“Breaking Bad” ainda é a melhor série de todos os tempos após dez anos da estreia

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Por Erick Rodrigues

* Este texto contém spoilers!

Se, atualmente, o valor criativo da indústria do entretenimento está concentrado especialmente nas séries de TV, sobretudo as norte-americanas, isso se justifica pela qualidade dos trabalhos do gênero já apresentados, que pavimentaram o caminho para roteiristas, atores, diretores e produtores criarem o cenário que vemos hoje, formado por uma grande variedade de enredos e opções para maratonar.

A escolha da melhor série de todos os tempos é muito subjetiva e pode variar entre as pessoas ou ser feita por rankings, que ouvem público e profissionais da área. Reconhecendo a importância de grandes produções da televisão mundial que figuram nessas listas, como “The Sopranos”, “The Wire”, “Seinfield”, “Friends” e até a recente “Game of Thrones”, ainda escolho classificar outra produção como a melhor da história: “Breaking Bad”.

Completando dez anos do lançamento da série, inclusive com uma reunião do elenco para a capa da revista internacional “Entertainment Weekly”, “Breaking Bad” ainda é o modelo a ser superado entre os enredos apresentados na televisão mundial. Por mais diverso e bem produzido que seja o universo das séries, com opções de qualidade aos montes surgindo pela valorização do gênero, nenhuma ainda foi capaz de repetir a reunião de características que levaram “Breaking Bad” ao topo.

A estreia de “Breakind Bad”, em 2008, foi tímida e, mesmo diante dos bons elogios iniciais, a série demorou um pouco para se tornar um fenômeno da televisão. O primeiro episódio apresentou Walter White (Bryan Cranston), um pacato professor de química que vive um momento pessoal conturbado. Ao mesmo tempo em que parece incomodado com o fato de levar uma vida comum, o personagem ainda lida com problemas financeiros e com uma notícia que pode mudar tudo: a descoberta de um câncer.

Esse é pontapé inicial de uma mudança de vida para Walter White, que sacrifica a vida simples com a esposa Skyler (Anna Gunn) e Walter White Jr. (RJ Mitte) para se tornar Heisenberg, um temido traficante de drogas, que, ao poucos, conquista fama e dinheiro disputando o comércio de metanfetaminas com outros bandidos da região.

A complexidade dos personagens de “Breaking Bad” é um dos fatores que construíram o sucesso da série. Walter White é um anti-herói que começa a história sendo exaltado por suas aparentes qualidades, mas que, aos poucos, vai revelando uma implacável crueldade e necessidade por poder. Através do personagem, o roteiro procura a seguinte discussão: afinal, o ser humano se torna mau, pelo ambiente ou circunstâncias, ou apenas revela a verdadeira face com o tempo?

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Com a conclusão da série, após cinco temporadas, me parece que Walter White só deixou que sentimentos e condutas negativas, antes rejeitos pela sociedade e o ambiente em que vivia, viessem à tona. O professor de química carregava mágoa, inveja e até uma necessidade de vingança dos ex-sócios premiados internacionalmente, que seguiram um caminho de sucesso enquanto ele foi levado a uma vida mais comum. Ressentimentos no casamento com Skyler e na relação com o cunhado Hank (Dean Norris) também construíram a personalidade que revelaria a faceta Heisenberg, que parecia apenas precisar da desculpa de conseguir dinheiro para se revelar.

Jesse Pinkman (Aaron Paul), parceiro de Walter White nos negócios, também carrega uma dose de dubiedade. Ao longo de toda a série, o personagem sempre aparece em oposição ao protagonista, apesar da proximidade. No começo, Jesse é o transgressor, capaz de escolhas erradas, especialmente sobre si mesmo. Aos poucos, principalmente depois que Heisenberg começa a se estruturar como o grande chefe do tráfico da região e das escolhas levadas por essa posição, ele vai revelando um lado mais leve e humano, evidenciando mais uma vez a oposição de personalidade com o parceiro.

Além da dupla central, a série também mostra a riqueza da construção de outros personagens, como Skyler e Hank. O advogado Saul Goodman (Bob Odenkirk), que depois ganharia a série própria “Better Call Saul”, também é outro exemplo do gênero, criado a partir de uma personalidade complexa e conflitante. Outros que passaram pela produção, como Jonathan Banks (Mike Ehrmantraut), Gustavo Fring (Giancarlo Esposito) e Jane Margolis (Krysten Ritter) também deixaram suas marcas na produção.

Esse nível de excelência não poderia ter sido atingido sem um fundamental trabalho de roteiro. Criada por Vince Gillian, “Breaking Bad” parece ter sido completa e precisamente planejada, do primeiro ao último episódio. Não há capítulos desnecessários ou “barrigas” que apenas empurram os acontecimentos ao longo das temporadas. Todos os conflitos e cenas têm importância para o desfecho da série, quando Walter e Jesse têm o último encontro e entram definitivamente para a história da televisão mundial.

A combinação de personagens complexos e um roteiro inteligente gerou “Breakind Bad”, a grande obra que a TV apresentou na última década e, independente de rankings pessoais, uma das produções mais relevantes de toda a história do gênero. Passados dez anos da estreia e cinco anos do fim da produção, ainda é possível assistir aos episódios e encontrar diferentes detalhes sobre a história, que discutiu moralidade, ética e até a alma humana. A televisão segue tendo um grande chefão. O nome dele? Heisenberg!