Por Erick Rodrigues

“Não me convidaram pra esta festa pobre, que os homens armaram pra me convencer, a pagar sem ver toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer”. Em 1988, a música “Brasil”, composta por Cazuza e cantada por Gal Costa, anunciava o início do capítulo da novela “Vale Tudo”, posteriormente reconhecida como um dos grandes folhetins da teledramaturgia brasileira. Agora, 30 anos depois da estreia, a novela vai voltar ao ar, no canal Viva, o que pode ser pertinente diante do atual cenário político do país.

Em 1988, a trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères propunha uma discussão sobre a corrupção e a falta de ética em um Brasil recém-saído de um período de opressões e do movimento das “Diretas Já”, que reivindicou eleições diretas para presidente e deu início a um processo democrático no país.

Na época, “Vale Tudo” já criticava a corrupção brasileira, que passava pelo “jeitinho” de levar vantagem em cima dos outros e chegava a grandes corporações. Além da efervescência política, há três décadas, apesar de algumas visões esperançosas sobre o futuro, também havia certa desilusão da população com o Brasil, que, naquele tempo, segundo alguns, “já não tinha conserto”, sendo esses representados pela visão pessimista da vilã Odete Roitman (Beatriz Segall), que odiava o país de todas as formas possíveis.

Agora, em 2018, o folhetim ganha uma reexibição em um Brasil que caminhou, mas ainda convive com muitos desses problemas e enfrenta tensões e incertezas políticas. A volta do folhetim, a partir da próxima segunda-feira (18), às 15h30 e 0h30, pode ser uma boa oportunidade para analisar muitos dos debates propostos pela história, além de rever personagens clássicos da dramaturgia brasileira.

CINCO MOTIVOS PARA REVER O FOLHETIM

Divulgação/TV Globo

– Discussões políticas e éticas

Vale a pena ser honesto em um país que parece valorizar a desonestidade? Lá atrás, “Vale Tudo” trazia um texto focado em discutir as atitudes de um povo afetado pela corrupção e pela falta de ética, vista nas pequenas atitudes do dia a dia e nas escolhas políticas dos governantes. Logo no início da novela, a vilã Maria de Fátima (Glória Pires) protagoniza um debate para tentar convencer o avô (Sebastião Vasconcelos) a não cobrar impostos de produtos trazidos, por um amigo dela, de fora do Brasil. A cena é, até hoje, uma das mais lembradas do folhetim. O final do vilão Marco Aurélio (Reginaldo Faria), outro momento marcante da novela, reflete a impunidade ao mostrar o empresário fugindo de avião, após aplicar golpes financeiros, e dando uma banana para o Brasil. Temas oportunos, não?

Divulgação/TV Globo

– Bons personagens

Apesar do tradicional maniqueísmo do gênero, “Vale Tudo” trouxe boas construções de personagens. O mocinho Ivan (Antonio Fagundes), por exemplo, começa a trama buscando uma colocação no mercado de trabalho e, logo, ganha um lugar de destaque na empresa de Odete Roitman e Marco Aurélio. A boa índole do personagem não impede, no entanto, que ele questione o valor da ética. Maria de Fátima, a vilã que engana e mãe e foge para tentar enriquecer no Rio de Janeiro, também mostra fraquezas e certa ingenuidade, especialmente no começo da relação com César (Carlos Alberto Riccelli). Contradições também são construídas na personalidade da vilã-mor Odete Roitman, que se deixa seduzir por César, em determinado momento da novela, revelando outro lado.

Divulgação/TV Globo

– Quem matou Odete Roitman?

Usado até hoje por autores de novelas, o tradicional recurso do “Quem Matou?” dificilmente mobilizou ou vai mobilizar o espectador como em “Vale Tudo”. Nos últimos capítulos, a vilã Odete Roitman é assassinada e o crime mobiliza os principais personagens do folhetim. O público da época parou para descobrir a identidade do criminoso, revelação gravada apenas no dia em que o último capítulo foi levado ao ar. Três décadas depois e após algumas reprises, não é segredo para ninguém que a responsável pela morte da vilã foi Leila (Cássia Kis), que acreditava estar ferindo Maria de Fátima, amante do marido dela. Mesmo que o segredo seja conhecido, rever esse momento clássico é sempre válido.

Divulgação/TV Globo

– Trilha sonora marcante

“Brasil”, cantada oportunamente na abertura, não era a única música marcante em “Vale Tudo”, que tinha a trama enriquecida por uma trilha sonora muito bem escolhida. Ainda na temática política, a novela trazia “É”, de Gonzaguinha, e “Isto Aqui O Que É”, cantada por Caetano Veloso, que contribuíam com os enredos dos personagens. “Faz Parte do Meu Show”, de Cazuza, pontuava os momentos românticos de Solange (Lídia Brondi) e Afonso (Cássio Gabus Mendes). A relação de Ivan e Raquel era marcada pela música “Tá Combinado”, cantada por Maria Bethânia. Entre os artistas internacionais da trilha, estavam: Rod Stewart, George Michael, Whitney Houston e Charles Aznavour.

Divulgação/TV Globo

– Cenas e diálogos inspirados

Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères reuniram, em “Vale Tudo”, muitas cenas marcantes e diálogos inspirados entre os personagens. Além da já citada conversa sobre ética entre a família de Maria de Fátima, a vilã também teve diversas discussões importantes com Raquel. Em uma delas, talvez a mais intensa, a mãe rasga o vestido de noiva da filha após uma série de agressões verbais da jovem. O drama da luta contra o alcoolismo vivido por Heleninha (Renata Sorrah) também rendeu sequências marcantes. Os absurdos ditos por Odete Roitman, que sempre tinha algo de ruim a falar sobre o Brasil, representam a inspiração dos autores com o texto. Tudo isso, é claro, sem contar o tradicional final de Marco Aurélio e o assassinato da vilã principal.