Por Erick Rodrigues

O que se pode guardar no forro de um vestido? Um nome, um retrato, um segredo, muitos sentimentos. Em, pelo menos, dois momentos de “Trama Fantasma”, o roteirista e diretor Paul Thomas Anderson usa o renomado estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) para explicar ao espectador sobre do que se trata o filme. Nos diálogos sobre o que o personagem esconde quando confecciona suas roupas, ele dá uma dica importante para quem assiste: admire a beleza da obra, mas preste atenção no “forro” para descobrir do que realmente se trata.

Vencedor do Oscar de melhor figurino, “Trama Fantasma” se passa na década de 50 e mostra a rotina do famoso e metódico estilista, que não gosta de interrupções, prefere silêncios e se inspira em musas para criar seus vestidos. Logo se percebe, no entanto, que o fascínio pelas mulheres é passageiro e elas são substituídas com a mesma facilidade com que uma roupa usada é trocada por uma nova. O trabalho dele é amparado pela irmã, Cyril (Lesley Manville), que dá todo o suporte para Woodcock e entende como poucos o temperamento do irmão.

Quando sai de Londres para um período no interior, após a dispensa de outra de suas musas, o estilista escolhe uma nova mulher para ter ao lado. Alma (Vicky Krieps) trabalha como garçonete e corresponde aos olhares de Woodcock, aceitando um convite para jantar. O corpo “comum” e pouco esguio dela, como faz questão de deixar claro o estilista, o inspira a criar um modelo e, logo, a mulher se torna o principal “cabide” para as criações do protagonista.

Indo morar na casa de Woodcock e participando ativamente do processo de trabalho dele, mesmo sem o devido reconhecimento, Alma começa a perceber as dificuldades de conviver com o estilista. Agressivo e violento com as palavras, o personagem não admite interrupções de inspirações, barulhos ou assuntos em momentos que considera inapropriados. A nova musa não aceita as reações do estilista e procura formas de impor opiniões e atitudes, até encontrar uma maneira mais radical de demonstrar poder na relação.

À primeira vista, “Trama Fantasma” parece um filme sobre o comportamento abusivo e metódico de um estilista, mas é preciso olhar além e lembrar da dica do próprio personagem sobre os segredos escondidos nos forros dos vestidos. Para chegar até esse momento, no entanto, a narrativa usa um ritmo moroso, que se importa com detalhes e exige paciência do espectador. Quando a verdadeira história se revela, após pouco mais da metade do longa, o público já está fascinado pela relação nociva do casal, que se envenena enquanto permanece junto.

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Na verdade, o filme de Anderson constrói um cenário de beleza arrebatadora para falar sobre o que corrói as vidas íntimas das pessoas, que, ao mesmo tempo, se esforçam para parecerem perfeitas e educadamente alinhadas. O amor é um dos últimos sentimentos que podem classificar a relação entre Woodcock e Alma, sendo, os principais deles, o poder e a posse.

Certo de que sua musa não se encaixa naquele mundo, o estilista coisifica a mulher e passa a deixar claros seus padrões de convivência, mas a musa encontra uma forma de estabelecer a própria forma de poder, que envolve a fragilidade do protagonista. No meio dessa guerra sutil e, em muitos momentos, silenciosa, o casal se destrói, mas surpreendentemente encontra uma maneira de permanecer unido.

O defeito de “Trama Fantasma” se apresenta na primeira metade do filme, quando a narrativa ainda apresenta os elementos de construção da história central. Para atrasar as revelações, o roteiro se prende a momentos que, mesmo não sendo repetitivos, tem a função de transmitir a mesma mensagem ao espectador. Isso deixa a impressão de um filme longo, que se prende a algumas cenas desnecessárias no início para, depois, engrenar. Ainda bem que o fascínio pelos personagens e a direção voyerista de Anderson conseguem manter o interesse até o fim.

Anunciado como o último filme de Daniel Day-Lewis, que anunciou a aposentadoria das telonas, “Trama Fantasma” só reforça o talento do ator, que interioriza o personagem de forma brilhante e cria um estilista que oscila entre momentos de fala violenta e sussurrante. Na forma de sentar, comer e agir, Lewis revela as contradições entre a aparência e o íntimo do personagem. Lesley Manville também cria uma presença impecável na trama, contida e dura, mas que transmite as intenções em olhares.

Lançado agora em DVD e cópia digital, “Trama Fantasma” é um filme difícil, que pode gerar certa má vontade com uma história sofisticada e pouco aparente sobre uma relação de poder e possessão entre um casal. Mesmo que o longa se prenda a momentos desnecessários no início, o roteiro cria personagens instigantes e, quando engrena, revela segredos e discussões que vão além do impacto inicial causado pela beleza de um vestido.