“Cobra Kai” se escora na nostalgia e erra ao não trazer nada de novo ao universo de “Karatê Kid”

Lawrence e LaRusso se encontram 34 anos depois de "Karatê Kid" - Divulgação

Por Erick Rodrigues

O apelo nostálgico é o principal estímulo para o resgate de uma obra, seja ela no cinema ou na televisão, que marcou o público de alguma forma. Esse trunfo, chamemos assim, que pode garantir, inicialmente, o interesse do espectador que gosta do original, não é suficiente se vier sem um planejamento sólido de roteiro, que respeite os aspectos do passado e, ao mesmo tempo, traga novos elementos ao universo em questão.

Trazendo de volta clássicos personagens dos anos 80, que participaram na infância de muita gente, a série “Cobra Kai” estreou com a proposta de dar nova vida ao universo da popular franquia de “Karatê Kid”, 34 anos depois do filme original ter estreado nos cinemas. Deixando-se levar pela sensação de “jogo ganho”, a produção já mostrou, nos dois primeiros episódios exibidos, que a grande aposta na nostalgia deixou pouco espaço para as novidades.

Depois do fatídico torneio que consagrou Daniel LaRusso (Ralph Macchio) como campeão, vitória essa alcançada com os ensinamentos do sensei Kesuke Miyagi (Pat Morita), muita coisa mudou em mais de três décadas de vida. Ele se tornou o dono de uma renomada concessionária da Califórnia, que também presta serviços de mecânica, e é conhecido pelas vitórias no karatê, utilizadas como marketing para o negócio dele.

O foco de “Cobra Kai”, no entanto, não está na bem sucedida vida de LaRusso, mas no que aconteceu com o adversário dele, derrotado naquele torneio. Johnny Lawrence (William Zabka) trabalha como faz-tudo e não está em uma maré de muita sorte. Com um temperamento explosivo, ele passa os dias bebendo e tentando evitar os muitos problemas com o padrasto, a ex-mulher e o filho adolescente. Uma batida no carro dele faz com que Lawrence e o antigo rival voltem a se encontrar, expondo o abismo que os separa.

Antes um valentão, que chegou a torturar LaRusso na adolescência, Lawrence, agora, conhece o jovem Miguel (Xolo Maridueña), que é alvo de um grupo de colegas da escola. Durante uma confusão, Lawrence salva o garoto, que passa a querer aprender karatê. O contato com o rival faz com que o ex-aluno do dojo Cobra Kai tenha a ideia de reabrir a antiga escola como um plano de recomeço de vida.

Quando uma obra já começa amparada por uma base sólida, como é o caso de “Cobra Kai”, que se propõe a continuar a saga “Karatê Kid”, é preciso que algo novo seja inserido ao universo. Como não é um remake, a série peca justamente nisso. O elemento nostálgico é muito forte na produção, sempre remetendo a lugares, personagens e falas clássicas da franquia de filmes. A maior parte das referências é usada com humor e algumas delas até funcionam, porém, o que predomina é a sensação de cópia ou repetição de fórmula.

A vitória de LaRusso em “Karatê Kid”, em 1984, é o ponto de partida de “Cobra Kai” – Divulgação

Com muito espaço para a nostalgia, houve pouco espaço para a apresentação de novos elementos que possam sustentar a proposta, o que explica o sentimento de que “Cobra Kai” está querendo apenas copiar o sucesso antigo. O roteiro dos primeiros episódios é apressado e óbvio, repetindo ganchos e narrativas do original sem trazer qualquer frescor para o enredo, que até soa datado em alguns momentos, mesmo diante de recursos tecnológicos.

Parte dos problemas da série é causada pelo mau desenvolvimento dos personagens, apresentados superficialmente em meio aos acontecimentos apressados do início. Apesar de ter a intenção de retomar a história sob o ponto de vista do lutador derrotado, “Cobra Kai” não constrói empatia pelo personagem central, que não tem os conflitos aprofundados. Fica difícil para o espectador se conectar com os dramas de Lawrence se essas camadas de personalidade não ajudam a dar sustentação para a nova proposta. Esse desenvolvimento poderia ser o elemento que daria novo fôlego ao universo, mas isso ainda é mal explorado.

“Cobra Kai” tenta usar detalhes para contextualizar a história em um mundo que avançou mais de três décadas desde o original “Karatê Kid”. Para isso, a série insere discussões mais atuais, como a presença maior de imigrantes nos Estados Unidos e a criação dos jovens em um ambiente mais tecnológico, mas esses meros detalhes não são suficientes para atualizar o enredo.

Apesar de não ser suficiente para gerar um interesse maior sobre a proposta, a confiança na nostalgia não provoca apenas um efeito ruim, já que os bons momentos da estreia da série ficam por conta justamente disso. É inegável que a maioria das referências funciona e pode aquecer o coração dos saudosistas, que também poderão ver uma forma de filmar que remete à época e uma boa trilha sonora.

Exibido pelo Youtube Red, braço do famoso site de vídeos para conteúdos originais, “Cobra Kai” apresenta primeiros episódios frágeis, que se escoram apenas em nostalgia e deixam de lado a criação de elementos que possam dar novo fôlego ao universo. Narrativa apressada e conflitos superficiais dos personagens ajudam a enfraquecer a produção, que poderia ser diferente se, junto com o apelo nostálgico, houvesse uma proposta coerente de novidade.

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