Por Erick Rodrigues

Era uma vez uma princesa que precisa se casar para cumprir um acordo e salvar o reino da falência. Esse até poderia ser o começo de um conto de fadas, se não fosse o fato de que a heroína em questão quase sempre está bêbada e sob efeito de entorpecentes. Como se não bastasse, ela ainda é acompanhada por um demônio e um duende exilado. Pelo breve resumo, já deu pra perceber que a trama de “(Des)encanto”, nova série de Matt Groening, não tem as crianças como público-alvo.

Com os episódios disponíveis no serviço de streaming Netflix, a animação conta a história de Teabeanie, uma princesa que se sente desajustada desde a morte da mãe, a rainha Dagmar. Ela foi criada pelo pai, o rei Zog, e a madrasta, a rainha Oona, e tem o casamento acertado por um acordo comercial que pode salvar o reino de Dreamland. A união, no entanto, é frustrada pelos modos da princesa, que não obedece a regras e passa os dias alcoolizada.

Na época do casamento frustrado, Bean, como é chamada pelos amigos e familiares, conhece o demônio Luci, que aconselha a princesa a tomar decisões questionáveis. Ela também se une a Elfo, um duende que foi expulso do convívio com o povo dele e acaba em Dreamland, onde o rei Zog tem a intenção de usar o sangue do elfo para fazer uma poção e viver para sempre.

Em dez episódios, “(Des)encanto” traz um roteiro divertido, com diálogos politicamente incorretos e cheio de referências a histórias infantis, desconstruindo quase todos os clichês do gênero. O espírito debochado e crítico, aliás, segue a linha das outras animações de Groening, “Os Simpsons” e “Futurama”, inclusive no traço do desenho. Chama atenção o humor do texto, nem sempre óbvio e capaz de gerar gargalhadas fáceis.

Apesar dos bons momentos de humor, a série animada apresenta alguns escorregões. Mesmo com as boas tiradas, “(Des)encanto”, em determinado momento, deixa de lado a trama central, apresentada no primeiro episódio, e se escora em histórias paralelas de curta duração, que, mesmo divertidas, se mostram apenas recursos para que o fio condutor da animação não se esgote rapidamente. Além disso, alguns personagens são mal inseridos e não dizem a que vieram na primeira temporada.

“(Des)encanto” já faz parte da lista de animações que, apesar do gênero, não foram criadas para serem apreciadas pelo público infantil. Esse segmento, aliás, vem crescendo consideravelmente nos últimos anos, trazendo histórias que passam longe da tradicional ingenuidade dos desenhos e, em alguns casos, mostram críticas sociais e comportamentais. Abaixo, outros bons exemplos de desenhos que seguem essa linha:

ANIMAÇÕES NÃO INDICADAS PARA CRIANÇAS

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– OS SIMPSONS

Os moradores de Springfield já estão entre os personagens mais conhecidos do mundo do entretenimento. No ar desde o fim da década de 80, “Os Simpsons” se transformou em uma das produções mais longevas da televisão mostrando a rotina da família formada por Marge, Homer, Bart, Lisa e Maggie. Também criada por Matt Groening, a animação abusa do humor ácido e politicamente incorreto, responsável por criar momentos inusitados e, até, críticas políticas e sociais, especialmente sobre o estilo de vida norte-americano. Coincidências entre a série e a vida real criaram, inclusive, a lenda que “Os Simpsons” já conseguiu prever acontecimentos, como a vitória de Donald Trump nas eleições e vencedores de Copas do Mundo.

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– BIG MOUTH

A chegada da puberdade pode representar um drama para muitos jovens, mas, em “Big Mouth”, esse é exatamente o foco da comédia, que surge de momentos trágicos relacionados a mudanças corporais e a descoberta do sexo. No primeiro episódio, por exemplo, Nick e Andrew vivem conflitos provocados pelas alterações hormonais e físicas, que abalam a amizade entre eles. O roteiro apresenta um humor bastante explícito e absurdamente engraçado, o que fez a animação ser muito elogiada por espectadores e crítica. A animação, de traços bastante exagerados, fez tanto sucesso que a segunda temporada deve sair do forno em breve no serviço de streaming Netflix.

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– UMA FAMÍLIA DA PESADA

Quem nunca teve contato com a série e apenas escuta a música de abertura pode pensar que a história vai mostrar a rotina de uma família focada nos tradicionais “bons costumes”. Essa impressão some logo nos primeiros minutos do episódio, seja ele qual for. “Uma Família da Pesada” é constantemente comparada com “Os Simpsons”, mas a primeira sempre se mostrou muito mais escrachada e polêmica do que a segunda. Sexo, preconceito, pedofilia e críticas à cultura pop são temas constantes no núcleo familiar de Peter Griffin, o desbocado protagonista criado por Seth MacFarlane. Os muito moralistas, com certeza, não vão suportar um único episódio.

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– F IS FOR FAMILY

Muita coisa do passado não teria espaço no mundo politicamente correto de hoje. Pensando nisso, “F is for Family” usa o fato de ser ambientada nos anos 70 para explorar e criticar hábitos e atitudes. O protagonista é Frank, um tradicional chefe de família constantemente irritado com a vida ordinária e com os filhos. Uma das principais preocupações dele é o filho adolescente Kevin, que vive uma fase de rebeldia e vagabundagem. A animação também destaca Sue, desvalorizada pelo marido e insatisfeita com os papéis que exerce. “F is for Family” diverte com um texto despudorado e bem crítico, especialmente sobre temas como machismo e a criação dos filhos.

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– FUTURAMA

Olha o Matt Groening de novo, mas, dessa vez, esqueça o mundo medieval de “(Des)encanto” ou os dias atuais de “Os Simpsons”. Como o próprio nome já deixa claro, “Futurama” avança no tempo e fala sobre o futuro, recurso que dá ao roteiro a possibilidade de explorar inspirados absurdos. Na trama, Fry é um entregador de pizza que, acidentalmente, se congela e fica “adormecido” por mil anos. Quando desperta, ele encontra um mundo completamente diferente; personagens inspirados, como Bender, Leela e Zoidberg; e um texto irônico e, em muitos momentos, bastante politicamente incorreto. Oficialmente, “Futurama” terminou em 2013, mas, vez ou outra, ainda aparece na grade de programação da Fox.

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– ARCHER

O gênero das animações adultas precisava de um espião, que reunisse os principais clichês da espionagem e acrescentasse um humor anárquico. Essa lacuna foi preenchida com “Archer”, série que se passa em uma agência internacional de espiões. O principal deles é Sterling Archer, um homem egocêntrico e mulherengo que não suporta compromissos e tem atitudes questionáveis no trabalho, o que faz dele um alvo constante de Malory, chefe e mãe do protagonista. A graça da animação está nas referências a outras histórias de espionagem e, também, no humor malicioso de Archer, que, apesar de se considerar inteligente, nem sempre consegue convencer os outros disso.

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– RICK AND MORTY

Essa é uma das animações mais populares dos últimos anos e conquistou uma legião de fãs por seguir a linha do politicamente incorreto e, ainda, apostar em uma trama de ficção científica. “Rick and Morty” traz a história de um garoto pouco popular que é recrutado pelo avô para ajudar em experimentos científicos ousados, como viagens entre mundos. O humor fica por conta da falta de inteligência do garoto Morty e dos problemas com álcool do cientista Rick, que se envolvem em situações extremamente absurdas. De quebra, a série ainda apresenta uma dose de crítica social, geralmente inseridas no contexto dos episódios.

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– FINAL SPACE

Outras representantes do gênero já mostraram que as histórias espaciais podem render bons conflitos para esse segmento das animações adultas. Neste ano, foi lançada “Final Space”, série que tem como principal qualidade a abordagem engraçada de referências da cultura pop e da ficção científica. Não é de se estranhar, por exemplo, que o espectador mais atento se divirta com pontos em comum com clássicos como “Star Wars” e “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. A trama conta como Gary foi condenado a ficar preso em uma nave, no espaço, sem qualquer contato com outros humanos e que passa a ser cassado por um vilão por conta de uma criatura tão meiga quanto destruidora. O sucesso garantiu uma nova temporada para 2019.

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– BOJACK HORSEMAN

Fique atento ao humor de “BoJack Horseman”, que não fica apenas restrito às piadas “proibidas para menores”. Aqui, também há a intenção de levantar algumas críticas sobre o universo das celebridades, da fama e do dinheiro. Com inteligência, o roteiro mostra o protagonista BoJack sobrevivendo do reconhecimento dado por um seriado antigo e em um cenário de trabalhos cada vez mais escassos. Piadas de cunho sexual e sobre consumo de drogas também estão presentes no texto dessa animação, marcada por outros personagens curiosos, como o encostado Todd e Princess Carolyn, namorada e agente de BoJack.