“The Handmaid´s Tale” explora diferentes perspectivas e entrega segundo ano intenso

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Por Erick Rodrigues

Um regime autoritário, que cerceia liberdades e direitos, prejudica toda uma população, mesmo que, inicialmente, predomine a sensação de que um grupo específico é privilegiado por essa condição. Até mesmo as pessoas envolvidas nesse projeto de governo são lesadas por essa falta de liberdade, ainda que tenham dificuldades para perceber isso. Na segunda temporada de “The Handmaid´s Tale”, que terminou na semana passada, diferentes pontos de vista sobre a distopia criada pela autora Margaret Atwood ganham destaque, inclusive o olhar de quem se considera beneficiado pelo sistema.

Depois de focar, no primeiro ano, na apresentação dos personagens e do modo de vida em Gilead, o regime totalitário criado a partir de um golpe no governo dos Estados Unidos, “The Handmaid´s Tale” se aprofunda mais nos dilemas dos personagens e, com isso, também, cria novas camadas do sistema que impõe novas regras à população, como uma separação por “castas”, a redução do papel da mulher na sociedade e a predominância de interpretações religiosas que guiam as leis.

Ainda inconformada com a condição de aia, Offred (Elizabeth Moss) começa a temporada com o objetivo de fugir de Gilead e do papel imposto a ela pelo regime. Disposta a acabar com os abusos sofridos na casa dos Waterford, ela se vê envolvida em um plano para atravessar a fronteira em direção ao Canadá, tentativa, no entanto, frustrada pelo segurança dos comandantes. Um fato, no entanto, torna esse desejo mais urgente: a gravidez.

Submetida a constantes estupros do comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes), justificados como uma forma de servir a Deus e ajudar nos problemas de natalidade de Gilead, Offred acaba engravidando do motorista Nick (Max Minghella), para alegria de Serena (Yvonne Strahovski), a “mãe” por direito do filho de Offred, de acordo com as regras do regime.

A tentativa de fuga e os “privilégios” adquiridos por Offred por conta da gravidez tornam a relação entre a aia e a mulher do comandante cada vez mais difícil, gerando muitos conflitos e questionamentos sobre as funções de cada uma delas. Esses mesmos problemas, no entanto, também revelam as dúvidas de Serena sobre o regime que ela ajudou a consolidar. Uma viagem ao Canadá, com objetivos diplomáticos, por exemplo, fazem a mulher do comandante refletir sobre os direitos perdidos com o sistema imposto.

“The Handmaid´s Tale” traz, na segunda temporada, a novidade de mostrar a vida nas Colônias, lugares que funcionam como exílios e que abrigam pessoas excluídas do convívio de Gilead. É lá que são mantidas Emily (Alexis Bledel) e Janine (Madeline Brewer), aias que geraram “problemas disciplinares” a famílias de comandantes e foram enviadas para as Colônias para uma vida em condições precárias e trabalhos escravos.

No fim da temporada, depois do nascimento da filha, Offred ganha uma nova oportunidade para se ver livre do regime de Gilead. Em um plano executado pelas Marthas, empregadas nas casas dos comandantes, a protagonista encontra uma forma de, enfim, deixar os abusos para trás.

Em um momento do mundo em que se discutem temas como extremismos, ameaças às liberdades e o machismo, “The Handmaid´s Tale” se mostra uma série fundamental. Com uma trama bem estruturada, diálogos intensos e cenas marcantes, a produção traça paralelos entre a distopia criada pela história e diversos aspectos da atualidade, gerando boas reflexões.

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A grande qualidade da segunda temporada da série está no desenvolvimento dos personagens, especialmente os coadjuvantes, que acabam revelando novos pontos de vista sobre o regime autoritário de Gilead. A perspectiva mais interessante dos episódios é a de Serena, que, aos poucos, acaba confrontando as ideias que contribuíram com a construção daquele sistema. Antes convicta sobre as regras impostas pelos comandantes, a esposa de Waterford percebe que as novas leis não garantem necessariamente benefícios a todos.

Outra visão importante apresentada na série é a da jovem Eden (Sydney Sweeney), que tem o casamento arranjado com Nick. Romântica e só conhecendo as regras de Gilead na teoria, ela passa a sentir o peso de ter suas escolhas definidas pelo sistema e, ao tentar contrariá-lo, tem um destino trágico, ainda que importante para firmar um posicionamento sobre as regras impostas.

Apesar de bem estrutura e das ótimas construções dos personagens, “The Handmaid´s Tale” apresenta um escorregão na temporada. Em poucos episódios, o roteiro repete escolhas narrativas e coloca Offred em situações semelhantes, o que enfraquece a trama. Em duas oportunidades, a protagonista se vê isolada em momentos importantes para a história: a tentativa de fuga e o nascimento da filha. Isso acaba deixando uma sensação inevitável de falta de criatividade.

O elenco continua sendo um dos diferenciais da produção e não é a toa que a maior parte dos atores recebeu indicações ao Emmy 2018. Além de Elizabeth Moss, impecável como a aia principal da trama, merecem destaque: Yvonne Strahovski, Alexis Bledel, Sydney Sweeney, Max Minghella e Joseph Fiennes. Ann Dowd continua excelente e rouba todas as cenas como a implacável Tia Lydia, inclusive trazendo mais humanidade à personagem.

Com estreia prevista apenas para o segundo semestre no Brasil, “The Handmaid´s Tale” se consolida como uma das grandes obras da televisão no ar atualmente. Sendo encarada como mera dramaturgia ou gerando reflexões sobre o mundo em que vivemos, a série caminha fortalecida para a terceira temporada, que pode contribuir com mais intensidade e novas perspectivas sobre o regime autoritário de Gilead.