Sapo
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“Entre as notícias que nos mandam nas redes sociais, deparei-me com a coluna tradicional sorocabana “Sapo N’Água”, publicada em 8 de janeiro, no Jornal Ipanema.

Geralmente, é uma coluna bem-humorada, sorocabano ri com ela. Mas desta vez, não.
Em um texto curto, o autor faz uma analogia as fêmeas da natureza com as mulheres da sociedade atual. Ao bom entendedor e para quem domina a compreensão de texto, meia palavra basta.

Será mesmo que somos iguais as fêmeas de todas as outras espécies de seres vivos?
Como bióloga e professora, digo que a resposta é simples, e qualquer aluno de Ensino Médio pode dar o feedback: não, não somos. E isso se dá pelo fato de que outras espécies, ao contrário dos humanos, vivem em seu meio ambiente, mas não tem consciência dele. Não interferem, modificam, alteram seu ambiente ao longo do tempo. Ao contrário das outras espécies, o Homo sapiens é um ser histórico. Constrói, modifica, incorpora e é incorporado em seu ambiente.

Assim, seres humanos não são determinados biologicamente. A humanidade se faz muito além, por relações sociais, culturais, étnicas. Somos uma totalidade de interações, e não nos enquadramos rasamente em conceitos isolados. Biologicamente somos machos e fêmeas. Historicamente, somos homens e mulheres.

Como homens e mulheres, agimos mto diferente dos nossos análogos naturais. Na natureza, o macho tem funções reprodutivas, de proteção de prole, da fêmea, do ninho. A dicogamia é comum em sapos, lagartos, peixes. Ser macho e ser homem diferem totalmente em suas concepções, assim como ser fêmea e ser mulher. Na natureza não existe um conceito, e que é exclusivamente humano, construído historicamente: o machismo.

E eis que chegamos ao nosso ponto principal. Quanto mulheres, desde os primórdios nos foi reduzido o protagonismo dentro do contexto social. Pelo patriarcado, fomos e somos subjugadas, expostas a contínua submissão. Os exemplos são muitos, e contam desde a pré-História. Na Grécia antiga, mulheres eram consideradas seres de segunda categoria.

Como propriedade paterna, e dps do marido, fomos tratadas. Consideradas histéricas, alguns séculos atrás, pela má interpretação de alguns médicos da época. O direito a frequentar ambientes sociais, escolares, trabalhistas, o direito ao voto, foram caminhos longos, conquistados arduamente, a custa da luta constante das mulheres contra a hegemonia machista.

Hoje, pelo próprio contexto histórico, conseguimos enxergar o machismo quanto idealização cultural a ser combatida e desconstruída. Chegamos a ele a pontos exorbitantes, alarmantes. A ponto em que os homens não só submetem, retiram direitos de mulheres, mas as agridem, física e psicologicamente, humilham, violentam, matam mulheres, apenas por elas serem mulheres, apenas pela imagem que o machismo construiu sobre elas, sobre seus supostos papéis, funções e lugares sociais.

Em que outra espécie as fêmeas são submetidas a este tipo de comportamento dos machos?

Não, feminismo não é determinação biológica, como escreve nas entrelinhas o colunista Marvadão. A luta das mulheres não é uma luta de “fêmeas” contra “machos”, de “mulheres” contra “homens”. É uma luta pela desconstrução histórica do machismo, que agride mulheres e impõem padrões de comportamento também aos homens. É a luta por uma sociedade igualitária, de equidade, onde os seres humanos, independente de seus gêneros, sejam protagonistas e agentes de sua construção. É a luta pelo respeito entre os seres humanos”.

Cris Madureira
Mulheres em Movimento – Sorocaba

Resposta do Marvadão

Obrigado, Cris, pelos elogios à coluna do Sapo Sapiens e pelos esclarecimentos.

Nas minhas veiculações, sempre fui um militante contra todos os tipos de violência, e ultimamente, diante dos fatos emergentes, tenho me posicionado de forma muito crítica aos atos praticados contra as mulheres em Sorocaba e região.

Na publicação que deu origem à sua carta, eu não disse que somos iguais aos animais, ainda que, instintivamente, tenhamos determinismos comuns que sobrevivem por baixo do verniz social. O instinto, em si, não é um mal, faz parte da natureza e nos dá sustentação biológica. Nem quis fazer qualquer paralelo ou analogia que justificasse, com sinais trocados, a violência machista contra as mulheres como um fato natural. Apenas, de forma provocativa para ampliar a discussão, quis estabelecer um contraponto humorístico na polêmica, o que, jornalisticamente, é saudável para o aprofundamento do assunto. É da natureza do Sapo Sapiens levar a pensar. Isso é sagrado. Caso contrário, eu não seria Marvadão…

A minha publicação apenas registrou, como curiosidade, o fato, não desmentido na carta, de que, ironicamente, em algumas espécies é comum as fêmeas matarem seus machos. Simplesmente isso.

De qualquer modo, a sua manifestação é importante. Mostra seus conhecimentos em biologia e o empenho do seu trabalho na luta em favor das mulheres. Apesar da diferença de estilo, nisso estamos juntos. Obrigado.

Celso ‘Marvadão’ Ribeiro

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