“Uma Mulher Fantástica” foca na importância do exercício do respeito e da empatia

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Por Erick Rodrigues

“Eu te olho e não entendo o que você é”. Essa frase é ouvida por Marina (Daniela Vega), a transexual protagonista de “Uma Mulher Fantástica”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2018. A trajetória da personagem, vítima de agressões e preconceitos velados, é marcada pela persistência para ser reconhecida como merece: um ser humano.

Dirigido por Sebástian Lelio, “Uma Mulher Fantástica”, longa que deu o primeiro Oscar ao Chile, começa mostrando a relação entre Marina e Orlando (Francisco Reyes), que vivem como namorados e, inclusive, estão morando juntos. O casal sai para comemorar o aniversário da protagonista, mas, na mesma noite, Orlando passa mal e é levado por Marina ao hospital.

A vida da protagonista enfrenta uma reviravolta quando o namorado morre e a garçonete, que também trabalha como cantora, passa a enfrentar as reações da família dele. Mesmo vivendo uma relação estável com Orlando, Marina perde o amor e, também, o direito a usufruir de tudo que compartilhava com o companheiro, como o carro e o apartamento.

Apesar de encontrar apoio parcial de Gabo (Luis Gnecco), o irmão do falecido, a protagonista passa a conviver com a agressividade da ex-esposa de Orlando, Sonia (Aline Küppenheim), e do filho dele, Bruno (Nicolas Saavedra). Incomodados com o relacionamento do pai, ambos alternam diálogos de preconceito velado com momentos de agressividade. Partem deles as frases, sempre carregadas de discriminação, sobre a transexualidade da protagonista: “o que você é?”. “eu te olho e não entendo”.

O preconceito também bate à porta de Marina por conta da investigação da causa da morte de Orlando. Adriana (Amparo Nogueira), uma investigadora da polícia, diz compreender o relacionamento do casal e afirma apoiar incondicionalmente a protagonista. As palavras e atitudes da investigadora, no então, aparecem sempre acompanhadas de julgamentos, mesmo disfarçados.

“Uma Mulher Fantástica” tem um roteiro simples, que se dedica a construir um perfil sobre a vida da protagonista. Nesse aspecto, a história define bem os extremos vividos por Marina, que sai de uma situação de amor incondicional com o companheiro para enfrentar “o mundo” repleto de preconceitos e agressividade.

Ao contrário do que pode parecer, o principal objetivo do filme não é apenas provocar discussões sobre transexualidade, mas gerar reflexões sobre humanidade. Quando os personagens olham para Marina focando nas diferenças e dizem não entendê-la, se esquecem de focar no que os torna semelhantes. Essa discussão do filme tem a ver com empatia e respeito, dois sentimentos que o mundo pratica cada vez menos.

Com a mensagem principal bem comunicada ao espectador, o filme perde um pouco da força por conta dos caminhos óbvios e fáceis apontados pelo roteiro para resolver a trama. Também há um excesso de uso de símbolos e analogias, sempre usados para dizer a mesma coisa.

Diante de um mundo nessas condições, “Uma Mulher Fantástica” também passa uma mensagem política importante ao ser protagonizado por uma mulher trans. Daniela Vega acerta na composição de Marina, que sempre busca lutar por respeito aos seus direitos, que não são diferentes de qualquer outro ser humano.

Primeiro filme protagonizado por uma transexual a vencer o Oscar, “Uma Mulher Fantástica” passa uma importante mensagem sobre o exercício da humanidade. Ignorando o sofrimento do outro, nos prendemos às diferenças, quando, na verdade, ganharíamos mais nos conectando com as semelhanças. E, apesar de todos termos características distintas, não podemos esquecer da empatia pelo próximo.