“Projeto Flórida” e a dura realidade da vida ao redor de um mundo de fantasia

Willem Dafoe recebeu uma indicação ao Oscar por "Projeto Flórida" - Divulgação

Por Erick Rodrigues

O Walt Disney World Resort, na Flórida, nos Estados Unidos, é o destino dos sonhos de muitas crianças e adultos, que passam férias e, até mesmo, lua-de-mel nesse mundo de fantasia, como o próprio complexo de parques temáticos se vende. O que as pessoas nem param para pensar é que a realidade da vida ao redor desse “lugar mágico” pode ser dura, inclusive, para crianças.

“Projeto Flórida”, que emplacou apenas uma indicação no Oscar 2018, poderia ter ganho mais destaque na premiação com a história de pessoas que moram em hotéis nos arredores dos parques da Disney e que, apesar da proximidade, estão bem distantes da “magia” do complexo. A inspiração para o tema, aliás, passa longe da ficção: o diretor e roteirista Sean Baker quis falar sobre o resultado da crise hipotecária dos Estados Unidos, em 2007, que fez com que famílias perdessem as casas e passassem a se alojar nesses hotéis, geralmente localizados próximos a rodovias.

Na trama, Moonee (Brooklynn Prince) passa as férias escolares perturbando os hóspedes/moradores de um hotel modesto em Orlando, no caminho para a Disney. Com os amigos, a menina carrega malas para conseguir moedas, cospe em carros, pede dinheiro a estranhos para comprar sorvete e importuna a vizinha para conseguir comida grátis em uma lanchonete. A atividade preferida dela, no entanto, é aloprar o gerente do lugar, Bobby (Willem Dafoe).

Apesar de ter que colocar ordem no hotel, Bobby se desdobra para resolver conflitos e ajudar as pessoas que moram ali, seja tolerando atrasos no pagamento do aluguel dos quartos ou procurando novos lugares para as pessoas morarem, já que os proprietários tentam evitar que os empreendimentos virem moradias fixas.

As principais dores de cabeça de Bobby são causadas Halley (Bria Vinaite), a mãe de Moonee. Desempregada, ela busca formas de honrar com os pagamentos do aluguel do quarto, seja pedindo dinheiro emprestado ou vendendo perfumes na porta de hotéis mais sofisticados. Só que a forma como Halley cria a filha acaba criando problemas com os vizinhos e o Conselho Tutelar.

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“Projeto Flórida” tem uma narrativa guiada por um olhar infantil, que cria uma atmosfera lúdica em torno da dura realidade da vida. Moonee e os amigos se aventuram pela região como se vivessem uma aventura, formada por caminhos desafiadores, risadas e travessuras. Através desse olhar ingênuo, que não percebe o perigo, o filme mostra como as crianças ficam expostas a problemas do cotidiano, entre eles, a ameaça da pedofilia.

O roteiro usa esse olhar infantil para conduzir o espectador pelas descobertas do filme. Acontecimentos aparentemente simples se revelam, aos poucos, uma fuga da realidade para Moonee, que é mandada para um longo e divertido banho na banheira enquanto a mãe se dedica a uma atividade para conseguir dinheiro. Uma ingênua sessão de selfies de biquíni entre as duas também ganha um significado que vai além de proporcionar alegria a uma criança.

Além disso, “Projeto Flórida” parece querer colocar um holofote sobre uma crise envolvendo pessoas que não estão em estatísticas do governo, já que não estão desabrigadas. O resultado é um retrato de Orlando que não se vê nos panfletos de agências de viagens e que mostra pessoas em dificuldades que gostariam de, pelo menos, um pouco de magia na vida.

Principal nome do elenco, Willem Dafoe conquistou uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Com uma composição realista e afetuosa, o intérprete transborda humanidade, mesmo nos momentos em que o personagem precisa se distanciar dos problemas dos hóspedes. Agindo como “pai” de todos, Bobby tenta suprir as carências da própria vida, lidando, inclusive, com a distância do filho. A menina Brooklynn Prince é uma grande força do filme e contribui muito para a visão lúdica da trama.

Destacando a realidade de quem vive tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe do mundo mágico da Disney, “Projeto Flórida”, agora disponível em plataformas digitais de streaming, utiliza elementos infantis, como cores e uma narrativa sensível, para mostrar a vida de quem tem preocupações muito mais sérias do que conseguir ver a princesa na torre do castelo. No fundo, no entanto, todos precisamos de fantasia, mesmo que ela fique restrita a assistir fogos de artifício coloridos de um parque que parece inalcançável.