Por Erick Rodrigues

A novela “Orgulho e Paixão”, exibida no horário das 18 horas da TV Globo desde março, andava açucarada e morosa demais. O folhetim de Marcos Bernstein, baseado em romances da escritora inglesa Jane Austen, sofria com a ausência de grandes conflitos e os efeitos insignificantes para a trama de antagonistas cômicos ou secundários.

Todo esse cenário mudou no início de julho, com a chegada de Lady Margareth, a vilã que a novela precisava, vivida pela ótima Natália do Vale. A personagem assumiu o posto de antagonista por conta da saída de Tarcísio Meira do elenco, por problemas de saúde. Desde então, a aristocrata britânica, que odeia o Brasil e os hábitos da população local, transformou o folhetim, que chega à reta final em alta.

Na onda do fenômeno das série, a dramaturgia mundial, em especial a norte-americana, vem apostando na construção de personagens que fogem do maniqueísmo visto nas novelas brasileiras. Personagens como o médico House (Hugh Laurie), o professor de química Walter White (Bryan Cranston) e o mafioso Tony Soprano (James Gandolfini) são criados com personalidades mais complexas, com traços que misturam os clássicos conceitos de “bem” e “mal”.

O folhetim brasileiro, no entanto, com todas as suas características de origem latina, vai seguindo no caminho contrário, priorizando esses conceitos maniqueístas que, muitas vezes, como é o caso de “Orgulho e Paixão”, acabam dando “sabor” a uma narrativa.

Com algumas exceções, o gênero das novelas sempre dependeu de um antagonista, que não necessariamente precisa ser um vilão. Essa função serve à história para criar um contraponto ao protagonista e dar movimento ao folhetim. A novela das 18 horas da TV Globo mostra, no entanto, o quanto uma história pode se beneficiar de um personagem assumidamente mal.

Lady Margareth é deliciosamente má, daquelas que o público gosta de odiar e que pode provocar o sentimento de catarse todas as vezes em que os mocinhos conseguem se livrar ou “dar o troco” em suas maldades. A personagem distribui seus malfeitos sem discriminação entre os núcleos do folhetim. Mesmo tendo como alvo central os protagonistas Elisabeta (Nathalia Dill) e Darcy (Thaigo Lacerda), a vilã não perdoa nem mesmo os personagens secundários, vítimas de planos malignos da aristocrata.

Por mais que seja muito bom assistir a uma obra que traga personagens complexos, “Orgulho e Paixão” mostra a força de um vilão descaradamente mal para um folhetim, que dá movimento a uma história e cria conflitos suficientes para manter os olhos do público atentos.

Assim como na novela de Marcos Bernstein, outras produções brasileiras do gênero também se beneficiaram das maldades de um bom vilão. Vamos lembrar algumas e tentar fazer o exercício de imaginar como essas obras seriam sem a presença desses personagens.

NOVELAS QUE NÃO SERIAM AS MESMAS SEM OS VILÕES

Divulgação/TV Globo

– SENHORA DO DESTINO

É impossível pensar nessa novela de Aguinaldo Silva sem a presença da vilã Nazaré Tedesco, que transformou posteriormente a atriz Renata Sorrah em um meme que rodou o mundo. A personagem é responsável pelo fio condutor do folhetim, que é o sequestro da filha da protagonista Maria do Carmo (Suzana Vieira). Mesmo depois que a farsa da maternidade é descoberta, Nazaré ainda faz de tudo para infernizar a vida da rival, atingindo, inclusive, os amigos e familiares da mocinha. Nazaré era responsável por fazer a trama de “Senhora do Destino” andar, seja empurrando personagens da escada, ameaçando os inimigos com uma tesoura ou mentindo para manter o amor da filha roubada de Maria do Carmo.

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– CORDEL ENCANTADO

Os folhetins, algumas vezes, carregam características também presentes em contos de fadas e essas histórias não existem sem os vilões. Misturando referências de fábulas com o cangaço brasileiro, “Cordel Encantado”, escrita pela dupla Duca Rachid e Thelma Guedes, tinha todos os conflitos sustentados pelas ações dos maus. A trama da princesa desaparecida no nordeste do Brasil só foi possível graças aos planos de Úrsula (Débora Bloch), executados pelo mordomo Nicolau (Luiz Fernando Guimarães). Na segunda fase da novela, a ação ficava por conta de Timóteo (Bruno Gagliasso), que faz de tudo para casar com a mocinha e até se autoproclama rei.

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– FORÇA DE UM DESEJO

Dinâmica e cheia de reviravoltas, “Força de um Desejo”, de Gilberto Braga e Alcides Nogueira, tinha seus acontecimentos quase sempre provocados por dois vilões. O primeiro era o fazendeiro Higino Ventura (Paulo Betti), um ex-mascate que enriquece e decide medir forças com o Barão Henrique Sobral (Reginaldo Faria), interessado em ganhar um título de nobreza e na influência que o dinheiro pode comprar. Além disso, ele escondia uma antiga paixão por Helena (Sônia Braga), a esposa do barão. Os demais conflitos da novela eram ocasionados por Idalina (Nathalia Timberg), a sogra de Sobral, que não aprovava o casamento do genro com a cortesã Esther Delamare (Malu Mader), que era apaixonada por Inácio (Fábio Assunção), o neto da vilã.

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– A FAVORITA

A novela de João Emanuel Carneiro começou com um proposta diferente: não revelar quem era a mocinha e a vilã. Para isso, criou comportamentos dúbios para Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Cláudia Raia). O público, no entanto, não comprou a proposta e a grande revelação do folhetim precisou ser adiantada. Depois que os espectadores descobriram que Flora era a grande vilã, a novela ganhou mais repercussão e se beneficiou das ações e comentários maldosos da personagem. As crueldades de Flora, aliadas ao desempenho impecável de Patrícia Pillar, colocaram a antagonista entre as maiores da teledramaturgia brasileira.

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– TIETA

Inspirada no romance de Jorge Amado, “Tieta” jamais existiria sem a beata Perpétua (Joana Fomm). Quando volta a Santana do Agreste, depois de ter sido escorraçada da cidade, Tieta (Betty Faria) está disposta a se vingar de todos que a maltrataram. O principal contraponto da protagonista, uma mulher exuberante e liberal, é a irmã beata, que se coloca como um pilar da moral e dos bons costumes. Para completar os conflitos entre elas, Tieta ainda se envolve com o seminarista Ricardo (Cássio Gabus Mendes), o filho de Perpétua. Os amigos da protagonista também são alvos das maldades da vilã, que distribui julgamentos e rancor entre os núcleos da novela.

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– MULHERES DE AREIA

Duas gêmeas idênticas com personalidades absolutamente diferentes. Os conflitos gerados por esse tipo de rivalidade viraram um clichê do gênero e muito dessa responsabilidade se deve a “Mulheres de Areia”, novela de Ivani Ribeiro exibida na década de 70, na TV Tupi e, depois refeita pela TV Globo, em 1993. Na segunda versão, as gêmeas Ruth e Raquel foram interpretadas por Glória Pires, que construiu muito bem as personalidades opostas das irmãs. A doce e justa Ruth tinha a vida constantemente atrapalhada pelas maldades de Raquel, que consegue, inclusive, casar com Marcos (Guilherme Fontes), o mocinho da trama. A perseguição da vilã ao ingênuo Tonho da Lua (Marcos Frota) também rendiam bons conflitos ao folhetim.