Terceiro ano de “Demolidor” ganha força com crise de protagonista e volta de vilão

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Por Erick Rodrigues

A parceria entre Marvel e Netflix não vive os melhores dias. “Punho de Ferro”, a série menos interessante desse universo, foi cancelada pelo serviço de streaming depois de duas temporadas que pouco empolgaram. Já “Luke Cage”, melhor que a primeira, teve uma boa segunda temporada e um gancho promissor para o futuro, mas divergências sobre os novos episódios azedaram um pouco mais a relação entre as empresas, o que provocou mais um cancelamento. Isso criou certa insegurança sobre “Demolidor”, produção que chegou à terceira temporada e que ainda não teve a continuidade sacramentada. Um detalhe, no entanto, pode contar a favor da atração: a força que a trama ganhou nos capítulos mais recentes.

O terceiro ano da série retoma os acontecimento a partir do desfecho de “Os Defensores”, que insinuava a morte de Matt Murdock (Charlie Cox) e o desaparecimento do Demolidor das ruas de Hell´s Kitchen. Por conta disso, Foggy (Elden Henson) e Karen (Deborah An Woll) questionam o destino do amigo, mas seguem com as vidas e os trabalhos.

Com o Demolidor fora das ruas de Hell´s Kitchen, o grande vilão da série, encarcerado em um presídio de segurança máxima, planeja uma volta triunfal. Wilson Fisk (Vincent D´Onofrio) propõe um acordo ao FBI em troca, a princípio, da proteção da mulher que ele ama e, com isso, entrega detalhes sobre os negócios escusos de grupos criminosos de Nova York. Aquele, no entanto, não era o único objetivo dele, que também é beneficiado por um atentado contra a vida dele e consegue o direito de ficar preso na cobertura de um hotel de luxo.

Uma das principais peças no jogo de Fisk é o agente Ray Nadeem (Jay Ali), que busca uma promoção na carreira e, sem saber, é escolhido pelo vilão para ser o elo da negociação. Vangloriando-se por ter feito o criminoso falar, Nadeem ignora que, na verdade, todo o FBI está sendo usado para que Fisk elimine a concorrência e possa voltar ao topo dos negócios, obtendo, inclusive, escolta particular das autoridades e driblando a vigilância dos agentes.

Os planos de Wilson Fisk não envolvem somente a retomada do controle do crime na região, mas, também, uma vingança contra o Demolidor, que, por sua vez, questiona os métodos adotados até ali e cogita, inclusive, matar o vilão. Para acabar com a fama de justo do vigilante, Fisk manipula Ben Poindexter (Wilson Bethel), um agente do FBI, que carrega traços de psicopatia e encontra no vilão uma ilusória estabilidade. Com o traje do Demolidor, Poindexter promove matanças, persegue Karen e faz a opinião pública questionar as intenções do vigilante e o verdadeiro caráter de Fisk.

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A terceira temporada de “Demolidor” apresenta uma crise de personalidade do protagonista que rende bons momentos aos episódios. Os questionamentos sobre a importância do trabalho como vigilante e os métodos adotados por ele fazem Murdock lidar com o passado, representado pelo apoio do padre Lantom (Peter McRobbie) e a descoberta de que a mãe está viva. As dúvidas sobre as escolhas e a confiança na justiça seguem até o fim da temporada e entregam um ciclo completo do personagem, ainda que essa trajetória não seja nada original.

Por falar em falta de originalidade, “Demolidor” também aposta em uma trama recorrente nas séries da Marvel no Netflix. Assim como em “Punho de Ferro” e “Luke Cage”, o protagonista é obrigado a encarar uma figura que se opõe diretamente à personalidade dele. O recurso, apesar de eficiente, torna previsíveis algumas construções narrativas, mesmo com algumas variações apresentadas.

Além da crise do protagonista, a grande força do terceiro ano de “Demolidor” está na volta de Wilson Fisk e na exploração das características do personagem, já bem construídas nas temporadas anteriores. Com uma interpretação precisa de Vincent D´Onofrio, Fisk é responsável por alguns dos melhores momentos da série, especialmente naqueles em que fica clara a manipulação discreta do vilão sobre os agentes do FBI e os conflitos de personalidade dele, que sempre parece oscilar entre raiva, insegurança, angústia, amor e poder.

Vale destacar, por fim, que os novos episódios de “Demolidor” conseguiram driblar o problema com as tramas arrastadas, quase sempre, para se encaixarem no formato de treze episódios proposto pela Marvel. Ao contrário de outras produções do mesmo universo, aqui o roteiro encontrou maneiras de preencher bem os capítulos com reviravoltas críveis, flashbacks relevantes e sequências de ação longas, mas pertinentes.

É preciso dizer que, nos últimos episódios, a série cede a recursos para acelerar acontecimentos e, com isso, resolve tramas de forma preguiçosa, “esfriando” o desfecho da temporada. Isso, no entanto, tem pouco efeito sobre o conjunto dos capítulos.

Para tentar escapar do mesmo destino de “Punho de Ferro” e “Luke Cage”, “Demolidor” conta com a força que a série adquire com os novos episódios, beneficiados pela crise do protagonista e, especialmente, pela volta de Wilson Fisk, o clássico Rei do Crime da Marvel. O bom desempenho da produção, infinitamente mais regular do que as parceiras do mesmo universo, pode garantir uma quarta temporada, cujo gancho fica claro no fim do terceiro ano.

DEMOLIDOR (terceira temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: boa