“Luke Cage” oscila entre bons conflitos de personagens e duração arrastada da temporada

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Por Erick Rodrigues

* Este texto contém spoilers!

A disputa por poder está, mais uma vez, no centro das ações de uma série da Marvel. Agora, enquanto um herói tenta estabelecer a ordem no Harlem, grupos rivais se enfrentam e estabelecem uma guerra para mostrar quem pode mais. É nesse cenário que se desenvolve a segunda temporada de “Luke Cage”, que apresenta uma evolução importante na construção dos personagens, mas volta a derrapar em um erro recorrente em produções do mesmo universo.

Depois dos acontecimentos vistos na primeira temporada e em “Os Defensores”, Luke Cage (Mike Colter) lida com a exposição e a fama de ser considerado um herói sem máscara nos dias de hoje, com a força da tecnologia e das redes sociais. Andando pelas ruas do Harlem e tentando proteger as ruas do bairro, Cage também lida com todos os conflitos que o peso da tarefa traz, tentando equilibrar a vida particular com as necessidades da comunidade.

As ruas do bairro seguem sob o comando de Mariah (Alfre Woodard), que observa tudo do balcão da boate Harlem´s Paradise. Influenciada pelo parceiro e amante Shades (Theo Rossi), a ex-vereadora da região quer deixar a liderança do mercado de armas para entrar na legalidade. Para isso, ela deseja vender o negócio e pretende se tornar uma boa e influente figura para o bairro, mesmo usando métodos traiçoeiros para atingir esse objetivo.

Os planos de Mariah começam a dar errado quando ela decide vender o negócio de armas para um grupo de jamaicanos do Brooklyn. Ela nem faz ideia, no entanto, que o líder da gangue, conhecido como Bushmaster (Mustafa Shakir), guarda um ódio pelos Stokes, a família de Mariah que sempre comandou o Harlem e cujo sobrenome ela sempre rejeitou.

Tentando expandir seu poder no território, Bushmaster não pensa duas vezes em criar verdadeiros “banhos de sangue” pelas ruas para destruir a influência de Mariah e vingar os conflitos familiares do passado. Luke Cage também representa uma ameaça para o jamaicano, que se sente desafiado pela fama “a prova de balas” do herói. Para enfrentá-lo de igual para igual, Bushmaster encontra um recurso para também ter sua resistência aumentada e se tornar um desafio ao indestrutível protetor do Harlem.

A grande qualidade de “Luke Cage” na segunda temporada é a evolução na construção dos personagens apresentados. O protagonista, por exemplo, apresenta conflitos interessantes ao longo dos episódios. Os primeiros questionamentos do herói surgem diante da fama e da superexposição da mídia, dúvidas aumentadas pela chegada do pai dele, James Lucas (Reg E. Cathey), e pelo relacionamento com Claire (Rosario Dawson), preocupada com a raiva e os sentimentos negativos do parceiro. Uma transformação interessante de Cage, deixada como gancho para um terceiro ano da série, pode aprofundar ainda mais essa complexidade.

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A personagem mais bem construída da série, no entanto, é Mariah, que revela várias contradições de personalidade. Interessada, no início, em deixar o negócio das armas de lado, a ex-vereadora mostra, ao mesmo tempo, que não está a deixar de ser a “rainha” do Harlem. Para mostrar a trajetória da antagonista, a série também cria um conflito entre Mariah e a filha Tilda (Gabrielle Dennis), que traz questões mal resolvidas e decisões que podem ser importantes para a história no futuro. A rejeição ao nome de família Stokes e aos horrores praticados pelos parentes ajuda a humanizar a personagem ao longo dos episódios.

“Luke Cage” volta a insistir em um erro muito presente nas séries da Marvel exibidas pelo serviço de streaming Netflix. A produção, mantendo a construção das histórias em 13 episódios, cria, com isso, uma duração arrastada e desnecessária dos acontecimentos. O ritmo acelerado e eficiente dos primeiros episódios logo dá lugar a opções repetitivas do roteiro, criadas unicamente para atrasar os desfechos dos personagens. Em certo momento, Mariah, Bushmaster e o próprio protagonista se perdem nessas repetições. O roteiro ganharia mais se tivesse sido pensado com três ou até quatro episódios a menos. A participação de Danny Rand (Finn Jones), de “Punho de Ferro”, é um exemplo de recurso desnecessário para a história.

A segunda temporada também falha com o desfecho dos conflitos envolvendo Bushmaster. Chegando com objetivos claros, cujos detalhes são revelados no decorrer dos episódios, o personagem ganha um final bastante incoerente com a trajetória construída. Interessado sempre na vingança contra Mariah, mostrando estar disposto a sacrificar a família em alguns momentos, Bushmaster ganha um fim preguiçoso na temporada, mesmo com o retorno dele ficando em aberto.

Mostrando uma evolução importante na construção dos personagens, “Luke Cage” ainda não consegue se livrar do principal defeito das séries da Marvel. A duração arrastada do roteiro dos episódios prejudica o ritmo da série e gera repetições cansativas nos acontecimentos. Mesmo assim, a produção segue como uma boa opção do gênero, conseguindo chegar perto de “Demolidor” e “Jessica Jones”.

LUKE CAGE (segunda temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

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