Por Erick Rodrigues

É curioso que as séries da Marvel do Netflix insistam em um erro em comum: todas já fizeram ou fazem uso de recursos para arrastar suas tramas, prolongando injustificadamente conflitos e resoluções apenas com o padrão de episódios estabelecido. Com exceção de “Defensores”, todas já tiveram o mesmo problema, que faz com que o roteiro perca força e chegue desgastado ao final na temporada. O segundo ano de “Jessica Jones”, lançado recentemente no serviço de streaming é o mais novo exemplo desse desgaste.

A heroína na Marvel, que não convive bem com o rótulo, volta para a segunda temporada com uma nova proposta. Depois de se livrar da influência de Kilgrave (David Tennant), Jessica Jones (Krysten Ritter) e os demais personagens enfrentam vilões diferentes agora. Cada um deles está em sua própria jornada pessoal e trava uma luta contra medos, traumas, frustrações e situações inacabadas.

De volta aos negócios, Jessica tenta restabelecer a rotina de investigadora particular, mas acaba tendo, como foco do principal caso, o próprio passado. Confrontada pelo status de heroína ou vigilante, a protagonista decide encontrar os responsáveis por transformá-la em um ser humano com poderes especiais. Para isso, ela segue pistas até os médicos responsáveis pelos experimentos, que também deram poderes a outros pacientes, que eram recolhidos feridos de hospitais.

A busca para descobrir mais sobre os experimentos faz Jessica enfrentar diretamente os principais traumas do passado, que envolvem o acidente com a família dela. A investigadora beberrona, entre as investigações pessoais, também precisa lidar com uma concorrência acirrada nos negócios e a chegada de Oscar (J.R. Ramirez), o novo síndico do prédio, que, a princípio, parece se incomodar com a presença da protagonista.

Personagens secundários também enfrentam desafios em suas jornadas particulares. Trish (Rachael Taylor) continua afetada pelo passado artístico e de envolvimento com drogas, mas se dedica a uma nova obsessão: desvendar o passado de Jessica e fazer “justiça” contra aqueles que faziam os experimentos secretos. Aos poucos, no entanto, a personagem revela frustrações em não ter poderes extraordinários como a irmã de criação.

Malcolm Ducasse (Eka Darville), fiel parceiro de Jessica nas investigações, também lida com questões pessoais ao ter a dedicação questionada e enfrentando os “fantasmas” do passado em relação ao vício em drogas. A advogada Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss), diagnosticada com uma doença incurável, é outra que enfrenta os próprios vilões na esperança de encontrar uma cura.

“Jessica Jones” ganha uma segunda temporada mais madura, que se dedica a trazer profundidade aos personagens e explicar as escolhas deles. A escolha por não concentrar as ações em um vilão específico mostra-se muito acertada e alimenta o interesse do espectador pelos conflitos. Algumas escolhas do roteiro para justificar as jornadas pessoais soam previsíveis, mas é inegável que funcionam bem dentro dos arcos narrativos.

Apesar dessa maturidade, o roteiro escorrega por outro lado. Para encaixar as histórias nos 13 episódios da temporada, a série abusa do prolongamento dos conflitos, preenchendo os capítulos com cenas desnecessárias e ações repetitivas. O resultado final é a sensação de que a temporada se arrastou e de que poderia ter, no mínimo, três episódios a menos. Esse atraso na resolução de alguns conflitos é ajudado pelo foco dividido da protagonista com outros personagens, o que ajuda a “atrasar” a série.

Fora da trama, “Jessica Jones” vem acompanhada de significados importantes para a indústria do entretenimento. Além de focar em personagens femininas, a série é toda dirigida por mulheres, o que deixa uma mensagem relevante no momento em que se discute uma participação e equidade salarial das figuras femininas na área artística.

Entre acertos e erros, “Jessica Jones” ainda consegue mostrar que é a série da Marvel que melhor constrói personagens e conflitos. A aposta em jornadas individuais reduziu a importância da necessidade da figura de um vilão tradicional e criou uma profundidade interessante para temporadas futuras. A produção pode ganhar ainda mais se desprender do padrão de episódios e focar em tramas mais objetivas.