Início atropelado e ausência de protagonista enfraquecem final de “House of Cards”

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Por Erick Rodrigues

Quando o serviço de streaming Netflix confirmou o desligamento do ator Kevin Spacey das funções de protagonista e produtor executivo de “House of Cards”, acusado de assédio sexual e conduta abusiva nos bastidores, o cancelamento parecia sacramentado. Logo depois, veio a notícia de que Robin Wright iria assumir o foco da trama na sexta e última temporada, o que gerou dúvidas sobre a forma como os roteiristas iriam fazer para justificar o sumiço de Frank Underwood e o caminho solitário da esposa dele até o episódio final. Com a estreia dos capítulos finais, ficou claro que, apesar da extrema competência da intérprete de Claire Underwood, algo faltou.

Depois de um conturbado quinto ano, que culminou na chegada de Claire à presidência dos Estados Unidos, a sexta temporada começa colocando logo o espectador no centro dos acontecimentos causados pela morte de Frank, cujo corpo tinha sido encontrado na ala residencial da Casa Branca. Apesar do falecimento do marido, a presidente, mesmo tentando demonstrar o contrário, não parece impactada e tenta, a todo custo, firmar uma identidade própria como líder da nação. Pendências deixadas por Underwood em Washington, no entanto, atrapalham na construção da imagem que ela quer transmitir aos cidadãos.

As principais pedras no sapato da presidente são os irmãos Annette (Diane Lane) e Bill Shepherd (Greg Kinnear), ricos empresários que tinham feito acordos com Underwood e, com a morte dele, exigem que Claire cumpra com as pendências. Para isso, eles tentam obrigá-la a seguir orientações para conduzir a política internacional e implantar projetos de lei. Mesmo contando com o apoio do vice-presidente Mark Usher (Campbell Scott), que atua como um intermediário dos empresários, eles descobrem, aos poucos, que Claire faz prevalecer apenas a própria vontade.

Tanto o passado da presidente quanto do marido morto reaparecem para cobrar Claire. A causa de algumas dores de cabeça da protagonista, que luta para manter bons índices de aprovação e não economiza planos para isso, é a volta de Doug Stamper (Michael Kelly), que deixa para trás as acusações criminais e o atendimento psiquiátrico para tentar preservar a memória de Frank, disposto, inclusive, a destruir Claire se a presidente manchar a reputação do marido. Desse embate entre Claire e Doug, conforme previsão do próprio Underwood, só um pode sair vitorioso.

Com os problemas causados pelo desligamento de Spacey, os roteiristas precisaram refazer os roteiros dos episódios e dramaturgicamente lidar com aquela ausência. Para isso, e com um número mais reduzido de capítulos, os autores optaram por inserir o espectador no “olho do furacão”, com os acontecimentos já em andamento após a morte do personagem central. Isso acaba dando a sensação de que os quatro primeiros episódios têm um ritmo atropelado, especialmente pelo fato de o espectador não ter visto a escalada dos personagens, especialmente os novos, até o momento abordado.

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Não é nem uma questão de didatismo, mas falta ao roteiro contextualização para explicar o caminho escolhido para a trama. Ao invés disso, o espectador “cai de paraquedas” em um cenário completamente diferente e com personagens potencialmente interessantes, mas sem construção de passado, o que também torna difícil a conexão com a história. O exemplo que mais ilustra isso é a entrada de Diane Lane e Greg Kinnear, incontestavelmente ótimos nas interpretações, mas afetados pela ingrata missão de fazerem personagens sem “substância”, jogados apenas para criar conflitos.

Outro problema da última temporada de “House of Cards” surge a partir de uma contradição: Frank Underwood é um “fantasma” nos episódios finais da série, que não pode ser visto, mas está presente na história e nos outros personagens. Mesmo sendo sentido dessa forma, a ausência dele é muito marcante e impacta diretamente no desfecho da série. É importante frisar que não estou lamentando a punição dada a Kevin Spacey pela conduta constatada ou minimizando o acontecido, mas é fato que o personagem era vital para a história.

A certeza de que a presença de Frank Underwood era essencial para a conclusão da série também não quer dizer que Robin Wright decepcionou nos episódios finais. Muito pelo contrário! A atriz carrega os episódios nas costas, sempre com muita competência e dando a Claire uma complexidade poucas vezes vista no gênero. O problema é que, desde o início, o casal Underwood foi retratado quase que como uma simbiose, com um dependendo do outro para existir. Quando Claire aparece sozinha, o roteiro tenta dar a impressão de que Frank era uma peça descartável para a esposa, mas o resultado soa muito incoerente.

Depois de quatro episódios atropelados, “House of Cards” melhora na segunda metade da temporada, quando a trama ganha um ritmo de suspense. O embate entre Claire e Doug ergue a série, mas culmina em um desfecho que não faz jus às temporadas anteriores. A ideia de se aprofundar na personalidade da protagonista ao longo dos capítulos é boa, mas foi colocada em prática tarde demais e não resulta em qualidade para a temporada.

“House of Cards” tinha muitos desafios para superar na sexta e última temporada e, se não pode ser considerado ruim, o resultado também não é dos melhores. O começo atropelado, carente de sustentação para tramas e personagens, e a ausência de Frank Underwood, contraditoriamente presente em “espírito”, enfraqueceram a conclusão da história, bem longe de ser apoteótica.

HOUSE OF CARDS (sexta e última temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: regular

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