Por Erick Rodrigues

A série espanhola “La Casa de Papel” se tornou um dos assuntos mais comentados do ano ao conquistar espectadores mostrando a história sobre um roubo mirabolante na Casa da Moeda da Espanha. Mesmo não trazendo nada de novo e até abusando da paciência do público, com um roteiro absurdo e refém das próprias escolhas narrativas, a série surpreendeu quando anunciou uma terceira temporada, agora exclusivamente produzida pelo serviço de streaming Netflix.

“La Casa de Papel” trouxe, nas duas primeiras partes, tramas e recursos já vistos em outras obras da cultura pop, entre elas, no cinema. Como não associar, por exemplo, os macacões vermelhos e as máscaras de Salvador Dalí, usados por Berlin (Pedro Alonso) e companhia, ao figurino usado por Dalton (Clive Owen) no assalto ao banco de “O Plano Perfeito”? Em ambas as obras, também, os reféns recebem armas e as mesmas peças de roupas para confundir a polícia.

A série espanhola também mostrou, nos episódios já levados ao ar, ter bebido da fonte do diretor Quentin Tarantino. Em “Cães de Aluguel”, o diretor e roteirista faz com que bandidos usem nomes de cores para não terem informações anteriores ou envolvimento com os colegas de roubo. A mesma tática foi usada pelos discípulos do Professor (Álvaro Morte), que escolheram nomes de países para serem chamados pelos outros.

A peça promocional da terceira temporada de “La Casa de Papel” indica que um novo roubo deve movimentar os personagens da série. Pensando nisso, resolvi listar sete bons filmes sobre roubos que podem servir de inspiração para os roteiros, alguns, inclusive, com elementos já copiados nas partes anteriores.

SETE BONS FILMES SOBRE ROUBOS

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1) Em Ritmo de Fuga (2017)

Mesmo tendo esse título de “Sessão da Tarde” no Brasil, “Em Ritmo de Fuga” (no original, “Baby Driver”), é um dos melhores filmes lançados nos últimos anos. O longa foca as ações em Baby (Ansel Elgort), um motorista com um incomum talento para fugas. Em dívida com Doc (Kevin Spacey), ele participa de roubos e garante emoções fortes para os companheiros. Um diferencial é que Baby, que sofre com problemas auditivos, sempre precisa ouvir música durante os assaltos. Com uma narrativa dinâmica, “Em Ritmo de Fuga” é um musical moderno, que não chega a ter personagens que cantam e dançam por aí, mas é conduzido pela batida das canções que formam a excelente trilha sonora do longa. Talvez, possa ser uma boa ideia que “La Casa de Papel” tenha a música conduzindo a narrativa de algum episódio futuro.

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2) Cães de Aluguel (1992)

Já citei que “La Casa de Papel” bebeu na fonte do plano de roubo orquestrado por Quentin Tarantino em “Cães de Aluguel”, mas a série espanhola ainda tem coisas a aprender com o filme. Os roteiristas poderiam, por exemplo, aprender com Tarantino como fugir de recursos narrativos óbvios, muito vistos durante a ação na Casa da Moeda Espanhola. Em “Cães de Aluguel”, o espectador precisa ficar atento aos detalhes para construir a cronologia da história, apresentada de forma não-linear e que entrega aos poucos pistas do que aconteceu durante um roubo de diamantes. “La Casa de Papel” também poderia aprender boas técnicas de diálogo com a obra de Tarantino, que valoriza cada palavra para criar um roteiro bem amarrado e construir personagens complexos e sólidos.

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3) A Qualquer Custo (2016)

Faroeste moderno e intrigante, “A Qualquer Custo” também já tem um ponto em comum com “La Casa de Papel”: a intenção de vingança contra o “sistema”. A série espanhola, no entanto, não mostra tanta profundidade nesse aspecto quanto o filme de David Mackenzie. Querendo focar nessa vingança do homem comum contra as corporações que só querem levar vantagem sobre as pessoas, os irmãos Tanner (Ben Foster) e Toby (Chris Pine) planejam assaltar uma rede de bancos para quitarem a hipoteca da propriedade da família. É necessário, no entanto, que o espectador tenha paciência para descobrir a real motivação para a ação dos irmãos, que também envolve os efeitos de uma crise econômica  em pessoas que vivem distantes dos centros urbanos.

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4) Onze Homens e Um Segredo (2001)

Muita gente se impressionou com o plano do Professor para o roubo de “La Casa de Papel”, mas é fato que ele ainda teria muito o que aprender com Danny Ocean (George Clooney), o mentor do assalto a um cassino no remake “Onze Homens e Um Segredo”, dirigido por Steven Soderbergh. Mesmo tudo parecendo perdido, o personagem de Clooney mostrou que o planejamento minucioso conta muito no resultado final de uma ação. Danny Ocean também mostrou maior capacidade em reunir a equipe que iria ajudá-lo no roubo ao cassino, escolhendo integrantes com habilidades específicas e psicologicamente mais capazes de lidar com os improvisos que podem surgir durante a ação, algo que fugiu muito do controle com os recrutados pelo Professor. Como se pode perceber, ainda há mesmo muito a aprender.

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5) Um Golpe à Italiana (1969)

Os espectadores que ficaram impressionados com o assalto na Casa da Moeda da Espanha podem ficar com a boca ainda mais aberta com a ação comandada por Charlie Croker (Michael Caine), que assume um plano para roubar barras de ouro no meio de uma cidade italiana. Para isso, o planejamento envolve parar (literalmente!) o trânsito da região e, também, despistar a polícia e a máfia. O resultado é uma ação bem orquestrada e uma perseguição que deixa o espectador vidrado na tela. Sem dar spoilers, é necessário dizer que “Um Golpe à Italiana”, que posteriormente ganharia o remake “Uma Saída de Mestre”, tem um desfecho inesperado e extremamente curioso, recurso que poderia ser utilizado pelos roteiristas de “La Casa de Papel” no futuro para fugir das obviedades já vistas nos episódios anteriores.

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6) Logan Lucky – Roubo em Família (2017)

Depois do remake de “Onze Homens e Um Segredo”, Steven Soderbergh voltou ao gênero com o despretensioso, porém curioso “Logan Lucky – Roubo em Família”. Aqui, os planos mirabolantes deixam os cassinos e visam uma corrida da Nascar. Os personagens, tipos bizarros e engraçados interpretados por Daniel Craig, Channing Tatum e Adam Driver, não focam no prêmio da competição, mas nos lucros que o evento tem com o público, como alimentação, por exemplo. Para isso, os talentos e, curiosamente, os inesperados imprevistos são fundamentais para o sucesso do ambicioso assalto. Mais um exemplo de roteiro que poderia ensinar muito ao grupo do Professor.

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7) O Plano Perfeito (2006)

“La Casa de Papel” reciclou alguns dos ótimos recursos usados pelo diretor Spike Lee em “O Plano Perfeito”, mas novas ideias podem surgir dando uma nova olhada na ação do grupo comandado pelo personagem de Clive Owen. Não faria mal se a série espanhola buscasse a profundidade alcançada no filme de Lee, que transforma um assalto a banco em um filme bastante político e crítico sobre o mundo em que vivemos. Com os diálogos e a apresentação dos personagens, aos poucos, o espectador percebe que não está apenas vendo um roubo em “O Plano Perfeito”, mas algo muito mais complexo, que pode ganhar contornos diferentes a cada exibição. Essa complexidade ainda está longe de ser alcançada na série espanhola, mas uma boa inspiração nessa direção poderia ser um diferencial.