Novos episódios evidenciam desgaste e absurdos de “La Casa de Papel”

Foto: Divulgação

Por Erick Rodrigues

Ao longo dos treze primeiros episódios, a série espanhola “La Casa de Papel” se sustentou pelos absurdos que conduziram a trama. Se, por um lado, isso podia ser considerado o pior defeito da produção, por outro, também se mostrava como uma das poucas qualidades, já que, pelo menos, essa característica conseguia prender o espectador para o episódio seguinte. Com o lançamento da segunda parte da série, formada por nove episódios, ficou evidente que nem mesmo esse aspecto foi mantido.

Os últimos episódios de “La Casa de Papel” trazem o desfecho para os planos do Professor (Álvaro Morte) e do grupo de criminosos que invadiu a Casa da Moeda da Espanha. Com o cerco ao mentor do assalto mais apertado, os ladrões têm os conflitos entre si ainda mais agravados. Os atritos internos envolvem, principalmente, Berlim (Pedro Alonso), Tóquio (Úrsula Corberó), Rio (Miguel Herrán) e Nairóbi (Alba Flores).

Enquanto isso, do lado de fora, o Professor se desdobra para atrasar o trabalho da polícia. Sempre que as autoridades chegam perto de desvendar a participação do elemento que está fora da Casa da Moeda, o mentor do assalto dá um jeito de se proteger, mesmo surpreendido por imprevistos. A relação dele com a inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño) também chega ao ápice com a descoberta do plano e o comprometimento do trabalho da inspetora para concluir o caso.

Na primeira parte de “La Casa de Papel”, já tinha ficado evidente que a narrativa havia caído em uma armadilha pelo fato de quase todas as ações ficarem concentradas dentro da Casa da Moeda. Ao invés de ser uma oportunidade para desenvolver melhor os conflitos entre os personagens, a restrição do espaço físico acabou colocando a série em um “beco sem saída”, já que o roteiro não mostrou soluções criativas para desenvolver a história. Agora, na segunda parte, mesmo com mais movimentação, a série seguiu mostrando que não tinha um roteiro sólido para tantos episódios.

Os problemas criativos tornaram mais evidente o desgaste do enredo nos nove últimos episódios. Arrastado, o roteiro não encontrou outra solução e se escorou em cenas desnecessariamente prolongadas, que em nada acrescentam ao andamento da história, além de potencializar relações forçadas entre os personagens. Em vários momentos, a série cria reviravoltas absurdamente ridículas, apenas com a clara intenção de atrasar os desfechos, como, por exemplo, as primeiras cenas em que a inspetora descobre o papel do Professor no roubo.

Além disso, assim como na primeira parte, os episódios finais abusam ainda mais do recurso conhecido como “deus ex-machina”, expressão criada para definir soluções e descobertas que surgem do nada para resolver os principais conflitos do roteiro. A repetição do recurso, no entanto, enfraquece o roteiro e contribui com a sensação de que a história subestima a inteligência do espectador.

A construção dos personagens continua sendo um problema na segunda parte de “La Casa de Papel”. O roteiro tenta, constantemente, aprofundar os conflitos internos dos ladrões e da inspetora, mas nunca sai da superficialidade. Sempre fica a sensação de que o roteiro não sabe o que fazer com eles e, por isso, cria incoerências em demasia. O personagem mais problemático é Raquel Murillo, que parece, no início, conduzida para firmar a importância da posição feminina em um mundo majoritariamente machista, mas que acaba se rendendo a todos os clichês possíveis usados para questionar esse posicionamento.

Assim como na primeira parte, o fim de “La Casa de Papel” é um exercício de paciência para o espectador. O desgaste da trama fez dos episódios finais muito arrastados, amparados em um roteiro repleto de problemas criativos, que envolvem uma falta de habilidade para criar bons desdobramentos, soluções mirabolantes e uma construção de personagem falha. Tirando os aspectos técnicos, como fotografia e direção, não sobra nada de bom.

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