“O Sétimo Guardião” e a volta do realismo fantástico ao horário nobre das novelas

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Por Erick Rodrigues

A TV Globo já colocou no ar as primeiras chamadas da próxima novela das 21 horas, “O Sétimo Guardião”, que estreia em 12 de novembro. O folhetim representa a volta do autor Aguinaldo Silva ao realismo fantástico, gênero que acrescenta doses de fantasia a uma trama realista e contemporânea. Histórias do tipo não são vistas há anos no horário nobre do canal, ainda que algumas novelas tenham flertado com o recurso criativo durante esse período.

Além de voltar ao gênero que o consagrou, depois de trabalhos mais realistas como “Senhora do Destino” e “Fina Estampa”, Aguinaldo Silva também vai resgatar a geografia do universo lúdico criado por ele. As ações de “O Sétimo Guardião” vão se concentrar na pequena cidade de Serro Azul, localidade já citada pelo autor em outras tramas de realismo fantástico, mas que, até agora, nunca tinha sido vista na televisão.

Situada em algum lugar do interior do Brasil, entre Minas Gerais e o Nordeste, dizem alguns, Serro Azul é vizinha da Greenville de “A Indomada” e de Tubiacanga de “Fera Ferida”, outras novelas do autor que ajudam a entender a localização geográfica do universo criado na mente do novelista. Serro Azul sempre foi citada, nos folhetins anteriores, como um município mais bem desenvolvido e, agora, ganha vida própria em “O Sétimo Guardião”.

A geografia ficcional não é o único aspecto que liga Serro Azul aos demais folhetins do gênero. Apesar de cada uma delas estar situada no Brasil de seu tempo, essas cidades possuem lógicas próprias e se destacam por serem lugares onde o impossível é muito possível. Em “O Sétimo Guardião”, por exemplo, Silva promete a história sobre uma fonte com poderes curativos, protegida por guardiões e que está diretamente envolvida com um misterioso gato.

Para entender melhor o “mapa” do universo de realismo fantástico criado pelo autor e do caminho percorrido pelo gênero até a estreia de “O Sétimo Guardião”, decidi relembrar os folhetins anteriores de Aguinaldo Silva, destacando as cidades das tramas, que podem servir de explicação sobre o que está por vir com a próxima novela das 21 horas.

O MAPA DO REALISMO FANTÁSTICO

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– Asa Branca (Roque Santeiro – 1985)

Apesar de ter surgido da mente de Dias Gomes, outro mestre do realismo fantástico na televisão, “Roque Santeiro” foi escrita em parceira com Aguinaldo Silva, que, por sinal, tocou boa parte da novela sozinho. Apesar de ter uma trama mais política e focada na discussão sobre a construção de um mito, o folhetim teve um toque de realismo fantástico e já apontava para um estilo próprio que Silva seguiria a partir dali. Um dos grandes mistérios de Asa Branca era a personalidade do professor Astromar (Rui Resende), que, segundo as línguas afiadas da cidade, se transformada em lobisomem nas noites de quinta para sexta-feira. Nas caminhadas da criatura pelo cemitério da região, não era incomum encontrar a dançarina Ninon (Cláudia Raia), fascinada e curiosa sobre o lobisomem.

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– Santana do Agreste (Tieta – 1989)

A adaptação da obra literária de Jorge Amado, assim como “Roque Santeiro”, ainda não é uma legítima representante do universo que seria criado por Aguinaldo Silva, mas ajuda a entender a construção do que viria no futuro. O autor, ao lado de Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, mostrou uma Santana do Agreste isolada e parada no tempo, que, aos poucos, recebia sinais do progresso. Aqui, por exemplo, começamos a ver que a lua pode ter efeitos afrodisíacos sobre as pessoas, estimulando romances na cidade. Esse fascínio mágico pela luz da lua viria a se repetir em outras tramas do mesmo gênero posteriormente. Fantástico, ainda, foi o que aconteceu com a própria Santana do Agreste no fim de “Tieta”, quando o município foi completamente soterrado por areia.

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– Resplendor (Pedra Sobre Pedra – 1992)

Em meio à rivalidade entre duas famílias importantes, a Resplendor de “Pedra Sobre Pedra” é o mergulho de cabeça do autor no realismo fantástico, novamente ao lado de Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn. Na cidade, por exemplo, as mulheres que comem a flor que nasce do túmulo do fotógrafo Jorge Tadeu (Fábio Jr.) recebem a visita dele, que foi morto pelos hábitos mulherengos, mas nunca deixou o imaginário do mulherio local. Outro personagem fantástico de “Pedra Sobre Pedra” era Sérgio Cabeleira (Osmar Prado), que se sentia atraído pela lua cheia e até flutuava se não ficasse preso. O grande vilão da história, Cândido Alegria (Armando Bogus) também teve um destino digno do gênero e, depois de muitas maldades, se transformou em pedra.

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– Tubiacanga (Fera Ferida – 1993)

Apesar de pequena, Tubiacanga é uma cidade movimentada por acontecimentos inusitados. Muitos moradores, por exemplo, foram influenciados pelos efeitos da misteriosa água que brotou de uma fonte, descoberta próxima ao local em que estavam enterrados os pais do protagonista, Raimundo Flamel (Edson Celulari). Conhecido como “Xixi de Defunto”, o líquido mexeu com a libido da população do município, como da solteirona Ilka Tibiriça (Cássia Kiss) e do prefeito Demóstenes (José Wilker). “Fera Ferida” também apresentou ao público o coveiro Orestes (Cláudio Marzo), que jurava ouvir os mortos; a jovem Camila (Cláudia Ohana), que dormia por meses sem acordar e chegava a flutuar; e a Flamel, que chega a transformar a amada Linda Inês (Giulia Gam) em ouro. A trama foi mais uma parceria de Aguinaldo Silva com Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsonh, inspirada na obra do escritor Lima Barreto.

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– Greenville (A Indomada – 1997)

Colonizada por ingleses, Greenville também é uma cidade onde tudo pode acontecer e, não por acaso, é vizinha de Tubiacanga e Serro Azul. No local, a rotina dos moradores é constantemente agitada por fatos inusitados, como, por exemplo, quando o delegado Motinha (José de Abreu) caiu em um buraco sem fundo, produzido por uma obra eterna do prefeito Ypiranga Pitiguari (Paulo Betti), e acabou indo parar no Japão. Quando todos pensam que o delegado está morto, ele surge diante de todos para contar como foi cair até o outro lado do mundo. O jovem Emanuel (Selton Mello) também surpreende a todos quando se transforma em um anjo em plena praça. O raro fenômeno das duas luas que aparecem no céu de Greenville causa efeitos afrodisíacos nos moradores e faz até uma mágica para juntar Ypiranga e a primeira-dama Scarlet (Luiza Tomé), separados por uma cela da delegacia. Tudo isso sem contar a morte da vilã Altiva (Eva Wilma), que se transforma em uma fumaça roxa e ameaça os moradores da cidade.

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– Porto dos Milagres (Porto dos Milagres – 2001)

Inspirada na obra Mar Morto e A Descoberta da América Pelos Turcos, de Jorge Amado, “Porto dos Milagres” foi a última novela de realismo fantástico de Aguinaldo Silva antes dos projetos mais realistas do autor e da volta ao gênero em “O Sétimo Guardião”. O folhetim era cercado de misticismo e religiosidade, especialmente por conta da devoção dos moradores por Iemanjá. Outros fatos, no entanto, apontavam a inclinação da história para o gênero, como o fato de ser sempre lua cheia em “Porto dos Milagres” ou as aparições de Epifânia (Cláudia Alencar) para assombrar a vilã Adma (Cássia Kiss), que tinha sido responsável pela morte dela. A carola Genésia (Júlia Lemmertz) também tinha um lado inusitado e costumava cuspir pitombas sempre que ficava nervosa.