Por Erick Rodrigues

Para um filme cuja proposta é retratar o universo musical, especialmente sobre a trajetória de uma banda de rock, um dos principais desafios é recriar a atmosfera de comunhão de um show, que transforme o espectador da sala de cinema em mais um na multidão que aproveita e sente o poder da música durante a apresentação de um grupo. Nesse aspecto, “Bohemian Rhapsody”, a aguardada cinebiografia da banda Queen, cumpre a missão com louvor e “arrasta” quem assiste para as sequências musicais do longa, sejam elas em estúdio ou simulando grandes shows. Aliada ao bom desempenho do elenco, essa qualidade se sobressai no resultado final, mas, mesmo assim, defeitos de narrativa são muito perceptíveis.

Com direção de Bryan Singer, demitido durante o processo de produção e substituído por Dexter Fletcher, “Bohemian Rhapsody” traz um panorama sobre a trajetória artística do Queen, começando pela reunião dos integrantes do grupo, passando pelos principais sucessos e chegando a um dos pontos mais marcantes da carreira da banda, uma apresentação histórica do festival Live Aid, em 1985.

Como não podia deixar de ser, o foco principal da história é o vocalista Freddie Mercury (Rami Malek), que se uniu aos outros integrantes do grupo após uma oportunidade para mostrar do que era capaz artisticamente. O longa retrata a dedicação da banda para gravar os primeiros sucessos e imporem um estilo diferenciado, que caracterizou a trajetória do Queen e serviu de inspiração para outros artistas. Os processos de criação e, até mesmo, os problemas decorrentes da imposição e reconhecimento das ideias também estão presentes no filme.

Imersa no contexto artístico dos trabalhos do grupo, a vida pessoal de Freddie Mercury é tema de boa parte do filme, destacando especialmente o relacionamento do vocalista do Queen com Mary Austin (Lucy Boynton), as questões sobre a sexualidade do artista e como tudo isso interferiu no trabalho com Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello).

O desafio que qualquer produção do gênero carrega, de criar sequências musicais impactantes e contagiantes, é superado com louvor por “Bohemian Rhapsody”, que consegue “sugar” o espectador da cadeira para a plateia de um grande show da banda. Com sequências bem montadas e dinâmicas, o longa se beneficia do sentimento causado pelas músicas do Queen e contribui com o visual necessário para inserir quem assiste naquele contexto.

O desempenho do elenco é outro ponto positivo para a produção, a começar por Rami Malek, que impõe uma presença marcante, fazendo jus a Freddie Mercury, e mostrando um trabalho corporal muito competente. O ator derrapa nas cenas mais dramáticas, mas nada que comprometa o resultado final. Em alguns gestos de Malek, é fácil o espectador pensar, por um instante, que se trata mesmo do vocalista do Queen. Também é preciso destacar o trabalho e o carisma de outros nomes como Gwilyn Lee, Ben Hardy, Lucy Boynton, Tom Hollander e Allen Leech.

Divulgação

Por serem bem marcantes, essas qualidades acabam se sobressaindo em relação aos problemas do filme, que também devem ser levados em consideração. O principal é a estrutura narrativa previsível, que insere personagens e situações de modo que o espectador consiga adivinhar os acontecimentos seguintes. O roteiro segue um ritmo linear e não cresce em nenhum momento, sem cenas impactantes ou surpresas. Em suma, tudo é muito tradicional, se contrapondo, inclusive, com a ousadia característica da banda retratada.

Também decepciona o fato de que a personalidade de Freddie Mercury não é aprofundada pela história, que só se dedica a retratar acontecimentos e mostrar superficialmente como aspectos pessoais interferiram na carreia do grupo. Alguém pode argumentar que o filme é uma biografia da banda e não sobre apenas um indivíduo, mas é inegável que a personalidade do vocalista tem um influência relevante para o trabalho do Queen. O longa, no entanto, é raso ao retratar como a vida particular de Mercury interfere diretamente na carreira dele, como, por exemplo, na imposição de um estilo próprio em um ambiente mais rígido de criação familiar.

Sinto falta, também, que “Bohemian Rhapsody” trate com mais maturidade as questões relacionadas ao consumo de drogas e sobre os relacionamentos do cantor, que, no filme, são apenas detalhes, mas, na vida real, ajudam a explicar a complexidade do artista. A forma como o longa aborda a aids diagnosticada em Mercury é outro ponto pouco valorizado pelo roteiro, restringindo um tema que, na época, era escandaloso.

O sentimento que fica após uma sessão de “Bohemian Rhapsody” é bom, especialmente pelo fato de o filme entregar tudo o que se espera de uma história que se passa no universo musical. As sequências do gênero, sejam elas de ensaios ou shows, são capazes de arrebatar o espectador e, aliadas ao desempenho do elenco, cumprem um papel importante no longa. As falhas do roteiro, previsível e raso ao retratar a personalidade de Freddie Mercury e fatos relacionados a ele, impedem, no entanto, que a obra seja uma experiência completamente marcante.

BOHEMIAN RHAPSODY

COTAÇÃO: bom

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