Foto: João Wainer/Revista Poder

Por Djalma Luiz Benette

J.Hawilla passou os últimos cinco anos preso nos Estados Unidos após confessar extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro, obstrução da justiça e ter concordado em pagar U$ 151 milhões (cerca de R$ 450 milhões) à justiça daquele país.

O noticiário a respeito da sua prisão nunca foi isento, amigos davam informações mais generosas e adversários sempre mais ácidas, de modo que quando alguém dizia que ele vivia em liberdade em Miami, por causa do acordo que firmou com o governo local, vinha outro e frisava: mas usava tornozeleira eletrônica.

Desde domingo passado ele está de volta ao Brasil. “Voltei de vez”, afirmou ele à revista Piauí, na noite de quinta-feira (8 de fevereiro), por telefone. “Acabou o processo”, disse ele à revista.

Hawilla e Sorocaba

Hawilla decidiu pela minha contratação para ser o editor do jornal Bom Dia em 2005. Obviamente que houve todo um processo de seleção, mas me lembro de uma última conversa com o seu advogado da época, Góes, que havia sido ponta esquerda do Corintinha de Presidente Prudente. Hawilla estava na mesma sala, mas não participava da conversa.

O processo de seleção anterior pelo qual passei era sobre a minha capacidade técnica para o cargo de editor, essa última etapa era para tirar a cisma de Hawilla sobre se de fato eu conhecia Sorocaba. E Góes jogava conversa fora como se fizesse sala para o momento de eu conversar com Hawilla. E eu me entusiasmei com o papo de Góes, que era animado e engraçado, e quando Góes me perguntou se eu conhecia o Capitão, fiz referência a Juca Paes e contei algumas das histórias que conhecia a respeito desse folclórico sorocabano. Obviamente que era uma risada só. De canto de olho via que Hawilla também se divertia com o que ouvia do papo de Góes comigo. E, do nada, me lembro dele ter se levantado e dito ao Góes, não a mim: é ele.

Depois disso minha relação com o Hawilla foi esporádica nos 7 anos em que fiquei no Jornal Bom Dia. Mas intensa a ponto de presenciar conversas telefônicas dele com jogadores, dirigentes de futebol, diretor de esportes da rede Globo e políticos como José Serra e Alckmin – histórias que talvez um dia eu conte, afinal algumas são divertidas e outras tensas. J.Hawilla era cirúrgico nas palavras.

Não raro, nas segundas-feiras em que eu ia à sede da Traffic nas reuniões do jornal, ele chegava do almoço de carona no carro de Fausto Silva. Ele me levou para almoçar algumas vezes e não se importava em pagar por vinhos que eu nunca tomaria se ele não estivesse pagando a conta.

J.Hawilla tinha um mantra comigo e Marcelo Duarte, o responsável comercial do Bom Dia: Cortem custos. Custo é igual unha, cresce todo dia. Essa obsessão fazia ele ter equipes de planejamento e projeção de cenário que permitiram em 2010 ele me contar da crise que assolaria o Brasil em 2015.

Me lembro dele dizendo que o empresário ou empresa chegasse a 2017 teria vida longa. Supersticioso, Hawilla tinha suas manias (o número 7 a favor era uma assim como fugir do número 4, outra), mas também uma lucidez vista apenas em grande comerciantes: as pessoas só se lembram de onde eu me dei bem, mas falam quase nada ou nada de onde me dei mal.

O Hawilla que conheci sempre foi alguém que viveu no limite e arriscava. Se eu não estiver enganado, ele vai fazer 75 anos no dia 3 de junho. Sei porque é o mesmo dia do meu aniversário. Pela imagem que tenho dele, imagino que ainda tenha uns 20 anos de vida pela frente.

Descendente de árabes, seus familiares sempre viveram perto dos 100 anos. O pai dele, não sei se morreu, estava vivo e lúdico na casa dos 90 e muitos anos. Pelo que conheci de Hawilla, quando ele decidiu fazer o acordo com a justiça dos Estados Unidos ele fez essas contas: de quanto teria de dinheiro depois de pagar quase meio bilhão de reais e de quantos anos ainda teria para usufruir do que lhe restou.

Nesses cinco anos, eu lhe mandava emails e ele inicialmente me respondia. Um dia deixou de responder e eu também de enviar. Quando mandei o último, no começo de janeiro deste ano, o email retornou com a mensagem de que aquele endereço não existia mais.

Será um prazer ter um reencontro com ele.

Em tempo: Seu vínculo mais conhecido com Sorocaba é a TV Tem. Mas também ele tinha um hangar no Aeroporto local para o seu jato particular e, obviamente, outras relações pessoais.

Leia a íntegra da Piauí

Um dos pivôs do escândalo Fifa, o empresário José Hawilla – ou J. Hawilla, como ficou conhecido ainda quando era apresentador de TV – está de volta ao Brasil. Definitivamente, segundo disse à piauí. Hawilla é pessoa-chave no processo que apura esquema de corrupção que envolveu o pagamento de propinas milionárias a dirigentes de algumas das organizações responsáveis pelo comando do futebol mundial, como a própria Fifa, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Hawilla havia sido preso nos Estados Unidos. Fechou um acordo de delação em 2013, e, desde então, vem colaborando com o Departamento de Justiça norte-americano.

O dono da Traffic chegou a São Paulo no domingo, 4 de fevereiro. “Voltei de vez”, afirmou à piauí na noite desta quinta-feira, por telefone. Desde maio de 2013, Hawilla estava proibido de deixar os EUA, embora pudesse circular pelo país. Questionado sobre a proibição, respondeu: “Estava [proibido], mas acabou o processo”.

O empresário se recusou a dar mais informações. “Não posso dar entrevista. Estou proibido pelos advogados de falar. Não vai tentar arrancar coisa minha que você vai me comprometer.” O advogado de J. Hawilla, José Luis de Oliveira Lima, disse que não daria declarações à imprensa.

A viagem de Hawilla ao Brasil só ocorreu por conta de um acordo com a Justiça norte-americana. Segundo o Departamento de Justiça (DoJ), o acordo de liberação do empresário não é um documento público. O Brasil não tem tratado para extradição de cidadãos brasileiros aos Estados Unidos, mas, segundo o DoJ, Hawilla deverá estar presente na corte de Nova York no dia de sua sentença, no próximo 23 de abril.

Hawilla deverá passar o Carnaval em sua casa no Guarujá, litoral paulista, e em seguida segue para São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, sua cidade natal, onde também tem residência – um imóvel de 12 mil metros quadrados avaliado em 18 milhões de reais.

O empresário é dono do grupo Traffic, que atua no marketing esportivo desde 1980. Seus negócios se estenderam do Brasil a dezenas de países das américas do Sul, Central e do Norte. Preso em maio de 2013 pelo FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, sob acusação de obstruir a Justiça, Hawilla optou por delatar os envolvidos em dezenas de episódios em que ele diz ter pago milhões de dólares em propina para vários dirigentes esportivos. Entre eles estão Nicolás Leoz, que comandou a Conmebol entre 1986 e 2011; Ricardo Teixeira, presidente da CBF entre 1989 e 2012; e Marco Polo Del Nero, presidente afastado da confederação brasileira (ele foi suspenso do cargo pela Fifa no fim de 2017, e seu julgamento deve ocorrer até abril).

As propinas, segundo Hawilla, foram pagas entre 1991 e 2013 por meio de empresas offshore sediadas no Caribe. Ele também aceitou a incumbência do FBI de gravar conversas comprometedoras entre ele e dirigentes e empresários do esporte, entre 2013 e 2014. Sua delação serviu de base para a maioria dos indiciamentos feitos pelo Departamento de Justiça norte-americano.

Em dezembro de 2014, Hawilla declarou-se formalmente culpado pelos crimes de extorsão, conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça. Pela lei norte-americana, a pena para esses crimes, somada, pode chegar a 80 anos de prisão. Ele também concordou em vender todos os ativos da Traffic e indenizar o governo dos Estados Unidos em 151 milhões de dólares, dos quais 25 milhões foram quitados no fim de 2014. O restante deveria ser pago até a sentença judicial do empresário, prevista para abril deste ano.

Em dezembro de 2017, Hawilla depôs como testemunha de acusação na ação penal que resultou na condenação do brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da CBF, e do paraguaio Angel Napout, ex-presidente da Conmebol, por lavagem de dinheiro, fraude financeira e participação em organização criminosa. Ambos recorreram da decisão. (Allan de Abreu e Fabio Victor).

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