“Westworld” entrega fim de temporada instigante e “explode a cabeça” do espectador

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Por Erick Rodrigues

* Este texto contém spoilers!

Você já questionou a natureza da sua realidade? Acredita na liberdade das suas escolhas? Ou será que você está preso em uma narrativa já determinada por uma “força maior”? Depois do sucesso da primeira temporada, “Westworld” demorou dois anos para voltar ao ar e, nesse tempo, o público esperava que todas as respostas deixadas nos primeiros episódios fossem respondidas. Bom, as explicações até vieram, mas o grande trunfo da segunda temporada, que terminou neste domingo (24), com certeza, são as dúvidas deixadas pela história, que servem para alimentar a curiosidade do espectador.

Depois de ampliar o universo da série, revelando novos aspectos do parque, “Westworld” cumpriu com as expectativas de criar novos enigmas. O segundo ano começou com a aguardada revolução das inteligências artificiais criadas por Robert Ford (Anthony Hopkins). Enquanto executivos da empresa que controla o parque tentam conter os anfitriões, que adquiriram “consciência”, os personagens seguem seus caminhos para encontrar a “porta” que os levaria até outro mundo que não fosse aquele criado e imposto a eles.

O último episódio trouxe o ápice dos conflitos da segunda temporada, quando todos se encontram no Além do Vale, local visto como a grande esperança para que os anfitriões possam começar uma nova vida. Ali, Dolores (Evan Rachel Wood) e Bernard (Jeffrey Wright) se encontram após muitas idas e vindas dentro do parque, descobrindo um novo sistema e o armazenamento de todas as mentes que já passaram pela experiência oferecida pela empresa.

Depois de uma trajetória bem tortuosa, que culminou na revelação de aspectos pessoais do passado e em uma nova tragédia familiar, William (Ed Harris), o famoso Homem de Preto, também chega no Além do Vale, vivendo todos os conflitos criados pelos truques de Ford e pelos sentimentos de viver as histórias do parque.

Mesmo chegando a ficar à beira da desativação, Maeve (Thandie Newton) é outra que chega ao local e descobre o portal para um novo mundo. A passagem pela “porta”, aberta após as descobertas de Dolores e Bernard, não seria nada fácil, já que os humanos responsáveis pelo parque encontraram uma forma de frustrar os planos.

Apesar das dificuldades causadas pelos humanos no Além do Vale, são as escolhas de Dolores, nos momentos finais, que definem e direcionam o futuro da série. Pouco convencida de que aquele novo e fabricado mundo é a melhor saída para as inteligências artificiais do parque, a protagonista deixa com que a obsessão pelo mundo real fale mais alto e revela uma inesperada estratégia para, finalmente, estar inserida no universo fora do parque.

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Desde o primeiro episódio da segunda temporada, “Westworld” mostrou que não tinha como objetivo simplificar a trama para melhor absorção do público. Isso criou um roteiro que não segue uma linha temporal e que faz o espectador ficar atento às muitas idas e vindas da série. Construir mentalmente essa cronologia, aliás, é uma das diversões da atração, que continua alimentando o espectador com cenas isoladas no tempo e entregando desfechos antes mesmo de mostrar o que teria acontecido.

O roteiro da série também traz uma complexidade interessante, que privilegia mais as dúvidas do que as respostas. Mesmo revelando quais foram as intenções com a criação do parque para a “diversão” dos convidados, a trama cria, em seguida, muitas novas dúvidas sobre o futuro dos personagens e daquela tecnologia. Toda a história é formada por referências que fazem com que a cabeça do espectador “exploda” com tantas teorias e incertezas sobre o futuro dos personagens.

No episódio final da temporada, a ilusão sobre as possibilidades do Além do Vale carregam muitas referências bíblicas. Guiados para a “Terra Prometida”, os anfitriões que conseguem passar pelo portal encontram o mundo ideal para viverem após os sofrimentos da vida no parque. A passagem das inteligências artificiais, que têm seus arquivos descarregados nesse novo universo, remete, inclusive, à crença humana de que nos libertamos da nossa matéria para chegarmos ao Paraíso.

A aposta em tramas secundárias também foi um grande acerto de “Westworld”. Além de mostrar os objetivos que permitiram a criação do parque, que envolvem a busca pela imortalidade, a segunda temporada trouxe mais detalhes sobre a vida particular do Homem de Preto. Da mesma forma, a trajetória pessoal de Maeve também rendeu bons momentos para a série. A grande surpresa, que proporcionou um dos melhores episódios, foi o foco em Akecheta (Zahn McClamon), um dos mais antigos anfitriões do parque e que também está envolvido nas buscas pelo mundo do Além do Vale.

Mesmo se mantendo sempre interessante e surpreendente, o segundo ano de “Westworld” teve uma perceptível diferença de ritmo entre os episódios. Na primeira metade da temporada, a série se prendeu a um ritmo mais lento e caminhos menos objetivos. Nos cinco episódios finais, a narrativa ganha mais dinamismo e, com isso, as dúvidas dos espectadores aumentam ainda mais.

Assim que “Westworld” terminou, muita gente foi às redes sociais para dizer que não tinha entendido nada do episódio final. Mas, não há nenhum problema em não entender tudo de uma vez, já que um dos grandes trunfos da série é o fato de que as revelações surgem aos poucos e provocam outras novas dúvidas. Por isso, vale a pena ver o mesmo episódio várias vezes e terminar sempre com um novo questionamento.

A “explosão” na cabeça do espectador não fica só restrita ao destino dos personagens e também pode gerar reflexões sobre a vida real, inclusive por conta dos ganchos deixados pela série para uma futura terceira temporada, que só viria a acontecer em 2020. Diante de tudo isso, uma pergunta se repete: você já questionou a natureza da sua realidade? Se não, deveria.