“13 Reasons Why” amadurece personagens, mas cansa com repetições e enrolações

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Por Erick Rodrigues

* Este texto contém spoilers!

Com a proposta de discutir questões como bullying, suicídio, assédio, depressão e estupro dentro do universo escolar, a série “13 Reasons Why” teve um primeiro ano polêmico e que fez muito barulho, especialmente por conta de especulações sobre a receptividade que esses temas teriam junto ao público jovem e de que forma eles poderiam influenciar na vida deles. Agora, na segunda temporada, a série do Netflix tenta dar continuidade a essa proposta e evolui bastante na construção dos personagens, mas ainda deixa muito a desejar em relação ao ritmo narrativo e escolhas repetitivas do roteiro.

Nos novos episódios, disponibilizados no serviço de streaming, todos estão vivendo os desdobramentos causados pelo suicídio de Hannah Baker (Katherine Langford) e das fitas deixadas por ela, que narravam problemas vividos no ambiente escolar. O segundo ano mostra o julgamento de uma ação, movida pelos pais da jovem, contra a escola, acusada de não ter atuado para evitar que ela tomasse a decisão de tirar a própria vida.

Com o processo no centro da cobertura da mídia local, os colegas de Hannah sentem a pressão de testemunharem para ambas as partes envolvidas. Apenas Clay (Dylan Minnette) não entende os motivos de não ter sido chamado para depor. Ainda perturbado pela morte de Hannah, o jovem apenas reage aos relatos dos envolvidos, inclusive aos mentirosos, e se vê envolvido em uma nova busca pela verdade: quer provar a culpa de Bryce (Justin Prentice) nos estupros de Hannah e Jessica (Alisha Boe), tentando, inclusive, mostrar que existe a repetição de um comportamento que precisa acabar.

O destaque positivo da segunda temporada de “13 Reasons Why” é a construção mais madura dos personagens, que, em geral, deixam algumas características superficiais de lado e evoluem. Jessica ganha mais nuances por conta dos traumas causados pela violência sexual sofrida e das tentativas de superá-los; Alex (Miles Heizer), se recuperando de uma tentativa de suicídio, tenta retomar a vida e a memória dos acontecimentos anteriores; e Justin (Brandon Flynn), depois de um tempo afastado e vagando pelas ruas, enfrenta conflitos anteriores e o vício em drogas para seguir em frente.

Mesmo que a maior parte dos personagens tenha evoluído no segundo ano, alguns não saem do lugar. Clay, levando em conta a importância dada a ele pelo roteiro, não tem grandes funções e, gravitando em torno dos outros colegas, sempre parece perdido. A trama até ensaia construir alguma complexidade no personagem, com sinais de rebeldia e de dúvidas sobre o comportamento de Hannah, mas tudo isso acaba tendo uma abordagem superficial. No fim, Clay só consegue soar como chato. Como ele, Tony (Christian Navarro) e Courtney (Michele Selene Ang) também são mal aproveitados e rendem menos do que poderiam.

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Apesar das boas novas nuances dos personagens, a temporada traz episódios cansativos, sustentados por recursos narrativos repetitivos e cenas desnecessárias, que servem apenas para enrolar os desfechos. Os depoimentos no tribunal e as fotos que surgem para tentar comprovar a culpa dos crimes de Bryce têm a mesma função das fitas do primeiro ano. Por não trazer nada de novo, a dinâmica não empolga. O último episódio, construído a partir de um desfecho satisfatório dos principais acontecimentos, é o principal exemplo da enrolação da série, trazendo sequências excessivamente prolongadas e pouco importantes.

Novamente, a principal polêmica de “13 Reasons Why” está relacionada aos temas. Se, no primeiro ano, as cenas do suicídio de Hannah geraram controvérsia, agora, o foco fica na violência vivida por Tyler (Devin Druid), vítima do grupo dominante do colégio. Depois de enfrentar os valentões, o jovem é covardemente agredido e humilhado em uma cena forte, que mostra, inclusive, o cabo de um esfregão sendo enfiado no ânus dele. Espectadores prometeram boicotes e criticaram a intensidade da sequência, mas ela serve para mostrar que o bullying e a violência escolar podem ser cruéis e afetar profundamente a vida de alguém.

Ouvi muitos argumentos preocupados com os efeitos que a série pode ter em adolescentes que estejam passando pelos mesmos problemas na escola. Sigo acreditando, porém, que trazer esses acontecimentos à luz, todos já vistos ou relatados em noticiários pelo mundo, é muito melhor do que continuar com essas questões “debaixo do tapete”, dizendo que os efeitos do bullying são supervalorizados. Para isso, também é importante que os temas provoquem um diálogo, que devem ser levados para o dia a dia. A segunda temporada também traz uma discussão sobre o assédio e a violência sexual de mulheres, que, inclusive, poderia ter ganho mais espaço nos episódios.

No fim, “13 Reasons Why” oscila muito entre boas qualidades e defeitos profundos. Com personagens mais bem construídos e temas relevantes, a série erra com os roteiros cansativos, que privilegiam repetições e enrolam o espectador para um desfecho pouco impactante. A enrolação trazida por cenas e conflitos desnecessários levam a uma perda importante de força narrativa, que também geram um esvaziamento do interesse do espectador.

13 REASONS WHY (segunda temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)