Especialista explica como abordar com as crianças o tema ‘assédio infantil’

Foto: Agência Brasil

Rachel Botelho, FOLHAPRESS

As notícias recentes sobre estupros coletivos de adolescentes e crianças colocaram lenha na fogueira das preocupações de muitos pais e mães, que se perguntam como (e se) abordar o assunto para ensinar os pequenos a identificarem e se defenderem de um possível assédio ou abuso sexual.

O temor faz sentido, já que mais de 500 mil estupros ocorrem a cada ano no Brasil, segundo estimativa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Da pequena parcela que é denunciada, mais de 70% das vítimas são crianças e adolescentes.

Para especialistas ouvidos pela Folha, apesar de ser um tema difícil para muitos pais, o assunto não deve ser tabu, já que o conhecimento ajuda a criança a se proteger.

Também não há um único modo nem uma idade mínima para falar da importância de se preservar o corpo e a intimidade, segundo eles, desde que o grau de desenvolvimento da criança seja respeitado e a conversa flua com naturalidade, em linguagem adaptada para cada fase.

“O problema não é falar da sexualidade infantil, o problema é quando há uma invasão do universo adulto no da criança. É importante conversar porque o conhecimento deixa a criança menos vulnerável ao abuso e menos propensa a esconder dos pais se algo acontecer”, diz Juliana Wierman, coordenadora da psicoterapia infantil do Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência da Unifesp.

Para a psicanalista Ilana Katz, doutora em psicologia e educação pela Faculdade de Educação da USP, a tentativa de prevenção pode ser mais eficaz se os pais conseguirem transmitir a ideia de que o corpo é próprio.

“Trata-se mais do que transmitimos com nossos atos e modos de lidar do que daquilo que podemos falar e explicar para as crianças –embora também seja importante que se fale, explique e ensine”, afirma.

Assim, quando a mãe ou o pai ajuda o filho a gerir o próprio corpo, como na hora de trocar a roupa, é preciso estar atento aos limites do toque. “Há uma diferença importante entre cuidado e invasão.”

A psicanalista Julia Milman, que acaba de lançar o livro “A Vida com Crianças” (Zahar, R$ 34,90, 184 págs.), diz que é mais importante propiciar a construção constante de autonomia em um ambiente de confiança, que permita à criança ter consciência gradativa do controle sobre o próprio corpo e da noção de intimidade, do que falar diretamente sobre abuso.

“E que ela consiga perceber a sutileza do que é uma invasão dessa privacidade, que muitas vezes não se dá apenas pelo contato físico, mas com palavras ou imagens”, diz Julia.

Como a criança, em geral, não faz perguntas diretas sobre assédio, mas traz curiosidades sobre a sexualidade ou questiona a origem dos bebês, eles podem aproveitar a ocasião para falar do tema.

Ilana Katz também recomenda que os adultos conheçam os assuntos em pauta nos ambientes dos filhos, que, assim como os casos recentes de estupro, se impõem como temas de conversa em casa. “Vale sempre perguntar o que a criança ou o adolescente entendeu do que se passou, e a partir disso trazer esclarecimentos”, diz.

BEBÊS

A transmissão dos cuidados com o corpo começa nos primeiros meses de vida, quando os pais nomeiam as partes do corpo ao limpar e vestir o bebê.

“Essa nomeação favorece que a criança se aproprie do próprio corpo, e o mesmo vale para os órgãos sexuais. É importante nomeá-los e dizer que são um lugar de intimidade”, diz Julia.

Mais tarde, vem o estágio em que a criança explora todo o corpo e faz brincadeiras com esse fim. “Esse é o momento de informar que não fazemos isso em público e que ninguém pode tocar neles”, completa.

O assunto pode e deve ser retomado ao longo do crescimento da criança, quando ela expande seu universo e começa a frequentar a casa dos amigos, por exemplo.

Foi o que fez a dona de casa Flávia (nome trocado a pedido), 43, mãe de duas adolescentes, de 14 e 12 anos. “Quando a mais velha tinha uns seis anos, eu disse que se ela achasse que havia algo de errado nas atitudes de um adulto era para acreditar no que estava sentindo, sair do lugar e me contar”, diz.

Já a administradora Cristiane, 42, mãe de meninas de três e quatro anos de idade, sentiu que era hora de falar sobre privacidade com as filhas a partir de um comportamento do sobrinho de oito anos.

“Ele queria ver as meninas tomando banho e deitar em cima delas como via na novela, e isso começou a me incomodar. Eu não queria tratar a sexualidade como algo anormal, mas a criança brinca com tudo e pode achar que não tem problema brincarem com a ‘pepeca’ dela”, diz.

Em casos como esse, Julia recomenda que os pais sejam cuidadosos ao nomear o ocorrido, para que a criança não associe prazer e culpa.
Por fim, é bom lembrar que, embora os pais tenham papel primordial nos cuidados com os filhos, a sociedade e o poder público vêm falhando na oferta de uma rede de proteção à criança.