Cinco motivos para não perder a reprise da novela “A Indomada”

Divulgação/TV Globo

Por Erick Rodrigues

Uma cidadezinha do litoral do Nordeste, colonizada pelos ingleses no século XIX, onde absolutamente tudo pode acontecer. Essa é a definição de Greenville, um lugar em que hábitos e costumes de brasileiros e britânicos se misturam, criando uma gama de personagens curiosos e engraçados. Além da influência dos fundadores, o município é palco de uma série de acontecimentos inusitados, que vão da aparição de um anjo na praça central até a abertura de uma imensa cratera que só termina do outro lado do mundo.

Esse é um resumo do universo criado pelos autores Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares para a novela “A Indomada”, que volta ao ar na próxima segunda-feira (30), no canal Viva. O folhetim é um dos melhores representantes do realismo fantástico na televisão brasileira, gênero que já produziu outros sucessos como “Roque Santeiro”, “Saramandaia” e “Pedra Sobre Pedra”.

A criação de uma história com elementos do realismo fantástico permitiu aos autores a inserção de acontecimentos curiosos, que, aliados ao humor, deram o tom da novela. Além disso, a construção de personagens “carregados nas tintas” e engraçados é um dos méritos da trama, marcada por uma série de tipos específicos da televisão.

Outro destaque de “A Indomada” é o estrangeirismo presente nos diálogos dos personagens, misturado ao sotaque do nordeste brasileiro.

Para marcar a volta da novela, que considero uma das melhores já produzidas na televisão brasileira, resolvi listar cinco motivos para não perder a oportunidade de revisitar Greenville.

CINCO MOTIVOS PARA REVER “A INDOMADA”

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1) REALISMO FANTÁSTICO

A tendência de tornar os folhetins mais realistas praticamente soterrou as propostas mais lúdicas do gênero nos últimos dezoito anos. “A Indomada”, exibida em 1997, foi uma das últimas novelas a apostar no universo do realismo fantástico na TV. Esse gênero, que, apesar de estar apoiado em assuntos e temas do dia a dia, permite que os autores “viajem” nas propostas e criem situações divertidas e inusitadas. Na trama de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, por exemplo, um buraco no centro de Greenville permite que o delegado Motinha (José de Abreu) vá parar no Japão. A cidade fictícia também registra um fenômeno inédito: três luas aparecem no céu da região, elevando a libido do casal Scarlet (Luiza Tomé) e Ypiranga (Paulo Betti). Isso sem contar a transformação do jovem Emanuel (Selton Mello) em anjo, na frente de todo mundo.

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2) INGLÊS COM SOTAQUE NORDESTINO

Greenville foi colonizada por ingleses e, por isso, os habitantes da cidade preservam hábitos e costumes da terra da Rainha, como tomar o tradicional “Chá das Cinco”. A maior influência da cultura inglesa, no entanto, está na língua, que mistura palavras típicas dos colonizadores com o sotaque nordestino. Essa fusão produziu, por exemplo, a expressão “Oxente, my God”, usada como se fosse uma vírgula entre os habitantes da cidade. Por lá, ao invés das tradicionais desculpas brasileiras, é comum alguém manifestar que sente muito dizendo “minhas apologias”, uma adaptação da palavra correspondente da língua inglesa. Outra mistura que define o jeito de falar do universo dos autores saiu da boca do delegado Motinha, que, em certo momento da trama, pergunta: “você está me understanding?”. Sem dúvida, um dialeto inusitado para aquela região.

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3) A VILÃ

Poucas vilãs da televisão brasileira são conhecidas pelo nome completo. É o caso de Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque (Eva Wilma), a personagem que dá as cartas em “A Indomada”. Exagerada e parecendo uma antagonista de desenho animado, Altiva é uma beata que bate no peito para pregar a moral e os bons costumes, mas não hesita em demonstrar preconceito e destruir os inimigos a todo custo, especialmente a sobrinha Helena (Adriana Esteves). Outro alvo preferido das maldades da vilã são as “quengas” do bordel de Zenilda (Renata Sorrah), que, segundo ela, mancham a reputação da população local. A megera, que é capaz de invocar um “raio divino” para atingir a cidade, teve o fim que mereceu, e, depois de morrer queimada, ainda apareceu para ameaçar a todos: “I will be back”, disse a fumaça roxa que formou o rosto de Altiva no céu de Greenville.

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4) O CADEIRUDO

Apesar de poder ser considerada pacata em relação a um grande centro urbano, Greenville sofre com um problema que aterroriza as mulheres. Nas noites de Lua Cheia, uma misteriosa criatura, conhecida como Cadeirudo, encurrala as moradoras pelas ruas da cidade, que sempre desmaiam quando encontram com a figura. A ação intriga as autoridades, especialmente a juíza Mirandinha (Betty Faria), que quer prender o meliante a todo custo. Afinal, o que quer um ser humano, com um andar engraçado, que assusta mulheres sem sequer tocá-las? O mistério é revelado lá no último capítulo, após uma emboscada feminina, e produz uma das sequências mais marcantes da novela. Mesmo que o segredo seja facilmente revelado com uma simples busca na internet, vale a pena ficar ligado na ação do Cadeirudo e seguir a trama para descobrir a identidade da criatura.

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5) COADJUVANTES INSPIRADOS

“A Indomada” é uma das novelas que mais produziu personagens coadjuvantes engraçados e inspirados, frutos da imaginação fértil da dupla de autores. Um dos tipos mais marcantes é Pitágoras Mackenzie (Ary Fontoura), um político à moda antiga que gosta de usufruir da influência do poder, mesmo com uma fama de corrupto. Circulando pela cidade de cartola e bengala, ao melhor estilo Winston Churchill, Pitágoras é uma caricatura bem humorada  do que existe de pior na política, algo que pode ser muito oportuno nos dias atuais. O casal Scarlet e Ypiranga também são exemplos de coadjuvantes que roubam a cena em Greenville. Os personagens não perdem a oportunidade de “nhanhar”, forma carinhosa de se referirem ao sexo, o que rende situações engraçadas ao folhetim. O padre José (Pedro Paulo Rangel), o delegado Motinha, a beata Cleonice (Ana Lúcia Torre) e a empregada Florência (Neusa Borges) são outros bons destaques nessa novela imperdível.