinha QUALQUER equipamento de proteção individual – luvas, máscara, óculos.

Um verdadeiro absurdo!

Quantos outros eventos como esse ocorrem no dia a dia das cidades?

Para saber mais:

Sobre a proibição do Glifosato na França https://istoe.com.br/franca-vai-proibir-totalmente-uso-do-glifosato/

Sobre a proibição do Glifosato na França http://agriculturaemar.com/franca-nao-espera-pela-ue-glifosato-na-agricultura-proibido-ate-2022/

Sobre a denúncia do jornal Le Monde sobre as pressões que investigadores da Organização Mundial da Saúde vêm sofrendo https://www.publico.pt/2017/06/02/sociedade/noticia/a-luta-da-monsanto-para-defender-o-glifosato-1774226

Sobre a proibição da “capina química” e seus motivos em área urbana  http://licenciadorambiental.com.br/sobre-a-capina-quimica-em-area-urbana/

Meu artigo sobre o assunto, em 2010, no site da ANDA https://www.anda.jor.br/2010/07/mata-mato-mata-inseto-mata-passaro-mata-gente/