Por Erick Rodrigues

A construção de personagens complexos e menos próximos da perfeição se tornou popular na indústria do entretenimento, especialmente no universo das séries. A ascensão dos anti-heróis ganhou mais popularidade com Tony Soprano, o protagonista de “The Sopranos”, no fim da década de 90, e chegou ao ápice com Walter White, em “Breaking Bad”. Em “Good Girls”, lançada no serviço de streaming Netflix, a intenção evidente era levar esse tipo de complexidade para personagens inseridos em uma comédia e, em parte, isso é atingido pelo carisma das protagonistas, que até consegue maquiar falhas que impedem a produção de ir além.

“Good Girls” traz a história de três mulheres da classe média norte-americana que enfrentam dilemas pessoais que sempre esbarram em um elemento comum: dinheiro. A primeira é a dona de casa Beth (Christina Hendricks), que vive um casamento em piloto automático e uma rotina preenchida pelas necessidades domésticas e dos filhos. A descoberta da traição do marido e de problemas financeiros, que envolvem o pagamento da hipoteca da casa, é o pontapé inicial para a mudança da personagem.

A irmã de Beth, Annie (Mae Whitman), também passa por um momento conturbado na vida. Ganhando um salário baixo e morando em condições mais precárias que o ex-marido, ela entra em uma disputa judicial pela guarda da filha, uma criança que sofre bullying na escola por conta de questões relacionadas a identidade de gênero.

O trio de protagonistas se completa com Ruby (Retta), atendente de um café que sofre com a condição da filha, que tem problemas de saúde. A família também enfrenta dilemas financeiros, já que a menina precisa de remédios caros e, até mesmo, de um custoso transplante para ficar curada.

Os dramas pessoais das protagonistas fazem com que elas se unam em torno de uma mesma ideia: roubar o cofre do mercado em que Annie trabalha para sanarem os problemas financeiros. A ação, que era considerada simples por elas e tinha prazo para acabar, se desenrola além do esperado, já que o mercado era usado por uma quadrilha de criminosos que lavavam dinheiro no local.

Uma inicial dívida das mulheres com o chefe da quadrilha, Rio (Manny Montana), leva o trio a cometer outras infrações e, rapidamente, elas percebem que estão imersas no mundo das contraversões. A necessidade crescente por dinheiro faz com que elas escolham, inclusive, se inserir nos negócios dos bandidos, tentando aperfeiçoar os esquemas da gangue.

Divulgação

“Good Girls” surge com a clara proposta de construir anti-heroínas amparadas por uma base cômica, diferente do que se costuma ver em personagens do gênero, usualmente inseridos em dramas. Em parte, esse objetivo é alcançado pela construção carismática das protagonistas, apresentadas como mulheres do dia a dia que cedem a escolhas questionáveis por conta de problemas em suas rotinas. Os dilemas das personagens, aliados ao olhar bem humorado do roteiro, criam a empatia necessária para que o público se conecte com as histórias.

O efeito dessas construções acaba tendo um peso importante no resultado final da série. O carisma das protagonistas ajuda a conduzir o interesse do espectador e acaba maquiando defeitos do roteiro, que impedem, inclusive, que a produção tenha mais destaque. Um dos problemas escondidos também está relacionado à construção das personagens. “Good Girls” não desenvolve bem os arcos narrativos e fica no meio do caminho na proposta de mostrar a mudança do trio central.

O melhor exemplo de problema na construção dos arcos das personagens é o de Beth, a dona de casa tradicional que se deixa seduzir pelo mundo do crime. Ao longo dos episódios, a protagonista dá sinais de que faz aquelas escolhas condenáveis também por algum tipo de prazer, e não só pela necessidade financeira. Essa transformação, no entanto, é constantemente interrompida por hesitações pouco compreensíveis do roteiro. Não fica claro se os autores usam isso para postergar desfechos ou se apenas não sabem o que fazer com Beth na história.

Outro problema do roteiro também faz com que a série fique devendo em qualidade. Há uma sequência de acontecimentos, inaugurada a partir do roubo ao mercado, que se repete constantemente e isso acaba cansando. Em vários episódios, os roteiristas abusam da fórmula crime/consequência/virada, causando, além da repetição, uma previsibilidade maior dos acontecimentos que virão.

Com um bom “disfarce” causado pelo carisma das personagens centrais, “Good Girls” consegue levar o público até o fim da temporada, mas deixa a sensação de que a proposta da série não chegou até onde podia. A produção é prejudicada pelo desenvolvimento frustrado dos arcos narrativos e repetições no roteiro, que acabam reduzindo o potencial da história, que já teve a segunda temporada confirmada.

GOOD GIRLS (primeira temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: regular